O Federal

Cris Araújo · Capítulo 54 de 63

Páginas do PDF

O Federal

Capítulo 53

Marcone

 

Pela décima vez, ou talvez passasse disso, eu levantei a cabeça

ao ouvir passos, imaginando ser Alexandre ou qualquer médico para me dizer como ela estava, mas estava enganado novamente. Os minutos transformaram-se em horas sem notícia alguma que me desse alguma esperança de que Camille estivesse bem... ou viva. Durante esse tempo todo o que fiz foi amaldiçoar a mim mesmo por não ter enfiado uma bala na testa de Enzo quando tive oportunidade. Antes de sair do hospital completamente desnorteada, Andrea me contara o que Camille lhe dissera ao telefone: que eu iria morrer, que Enzo havia feito alguma coisa. Senti o peso da culpa, uma que estava difícil carregar. A possibilidade de ele estar com Nina passou pela minha cabeça não uma vez só, mas várias e devia ter passado pela de Camille também, mas ao invés de dividir comigo, tentou resolver sozinha. E mais uma vez alguém se machucou no meu lugar, a dor parecia pesar toneladas, nem mesmo os furos de bala estavam doendo tanto quanto a culpa e a raiva que me rasgava o peito. E pensar que se ela não tivesse agido pelas minhas costas eu estaria morto agora, era como se a história estivesse se repetindo, como se a vida perversa como era tivesse me dado um pequeno pedaço do paraíso, para depois me jogar direto no inferno.

Porque era exatamente o que eu estava sentindo agora.

Ouvi passos novamente, mas dessa vez permaneci com a cabeça baixa, irritado demais comigo mesmo e com a cabeça imersa em merda, incapaz de qualquer raciocínio lógico.

As circustâncias nunca estiveram tão contra mim, ao mesmo tempo que eu precisava ficar, tinha consciência que a cada minuto que passava a vida da minha irmã estava mais em jogo, a cada segundo ela podia estar sendo machucada, Nina devia estar com medo, perguntando-se se eu não iria encontrá-la.

Recusava-me a pensar que ela podia já estar morta.

Considerando que eu não fazia ideia das motivações que levaram aquele filho da puta a levá-la. Afonso era completamente ficha limpa, até mesmo as restrições encontradas em seu cpf era relacionada aos remédios da filha, aos tratamentos dela. Reunindo uma força que não sabia existir em mim, levantei-me do canto gelado em que estava e olhei ao redor, procurando pela garota que Alexandre chamara de Julie.

— Há alguma notícia? Qualquer uma... — inquiri à outra garota, li o nome Samanta em seu crachá e chegou a parecer uma piada mórbida.

Ela fez que não, parecendo realmente triste por não ter nenhuma notícia para me dar e claramente com pena de mim. Nesse momento vi Naiá entrar pelas portas de vidro da recepção, fora um pedido meu a Andrea, avisar a babá de Camille sobre o que tinha acontecido. Os pais dela entraram logo atrás da senhora.

— Ela está bem? — ela me perguntou, chorando, tal qual uma mãe faria.

— Ainda não há notícias. — Abracei-a com cautela.

— Foi ele, não foi? — Fungou, soluçando.

Não respondi, o único culpado era eu, foram pequenos errinhos inocentes, o pior deles fora deixar aquele moleque vivo, um erro que eu consertaria logo que saísse daqui, eu queria vê-lo sangrar.

Viramo-nos quando ouvimos o som de passos, a cara de pesar de Alexandre quase me fez recuar, imaginando o pior e tudo ao redor me incomodou, a conversa de visitantes na recepção, a claridade do sol que entrava pelas portas duplas de vidro — como ele podia brilhar desse jeito num dia como esse, nuvens que precediam tempestades eram mais adequadas e aceitas nesse momento.

Era como eu me sentia por dentro, uma tempestade sem fim.

— Ela perdeu muito sangue. — Ele se dirigiu a mim.

— Somos os pais dela. — Joice o interrompeu, mas não consegui nem sentir raiva dela, apenas medo do que ele tinha a dizer.

— Quase perdemos sua filha. Ela perdeu muito sangue. — Fez uma pausa e me encarou, prestes a falar sobre o real estado dela.

Parei de escutar quando ele disse as palavras: coma e muito grave. De repente tudo escureceu e eu só conseguia pensar que estava revivendo o passado.

Outra vez.

Sem conseguir assimilar o que era presente e o que era passado, saí dali, desnorteado. Ainda ouvi Alexandre e o choro de Naiá, mas continuei andando, mesmo sem saber para onde.

Era a mesma sensação de culpa, a mesma dor dilacerante e o remorso, esse me esmagava duramente, fazendo-me reviver meus piores momentos do passado. A dor, a vingança, o fundo do poço e a forma como saí dele, todavia dessa vez eu não me via seguindo em frente caso toda essa merda não fosse revertida. Passaria cada um dos meus dias me culpando por ela e por Nina, a minha incompetência em protegê-las me seguiria sempre, o sangue de cada uma delas me sujaria a ponto de nunca esquecer. De nunca sequer conseguir dormir sem que o rosto das duas me assombrasse, porque eles não saiam da minha cabeça agora.

A lembrança do que me foi tirado.

Minha irmã e minha mulher.

 

*

 

— Não é sua culpa.

Como anos atrás, Andrea me encontrou. Foi exatamente essas palavras que ela me dissera no passado quando descobrimos a motivação do atentado contra Sam, mas eu sabia que era minha culpa sim e novamente como antes, o que me fizera tomar um banho e aceitar o copo de água que ela me estendera foi a vingança correndo nas veias, era ela a me alimentar agora.

— Onde está Benjamin? — perguntei, após tomar todo o conteúdo do copo com apenas um gole.

— Na delegacia. — a forma cautelosa como me olhou, fez-me estreitar os olhos, desconfiado. — Enzo pretende sair do país hoje. Ben está monitorando as mensagens dele, o imbecil pretendia sair do Brasil com Camille quando tivesse certeza que você estava morto.

Incapaz de sentir um ódio maior do que já sentia, recebi as informações em silêncio. Calado. Mas de alguma forma satisfeito por ele não saber ainda que eu estava vivo.

— Algum deles sobreviveu? — referi-me aos homens que tentaram me matar.

Ela fez que não.

— Vamos cercá-lo e prendê-lo. — fez uma pausa. — Já temos provas suficientes contra eles, e o que aconteceu hoje... — meneou a cabeça numa negativa. — Você poderia estar morto agora.

Se significasse Nina e Camille a salvo, eu preferiria que isso tivesse acontecido há muito tempo.

 

*

 

De dentro da viatura, vi o momento em que o idiota saiu do carro, empertigado num terno caro, agindo como se não fosse um assassino, um traficante e uma pessoa, se é que podia chamá-lo assim, da pior espécie. Como se tivesse vida própria, meu dedo roçou o gatilho da glock, um desejo insano de dar um fim no sujeito. De fazê-lo sangrar tal qual ele fizera com a garota que eu amava.

Queria ter dito isso a ela. Queria ter dito que a amava. Queria ter dado um anel, dito com todas as letras que a queria para mim e para sempre. Enquanto nós estivéssemos vivos. Recusava-me a pensar que poderia nunca mais ver a intensidade que transbordava dos seus olhos quando me encarava, a risada que me fascinava.

Todo o encanto inconsciente que ela tinha.

Eu não podia perder isso.

Não podia perdê-la.

— Como está seu ombro? — Andrea perguntou, olhando para o infeliz. Outra viatura parou atrás de nós.

— Não estou com dor, Andrea. — Não dor física.

Ela respirou fundo e eu fiz um gesto para a viatura de trás, dois agentes saíram de lá e o abordaram, mas o que fez o homem enlouquecer foi me ver saindo do carro.

Era como se estivesse vendo um fantasma, alguém que deveria ter feito a passagem para o além uma hora dessas. Meu lábio chegou a curvar num sorriso cheio de significado, não tinha a ver com humor e sim com raiva. A pior delas.

Era pessoal. Tanto para mim, quanto para ele. A adrenalina, aquela que corria pelas veias quando eu sabia que uma merda ia acontecer.

Foi o que senti.

Como se eu soubesse o que Enzo iria fazer.

E como um louco ele sacou a arma da cintura e mirou em mim, com a mão ruim, a mão machucada. Duvidava muito que ele conseguisse apertar o gatilho de maneira que realmente me acertasse.

— Eu espero que você não erre. — Andrea disse ao meu lado.

Tanto eu quanto ela já sabíamos que o idiota faria uma cena como essa, esperávamos por isso.

As pessoas começaram a correr quando o viram armado, em um momento ele estava apontando para mim, no outro já estava descontrolado, percebendo tarde demais que estava cercado, sem opções. Girando como um louco com a arma em punho, correndo o risco de acertar qualquer um que passasse pela sua frente. Foi nesse momento em que mirei nele, esperando que o infeliz olhasse na minha direção, queria que ele soubesse que era eu a lhe dar o fim que merecia.

E foi o que aconteceu.

 

*

 

A minha noite foi passada em claro, diante da casa de Afonso. Era o endereço mais recente dele, era o que estava nas informações que Benjamin conseguira durante a tarde. A internet e a mídia estavam tão empenhadas em expor a prisão de Heloísa Coimbra e os crimes da mulher, que a morte do filho dela a caminho do hospital passara quase despercebida. Assisti a coletiva de imprensa que Andrea deu, logo após a prisão da traficante classuda e arrogante sem prazer algum, realmente cansado de tudo isso. E pela primeira vez, pensando que talvez o melhor para minha vida tivesse sido seguir o caminho do meu pai, como ele queria. Nina estaria segura agora, longe de toda a violência que girava em torno de mim. Analisei a rua deserta e mal iluminada, reconhecendo o lugar, mas sem me lembrar em que momento estive aqui. A residência também não era estranha, apenas quando a mulher da casa ao lado saiu para colocar o lixo é que recordei quando estive aqui. Semanas atrás com Camille, para visitar uma garotinha. A constatação de que Isabelle podia ser a mesma menina da qual Nina me falara me deixou nervoso e ainda mais confuso. Que sentido final teria ele estar com minha irmã? Dinheiro? E porque ainda não havia entrado em contato?

A mulher, e vizinha de Isabelle assustou-se com o som da batida da porta do carro. Provavelmente, temendo o pior, ela tentou andar depressa para entrar em casa, mas eu fui mais rápido que ela.

— Não vou machucar você — avisei, quando cheguei perto já na calçada. — Sou policial.

A mulher olhou para os lados, e depois relaxou um pouco mais. Imitando-a, eu entendi que meu reconhecimento inicial não se dava apenas pela visita que Camille e eu fizemos a Isabelle, esse era um dos bairros que adotara o toque de recolher por causa dos assassinatos em série. Minha cabeça latejou com a possibilidade... recusei-me a pensar na ideia.

Não podia ser.

A idade. As características físicas. Tudo nela batia com as outras vítimas, se eu não tinha chorado antes, meus olhos arderam apenas com essa possibilidade.

— A garotinha... — comecei, tentando raciocinar para encontrar logo esse infeliz e ter uma ideia de que merda havia acontecido.

O homem era acima de qualquer suspeita. Mas os pscicopatas não eram assim?

— Isabelle? — sussurrou e olhou na direção da casa.

— Sim, onde ela está?

— Com o pai. — Olhou-me atentamente. — Lembro de você, esteve aqui com aquela moça gentil que dá aulas de pintura.

— Sim, e então me diga. Onde eles estão? A menina e o pai?

— Ele me deu um endereço, disse a mim que se ficasse muito tempo sem dar notícia, eu devia ir até lá e buscar a criança.

Um fio de esperança, agarrei-me a ele.

— Então me dê esse endereço.

A mulher parecia dividida e amedrontada, sem saber se confiava em mim ou não.

— Eu nunca machucaria aquela garotinha. — Não podia dizer o mesmo do pai dela.

A mulher assentiu e fez um gesto para que eu entrasse na casa, a primeira vista era possível ver a pouca condição, telhado ruim, paredes cheias de rachaduras, um estado lastimável. Ela entrou num cômodo fechado por um cortina velha e voltou trazendo o papel dobrado, provavelmente ainda estava exatamente como recebeu.

— Ele fez algo de errado? — perguntou ela, abraçando o corpo como se sentisse frio.

A resposta era sim, mas não respondi, pelo contrário, fiz outra pergunta.

— Isabelle tem alguma família além dele?

Ela fez que não.

— A mãe dela morreu ao dar a luz, são apenas os dois. Aquele homem vive para aquela garotinha.

Suprimi a solidariedade que insistiu em crescer em mim, ele não passava do homem que era responsável pelo sumiço da minha irmã, o que acontecesse a ela, aconteceria com ele também.