O Federal
Capítulo 10
Camille
Ainda parecia errado voltar a rotina, voltar a ser normal.
Como se a vida tivesse sido sempre assim, como se minha irmã nunca tivesse existido. Olhei através da janela do carro, o dia não estava tão bonito, parecia que em breve choveria, de tempos em tempos, Miguel olhava-me pelo retrovisor. Ele era motorista do meu pai e responsável pela frota de táxis que ficavam a disposição dos hóspedes e moradores dos Hotéis Alencar. Depois de passar quase quarenta minutos suando e tremendo no banco do motorista, eu desisti de tentar dirigir e o chamei. No início, logo depois do enterro de Liz, eu fazia isso de propósito, como uma forma de punição a mim mesma, e eu merecia. Minha cabeça entrava em transe assim que eu pensava em dirigir, o medo de machucar alguém outra vez, de matar de novo, isso me consumia. A terapia estava me ajudando, por um tempo eu não conseguia nem ao menos entrar num automóvel, não que tudo tivesse diminuído, eu só sabia lidar melhor com a situação.
Olhei para o celular pela trilhonesíma vez, sentindo-me ridícula por ainda checar de minuto em minuto se havia alguma nova mensagem e quando a notificação aparecia, todos os meus músculos pareciam ficar aquosos, traidores, esperando que fosse dele, mas nunca eram. E minha obsessão ficava cada vez pior, a cada vez que eu olhava o quadro, os pensamentos entravam em curto-circuito por que eu não conseguia compreender, eu não era supersticiosa, nunca acreditei nessas baboseiras de destino, mas tudo parecia como um livro, onde o autor enchia os capítulos de pequeninas situações incomuns.
Guardei o aparelho na bolsa e esperei que Miguel parasse o carro para descer, senti um pingo solitário de chuva na bochecha e caminhei até o elevador privativo da cobertura, fazia algum tempo que eu me escondia das pessoas, principalmente daquelas que sempre perguntavam se eu estava bem, como se isso fosse realmente importante para elas. Provavelmente nunca era.
Coloquei meu dedo na leitura digital e esperei que a porta abrisse, caminhei em direção à sala e estaquei ao ver Heloísa sentada no sofá maior, apenas ela, deduzi que minha mãe ainda não tinha retornado.
— Heloísa.
— Cami. — Ela deu um sorriso amistoso, mas continuou onde estava.
— Eu estou indo para meu quarto...
— Na verdade, eu vim por você... acho que precisamos conversar.
Estreitei os olhos, tentando entender que tipo de conversa ela queria ter.
— Sua mãe contou para você sobre a festa de Enzo? — Os dedos brancos deslizaram pelo braço do sofá.
A sensação ruim, aquela que sempre vinha quando o nome dele era dito apareceu, para minha surpresa eu não senti medo, apenas um nojo instável de tão grande.
— E porque você acha que devo saber disso?
Ela me olhou, avaliando-me. Por um tempo nós fomos amigas.
Não!
Eu achei que erámos. Descobri que não quando todas as minhas tentativas de diálogo, quando todas as minhas queixas sobre as barbaridades que o filho dela aprontava eram resumidas a nada, ou deixadas para depois.
— Por quanto mais tempo vai insistir nisso?
— Você está vendo isso aqui? — Mostrei a mão que meses atrás abrigaram uma aliança colocada por ele, e agora estava vazia. — Não existe mais nada que me prenda ao seu filho ou a você...
A forma como ela me olhou passaria despercebida por minha mãe ou meu pai, afinal eles enxergavam apenas aquilo que queriam ver, mas eu a conhecia. Era ela quem inventava as desculpas mais ridículas para explicar meus sumiços, eles variavam de acordo com o tempo que levaria para todos os hematomas que o homem que ela chamava de filho deixava em mim.
— Helô. — A voz do meu pai soou atrás de mim, estava tão ocupada encarando a mulher loira a minha frente que não o escutei se aproximar.
— Augusto. — Ela deixou de prestar atenção e sorriu para ele.
Heloisa era atraente, eu nunca soube qual era a idade dela, vez ou outra ficava sabendo de algum procedimento estético que ela havia feito. Silicone, botox, fora o personal que muitas vezes vi na mansão que ela morava. Lembrei-me do que tinha acontecido comigo quando deixei que ele me ensinasse algumas coisas na academia particular que ela tinha na casa. Um atrevimento meu, segundo Enzo.
— Pai, vou deixar vocês conversarem. — Consegui dizer em meio a bile que subiu por minha garganta.
— Estava dizendo a Camille que Enzo está voltando, trouxe um convite para vocês. — Ela mexeu dentro da bolsa e retirou um envelope grande, estendeu-o em minha direção, mas eu cruzei os braços, então ela se dirigiu ao meu pai.
— Fique, Cami. Acho que Enzo é um assunto do seu interesse. — Ele não podia estar mais enganado.
— Tenho coisas da faculdade para fazer. — retruquei, retirando-me.
— Enzo deve chegar no máximo na próxima semana. Ele está ficando louco longe daqui. — Ouvi-a dizer, enquanto me afastava.
Ele era louco em qualquer lugar.
Entrei em meu quarto e joguei o caderno sobre a cama, puxei o prendedor dos cabelos e enfiei os dedos pelos fios. Entrei no estúdio e acendi todos os leds, imediatamente fui atraída pela tela, eu nem mesmo a cobria mais, perdia-me totalmente no tempo, enquanto passava os dedos por ela.
*
Caminhei entre as pequenas miniaturas de humanos, observando a diversidade de desenhos que eles estavam produzindo. Alguns com pincéis e tintas, outros com lápis e hidrocores. Não fazia muito tempo que eu lidava com essas crianças. Às vezes me sentia uma usurpadora, esse lugar era de Liz não meu. Ela dava algumas aulas de português e matemática para essas crianças, a maioria delas estava com câncer, algumas em fases críticas. Eu ainda não conhecia quem era o responsável pelo projeto, mas já o admirava. Os pais das crianças também falavam dele com um respeito imenso.
— Tia. — Isabelle me chamou, no queixinho redondinho uma manchinha de tinta verde. — Você acha que o meu pai vai gostar?
Apanhei a tela de suas mãos e observei os traços delicados de uma rosa vermelha, ela era a que realmente tinha talento, em muitos momentos me vi encantada com o tanto de sentimento que ela conseguia esboçar com a cores, esse estava carregado de amor. Olhei-a com carinho, a cabecinha estava totalmente careca, ela vinha de um quadro agressivo de leucemia. Todas as crianças passavam por exames para detectar a possibilidade de alergia às tintas ou a qualquer outro objeto que usávamos durante a aula. Quem quer que estivesse por trás desse projeto devia ter muito dinheiro, ou muitos contatos dispostos a colaborar com os custos, porque eles eram muitos.
— Com certeza, Belle. Está lindo. — Limpei suavemente o queixinho e abaixei-me perto de onde ela estava. — Porque escolheu desenhar uma rosa hoje?
A menina parou um minuto para pensar.
— Por que meu pai sempre leva rosas para mim, mas elas morrem... essa não vai morrer.
Assenti sem conseguir dizer nada, entendendo a profundidade das palavras. Perguntava-me o quanto ela sabia sobre a doença que possuía, ela só tinha sete anos.
— Que tal fazer uma folha agora. — Instruí, ela me deu um sorriso e passou a procurar pela tinta verde.
Voltei a caminhar e parei perto de onde Nina estava sentada, ao contrário do desenho de Isabelle, o dela estava horrível. Já era uma rotina ela aparecer nos dias em que eu dava aula aqui, o motorista a deixava em casa depois.
— O que está tentando desenhar? — perguntei, ela usava um boné ridículo para esconder os cabelos das crianças.
— Meu irmão. — A testa estava franzida por conta da concentração. Inclinei-me para ver melhor o desenho. Ele não parecia em nada com o homem que conheci. O tom que Nina usava para falar dele era reverenciador, mesmo quando estava implicando. Como o traidor que era, meu corpo reagiu instintivamente, a conhecida ansiedade por mais informações. Envergonhei-me por ainda esperar por mensagens dele, já tinham se passado muitos dias.
— Deixe-me ver. — Ela permitiu que eu segurasse a tela, parecia um soldadinho, olhei-a, achando graça. — Você só precisa praticar. — Incitei, devolvendo para ela.
O toque de um celular ecoou e ela ergueu a cabeça.
— É o meu. — Levantou-se para ir até o armário, onde ficavam as bolsas e os aparelhos. Atendeu fora da sala e depois voltou para perto de mim. — Meu irmão está aí para me pegar. — Disse ela, ajeitando o boné.
— Vou pôr a tela para secar. — Sorri. Uma espécie de ansiedade me cozinhando morbidamente por dentro. A língua ávida para fazer perguntas que não eram da minha conta e eu não fiz, apenas a acompanhei até a saída, mas meus olhos procuraram por ele.
Não o vi.
— Eu ligo para você. Vou sair com Ben hoje. — disse ela animada.
Depois das ameaças que ela me contara que Marcone fizera ao rapaz, cheguei a ficar com dúvidas que a história fosse adiante. Nina me abraçou e beijou minha bochecha.
— Bom passeio. — sussurrei e acenei, enquanto ela se afastava.
Ainda continuei olhando, só então vi o carro, mas não quem estava dentro. Os vidros escuros não permitiam. E então eles foram embora, ainda passei um tempo olhando para a rua, pensando no quanto eu tinha pensado nesse homem nos últimos dias. Uma dose exagerada de curiosidade ligada a uma fascínio que eu não conseguia explicar. Ele era bonito, é claro, mas não era isso. Parecia existir um tipo de ligação, algo que eu não conseguia entender, ainda que me atraísse.
E por que tinha se oferecido para ser meu amigo se nem ao menos se importava em manter contato?
Percebi aquela carência antiga e velha conhecida dando as caras, ela era sempre o começo de todo o problema. Na verdade, as coisas estavam exatamente como deveriam, eu não precisava de problemas, eu já tinha muitos deles.
Voltei para a sala e conversei com as crianças sobre o que eles tinham tentado expressar através das pinturas e desenhos que tinham feito, era algo que sempre fazíamos e as horas passavam rapidamente. Quando me dei conta, os pais das crianças começaram a chegar para buscá-las. Com exceção de Isabelle, quem vinha buscá-la sempre era a sua vizinha, um a um eles foram embora e eu fiquei sozinha. Aos poucos fui colocando tudo no lugar, inclusive as telas para secar, liguei para Miguel me buscar, e fui até onde Aline dava aulas de inglês.
O lugar era grande, ao todo eram seis salas e um restaurante amistoso, desenvolvido para as crianças que faziam refeições aqui. Havia dois pscicólogos e um médico sempre a disposição, além de muitos professores que ofereciam conhecimentos de todos os tipos para as crianças. Depois do acidente, esse lugar acabou trazendo oxigênio para minha vida. Algo para me ocupar, para planejar, para expor e principalmente onde a minha pintura fazia sentido, para mim e para outras pessoas.
Aline estava guardando um classificador dentro do armário de ferro, eu costumava dizer que ela parecia com uma atriz chamada Sharon Menezes, os cabelos, o estilo de roupas, eram muito parecidas.
— Se já estiver indo, Minguel está vindo me buscar. — Ofereci, depois de entrar.
— Ah, quero sim. — Ela espreguiçou-se e sorriu.
Aline e eu morávamos no mesmo prédio, mas só a conheci no enterro de Liz, foi através dela que fiquei sabendo desse lugar e me voluntariei para dar aulas de pintura.
— Já entregou seu tcc? — perguntou ela.
— Não, ainda não. Estou surtando.
— Imagino, vamos sair hoje, beber alguma coisa. O que acha? — Uma rotina já estava estabelecida entre nós, ela convidava e eu recusava. — Ah, vamos lá!
— Está bem.
— Vamos ao shopping ver um filme ou jantar em algum lugar.
— Decidimos na hora. — Retruquei sem a mesma animação dela.
Separamo-nos quando chegamos ao prédio, deixei Miguel avisado de que eu ia sair um pouco mais tarde e subi. Não encontrei ninguém, o silêncio habitual predominava e era isso que me incomadava. Procurei por Naiá, mas não a encontrei. Busquei um suco qualquer na geladeira e enchi um copo. Ainda era cedo, eu tinha algumas horas até sair com Aline.
No meu quarto, eu fucei o closet — não me lembrava a última vez que comprei algo, ou que olhei vitrines. Apanhei um vestido preto casual, ele serviria para o cinema ou para o jantar. Deixei-o separado e fui para o banho. Passei muito tempo sob a água morna, procurando em algum lugar animação para mais tarde, infelizmente ela não veio. Ouvi a vibração do meu celular sobre a pia e ignorei, ultimamente as mensagens que eu recebia eram de Nina, de Aline ou de Tarcísio, outro voluntário do projeto. Enrolei uma toalha nos cabelos e vesti o roupão branco e macio que estava no armário acima da pia. Parei dois segundos para me olhar no espelho, o rosto levemente vermelho por causa da temperatura da água. Nunca entendi porque as pessoas elogiavam tanto a minha beleza, como se fosse o que eu tinha de melhor, na verdade eu a via como um fardo, lembrei-me do ar superior com que Enzo costumava me apresentar a seus amigos, como se eu fosse um manequim numa vitrine. Geralmente nenhuma das outras mulheres me queriam por perto depois disso, elas simplesmente me ignoravam, como se estivesse ocupando um lugar que não era meu, e não era, raramente me sentia bem nos eventos que nós iamos, não era por causa do evento em si. Eu gostava das festas, não gostava do depois — das críticas e das cobranças, de não me sentir eu e não ser aceita. Eu não me encaixava em lugar nenhum, parecia estar vivendo em uma vida que não era minha. Liz foi a única a notar o quão mal eu estava, então ela passou a prestar atenção em mim, mais do que deveria, começou a descobrir coisas que eu não queria que ninguém soubesse, afinal a culpa era minha, não é?
*
Abri a gaveta de maquiagens da minha mãe e busquei os itens que eu mais usava — rímel, afinal o meu já estava seco há tempos, e o batom que eu mais gostava de vê-la uasando, era cor de vinho, testei em mim, ainda em frente ao seu espelho, e sorri gostando de como tinha ficado, aproveitei e pintei os cílios, meus olhos ganharam um efeito marcante, parecidos em cor com a pedra verde que eu ainda mantinha no pescoço.
— O que está fazendo aí? — A voz de Joice veio baixinha atrás de mim, notei-a aparecer pelo reflexo do espelho.
— Vim pegar emprestada uma de suas maquiagens.
— Você vai sair? — A insinuação de um sorriso surgiu no canto de sua boca, então ela me olhou, desde os pés calçados com um salto preto médio até meu rosto, faltava apenas retirar a toalha dos cabelos.
— Sim, Aline me convidou para tomar alguma coisa e eu aceitei.
— Se eu soubesse que ia sair tinha marcado uma hora para você no spa.
Minha mãe era sócia de um Spa em Copacabana e de uma clínica de estética, fazia algum tempo que eu não colocava os pés em nenhum dos dois lugares.
— Foi de última hora, mamãe. — Voltei a examinar o rosto no espelho e tirei a toalha da cabeça, amassando os fios, numa tentativa frustrada de pelo menos deixá-los um pouco ondulados.
— Onde vocês vão? — Ela quis saber.
— Jantar em algum lugar, ou ao cinema. Miguel vai nos levar.
Meia hora depois, Aline e eu já estávamos no carro discutindo para onde iríamos e fazendo Miguel dirigir por muito tempo sem destino certo, quando não tinha mais graça alguma paramos em um Pub no Jardim Botânico, segundo ela, o lugar era novo e poderíamos dançar. Acabei me animando quando vi a fachado do lugar, fazia tempo que eu não saia, não assim.
Livre para fazer o que quisesse.