O Federal

Cris Araújo · Capítulo 8 de 63

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O Federal

Capítulo 7

 

Marcone

 

Praticamente joguei o celular sobre a mesa, ouvindo o baque

estridente, recostei-me na poltrona, lívido e sem paciência para lidar com mais nada.

Ouvi a maçaneta da porta ser girada e me endireitei, Nina e minha mãe nunca entravam aqui, não depois da morte do meu pai. Encarei com curiosidade, esperando para ver se era quem eu realmente estava pensando: a primeira coisa que apareceu foi a cabeça pequena, e então os olhos — verdes como esmeraldas — analisaram o aposento até pousarem em mim.

— Você não saiu também? — perguntei.

— Não. — ela respondeu, fechando a porta atrás de si e observando tudo, olhou as estantes cheias de livros. A maioria deles era sobre agropecuária, história dos queijos, mercado financeiro internacional, entre outras coisas que meu pai tinha passado a se interessar ao longo dos anos. — Aquele ali é seu pai?

Virei-me para olhar a fotografia de qualidade ruim pendurada na parede.

— Não, meu avô. — Olhei-a mexer nos objetos espalhados pela estante maior. — Por que você não foi passear? É o primeiro dia quente desde que você chegou aqui.

— Eu queria ficar com você. — A voz soou baixinha, quase inaudível. Fitei-a boquiaberto. — Aquela é sua mãe? — Outra foto, desta vez num porta-retratos que eu nunca tinha me dado conta.

Continuei a olhá-la pasmo.

— É? — Voltou a perguntar num tom zombeteiro, dessa vez.

— Sim, é ela. — Com certeza, essa garota era um poço de contradições.

— Você parecia com seu pai?

— Não, Camille, eu não parecia com ele. — Recostei-me novamente na poltrona, olhando para onde a buliçosa iria dessa vez.

Ela estendeu um cinzeiro, mantendo-o na palma da mão.

— Ele fumava?

— Sim, isso explica o câncer que o matou. — As lembranças dele vieram como num filme. Assustadoras. Sentado, muitas vezes, nessa poltrona em que eu estava agora. Magro, completamente careca e consumido pela doença. — Quer dar uma volta? — Perguntei, desejando desesperadamente afastar aquelas memórias.

— Quero.

Levantei-me, decidido a esquecer de toda aquela merda por algumas horas.

— Você trouxe biquíni? — Abri a porta, fitando o vestido fluido que ela usava, azul e curto, evitei olhar as pernas longas para que ela não me pegasse no flagra.

— Sim. — Passou por mim, e olhou-me por sobre os ombros quando fechei a porta.

— Ponha um tênis.

— Aonde nós vamos? — Perguntou ela, estreitando os olhos, ainda andando para as conexões que nos levariam até escada.

— Você vai ver.

O dia estava ensolarado, quente, sem chuvas ou nuvens que as denunciasse. Perfeito para o que eu pretendia, segui-a pela escada, ainda pasmo com a insinuação direta e explícita dela.

Eu queria ficar com você...

Observei os movimentos que os seus cabelos faziam pelas suas

costas, enquanto subia os degraus atrás dela, os fios quase cor de cobre desciam suavemente até a cintura, acho que um palmo acima, eram lisos e faziam um cacho uniforme apenas na ponta. Ela ainda me olhou por sobre o ombro antes de abrir a porta do quarto, dei um breve sorriso e continuei meu caminho. Já dentro do aposento tirei as roupas pesadas que estava usando, tomei um banho antes de me trocar — as roupas limpas e meus dias estavam acabando aqui. Eu teria um ou dois dias ainda na fazenda, antes de voltar para o Rio e para delegacia.

Coloquei uma camiseta e shorts folgado, busquei o tênis perto da poltrona e saí, não bati na porta do quarto dela, fiz o caminho até a cozinha em busca da bolsa térmica que minha mãe devia manter em algum daqueles armários. Arrumei uma sacola com coisas variadas que poderíamos comer e que não estragariam caso demorássemos muito de voltar e saí para colocar tudo na picape. Ainda não havia sinal dela, só uns dez minutos depois Camille passou pela porta de vidro, vestia uma roupa diferente. Um short claro, camiseta e tênis, havia uma espécie de nécessaire em uma das mãos, ela olhou ao redor antes de me ver já perto do carro. Então caminhou para onde eu estava, olhando ansiosamente para a picape e depois para mim.

— O que tem aí dentro? — Apontei para a bolsa na mão dela.

— Algumas coisas. — Ainda olhava para o veículo.

— Vamos lá. — Abri a porta do passageiro para ela e esperei, houve um instante de hesitação, curtíssimo, mas percebi.

Dei a volta na picape e entrei, ajustei a melhor rota no Gps e girei a chave na ignição, ligando o motor, toquei o controle e abri o portão de saída da fazenda.

— Quer colocar uma música? — perguntei, girando o volante e entrando na pista a nossa frente. Ela estava sentada rígida, segurando o banco. — Coloque o cinto.

Ela obedeceu.

— O que você gosta de ouvir?

— Nunca parei para pensar nisso. — respondi e a olhei rapidamente. — Qual o problema, Cami?

— Não gosto muito de carros... — respondeu de olhos fechados, ainda na mesma posição. — Sofri um acidente alguns meses atrás, minha irmã morreu e desde então, não consigo dirigir, geralmente evito carros...

— O que aconteceu exatamente? Com você e sua irmã?

— Não lembro nada daquele dia, só acordei e ela não existia mais. — Os olhos ficaram inexpressivos, e a postura ainda mais rígida. — Ainda é difícil para mim falar a respeito.

Assenti.

— Quer ficar em casa? — inquiri, sem ter certeza agora se ela realmente queria fazer o passeio.

— Não. — Olhou para mim pela primeira vez, ajeitando-se melhor no banco. — Demora muito para chegar?

— Bem menos tempo do que do aeroporto para a fazenda — esclareci.

Tirei os óculos escuros do porta-luvas e os coloquei.

— A alguns quilômetros daqui existe uma cachoeira chamada Lagoa Azul, logo no final dessa pista. — Apontei a estrada a nossa frente.

— Você já viu o filme? — Havia uma zombaria pouco disfarçada na pergunta.

— Algumas vezes. — Sorri, olhando-a de soslaio. — Mas acho que não tem muito a ver uma coisa com a outra. — Fiz uma pausa. — Há um bar flutuante e a área da pousada é bem legal, você vai gostar.

Ela deu um sorriso suave e continuou quieta, observando a paisagem a nossa volta, não estava mais tão bonito, o trecho em que estávamos era mais seco e menos cuidado do que a área mais próxima da fazenda.

— Com quem você vive, Camille? — Aproveitei para perguntar e saber um pouco mais sobre ela.

— Meus pais.

Girou um pouco o corpo de modo que ficou voltada para mim.

— Porque não saiu com Nina? — Voltei a indagar.

— Já falei, queria ficar com você.

Fui obrigado a desviar os olhos da pista e olhá-la, os faróis verdes me encaravam de volta, ela deu um sorriso e passou a espiar pela janela do carro.

Uma contradição da porra.

Não retruquei, apenas continuei dirigindo, permanecemos num silêncio tranquilo por um bom tempo, ela apenas observando as mudanças de cenário e eu desviando os olhos da estrada para olhá-la em momentos alternados, a mão delicada enrolava a ponta do rabo de cavalo, distraidamente.

Camille só mudou a posição no banco, quando a fachada da pousada apareceu, parecia uma chácara que sofreu um upgrade ou algo parecido, mas mantinha a aparência rústica que eu me lembrava. Estacionei ao lado do jipe cheio de lama nas laterais, o trajeto não era tão difícil como quando descobri esse lugar, algumas melhorias foram feitas quando a lagoa começou a atrair turistas. Ainda me perguntava por que o nome era Lagoa Azul, se na verdade a água da cachoeira era verde, havia a história de que no passado realmente era azul, algumas fotos que olhei no Google provavam isso.

— Costuma vir muito aqui? — Ouvi a voz dela e a encarei, Cami ainda olhava pela janela, analisando o lugar.

— Vim uma ou duas vezes com Nina. — Saí do carro, e ela me imitou. Peguei a sacola do banco de trás e apontei para a recepção. — Vamos pegar nosso acesso ali.

— Paga para ver a cachoeira? — perguntou ela, seguindo-me, os dedos enrolavam a ponta do cabelo. Uma mania, observei.

— Um valor simbólico, o acesso não é fácil por vias gratuitas.

Enquanto pagava pelo passeio no caixa, Camille perambulou olhando os penduricalhos e artesanatos que estavam expostos por ali, provavelmente confeccionados por moradores locais. Eu não fazia ideia. Desviei os olhos dela, quando a mulher me entregou as duas pulseiras brancas com o nome da pousada, ainda estava escrito: Acesso Permitido, com letras pretas grandes.

— Gostou de alguma coisa? — perguntei, quando parei no lugar onde ela estava.

— São bem interessantes. — Manteve os olhos nas peças, mordendo de leve o próprio lábio. Uma distração e tanto para mim, eu diria.

— Me dê sua mão. — pedi e ela me olhou, antes de estender para mim, como eu havia pedido.

Coloquei a pulseira envolta de seu pulso, e olhei novamente para o pano claro que expunha os penduricalhos coloridos. Um colarzinho chamou minha atenção, a pedra era verde como uma esmeralda, esculpida no tamanho de uma bola pequena, a correntinha era cobre, parecia ser bem frágil. Essas bugigangas que levávamos como lembranças de viagens. Tirei para olhar mais de perto.

— Parece com seus olhos, eles estão dessa cor agora. — Ela demorou alguns segundos olhando para mim antes de prestar atenção no objeto na minha mão. Algo sutil mudou na sua postura, quando o tirou da minha mão, passando a ponta do dedo pela bolinha esverdeada.

— É lindo.

— Deixe-me colocar em você. — Tirei de suas mãos novamente e esperei que ela se virasse. Abri o fecho com cuidado e coloquei o pequeno colar em volta do pescoço esguio.

Achei que ela fosse retrucar ou dizer que não queria, mas foi o contrário. Os dedos só soltaram o pingente, quando saímos da recepção da pousada, andamos em silêncio até a trilha estreita e com algumas pedras aparecer.

 

— Dez minutos andando nessa direção e estamos na cachoeira. — Apontei para o caminho e olhei para seus pés, certificando-me de que estava de tênis.

A trilha curta até o nosso destino não era tão bonita e um pouco descuidada, infelizmente depois do número de turistas aumentar, algumas coisas foram estragadas por aqui. As placas guiavam o caminho certo a seguir e indicava o que encontraríamos quando chegássemos.

Além do farfalhar das folhas que pisávamos, já podíamos ouvir o som da queda da água, agradeci por não ter ninguém ali, o que era raro, obviamente. A natureza em si sempre me trouxe uma paz intensa, no Rio de Janeiro, um banho no mar ou poucos minutos sentado diante dele trazia um equilíbrio ao barulho ensurdecedor que geralmente era a minha cabeça. Tinha esquecido o quanto gostava do campo, principalmente de lugares como esse — a cachoeira parecia ainda mais bonita do que da última vez que estive aqui, o cheiro era como se fosse paz inalável diretamente no meu pulmão, respirei profundamente, dando-me conta de que um grande peso parecia estar aos poucos saindo dos meus ombros, fechei os olhos e inspirei novamente, satisfeito com a escolha que fiz de vir para cá e deixar um pouco os problemas de lado.

Flagrei Camille me encarando quando voltei a abrir os olhos, não consegui decifrar o que se passava em sua cabeça, a expressão era indecifrável, eu só não sabia se isso era bom ou ruim. O habitual rubor agradável alcançou suas bochechas, quando percebeu que tinha sido pega no flagra.

— Bem-vinda à Lagoa Azul.

Ela abaixou-se de um jeito lânguido, mas totalmente inconsciente para desamarrar o cadarço do tênis e tirá-lo, três estrelinhas estavam tatuadas no peito do pé direito, as unhas pintadas de um branco clarinho, quase transparente, delicadas. Não me lembrava de em algum momento da minha vida já ter tido algum fetiche por pés... até agora. Deu alguns passos até o início do lago e puxou o que quer que estivesse prendendo os cabelos no rabo de cavalo, como imaginei eles eram quase cobre no sol, algumas mechas mais escuras, outras mais claras, faziam um contraste quase sobrenatural com os olhos, que agora me fitavam claríssimos, totalmente diferente do tom de verde do pingente em seu pescoço.

— Não vai entrar? — perguntei, colocando a bolsa sobre a pedra próxima ao lugar, onde ela ainda molhava os pés. — É uma piscina um pouco maior que a da fazenda.

— Os peixinhos estão tocando meus pés, veja. — Apontou, enrolando os cabelos e jogando-os para trás.

Aproximei-me um pouco mais e abaixei ao seu lado, o vento jogou o cheiro dos seus cabelos na minha direção, era uma fragrância suave, nem doce e nem forte, diferente. Ficamos alguns minutos observando os peixes, a água era cristalina de tal forma que as algas e os peixes brincavam com nossos dedos, imitei a garota e tirei os tênis, molhando meus pés logo em seguida. A temperatura estava agradável, trazendo algumas lembranças da minha infância: os banhos de cachoeira, as frutas que eu mesmo tirava do pé e comia embaixo da árvore, a paz. Estar aqui me fez lembrar o quanto eu vivia agitado agora, parecia que um despertador invisível estava sempre tocando, impedindo-me de relaxar, de desacelerar, mas agora uma tranquilidade me envolvia, tinha esquecido como era bom ficar um tempo sem priorizar os problemas e me dar um pouco de conforto. Fazia um tempo longo em que não tirava férias, sempre emendava um caso no outro, e nunca parava para respirar.

Respirar era bom, aspirei o cheiro da natureza e junto com ele veio a fragrância suave dos cabelos acobreados que estavam cobrindo parcialmente o corpo da garota ao meu lado. Os olhos dela estavam distraídos na queda da água, de onde estávamos era possível ver algumas pessoas lá em cima fotografando.

— Como eles vão para lá? — perguntou ela.

— Há outras vias para chegar até aqui. — respondi.

— Vou entrar — retrucou ela, ficando de pé e começando a tirar a blusa, revelando a barriga lisa e o biquíni branco, puxou o short e repetiu o mesmo processo, antes que pudesse olhar direito ela já tinha submergido.

O corpo bonito ondulou sob a água transparente graciosamente, até sumir onde eu não consegui mais ver na parte mais adiante e que tinha uma tonalidade verde, e não azul como o nome sugeria. Tirei a blusa e joguei perto das roupas dela, olhando ansiosamente para o lago e ficando nervoso porque não havia sinal dela, era como se não houvesse ninguém lá dentro. Fiquei em pé e aproximei-me mais da água, a fim de tentar vê-la, sem sucesso, caminhei pela borda, sentindo as folhas secas sob meus pés. Tirei o short a fim de pular na água, quando ouvi sua risada, distante. Olhei ao redor procurando, até encontrá-la sentada embaixo da caída da água. Senti-me aliviado, e pulei na água. Nadando em sua direção.

Passamos muito tempo na água, em alguns momentos conversando, tentei fazê-la falar mais sobre si, e ela me contou algumas coisas sobre a infância e sobre a irmã, coisas normais de como eram suas férias, do avô que tinha morrido dois anos atrás. Como não havia muitas pessoas visitando o lugar, o bar flutuante estava fechado, então voltamos pela trilha para almoçar no restaurante da pousada. Camille saiu pingando água da cachoeira e correu para suas roupas, apressando-se em colocar a toalha que estendi em sua direção no corpo.

— Você pensa em tudo? — perguntou ela depois de se secar.

— Tento pensar. — Brinquei, não consegui evitar e passeei os olhos pelas pernas longas, ela percebeu e ficou vermelha, colocando a palma da mão sobre uma cicatriz que tinha na coxa. — Não precisa esconder. — Aproximei-me e puxei sua mão, delicadamente. — Como você se machucou?

— Acidente. — Apenas um sussurro melancólico saiu de seus lábios, enquanto os olhos observavam a minha mão sobre sua pele.

— Não deve esconder, então. É uma prova de sobrevivência, sobreviventes sempre são marcados de alguma forma, na alma ou no corpo, alguns nos dois lugares. — Deslizei o dedo pela marca, se fechasse os olhos ainda conseguia lembrar de como a barra de ferro tinha ferido sua pele ali. — Gostaria que me contasse caso lembre alguma coisa sobre o acidente, sobre como aconteceu. — Afastei minha mão dela e a encarei, Camille fez um gesto com a cabeça, assentindo.

— Você é policial, não é? — indagou, curiosa.

— Hoje não. — Toquei seu ombro e apontei para a trilha com a cabeça, antes de me abaixar para pegar a bolsa sobre a pedra. — Vamos comer, estou morrendo de fome.

Fizemos a maior parte do caminho em silêncio, em um momento ou outro, ela olhava para mim, não deixei de perceber a expressão desconfiada, como se fizesse uma pergunta silenciosa a si mesma, ou talvez pensasse em dizer algo e desistisse no fim das contas. Embora curioso em descobrir o que se passava na cabeça dessa menina, permaneci calado, mais tarde daria uma olhada no que Andrea tinha descoberto sobre ela.

O restaurante era rústico como o resto do lugar, embora o conjunto da decoração e a forma como as mesas eram dispostas tornassem o ambiente elegante e descontraído ao mesmo tempo, Camille escolheu uma mesa perto da área da piscina e eu escolhi algo menos mineiro para ela e mais parecido com o que comíamos no Rio de Janeiro.

— Estou com fome. — retrucou ela, olhando distraída para a cachoeira que parecia estar perto de nós, uma ilusão visual muito bonita por sinal.

— A comida não deve demorar muito. — Uni as mãos sobre a mesa e me permiti olhá-la, percebi pequenas pintinhas no nariz pequeno, de perto era possível ver melhor alguns detalhes. — Você escolhe algo para bebermos.

Ela pegou o cardápio da mesa e passou a estudá-lo.

— Acha que Nina já chegou? — perguntou ela, sem me encarar.

— Provavelmente não. Ela gosta de bater perna e gastar dinheiro.

— Se importa se não contarmos a ela?

— Não contarmos o quê? — Ela parecia sem jeito, olhando-me de esguelha.

— Sobre nosso passeio.

Dei uma gargalhada porque não pude me conter, a cara que ela estava fazendo era impagável.

— Isso aqui é escondido, então? — provoquei, fazendo um gesto entre mim e ela.

— Não é isso, ela me convidou para sair e recusei... — explicou. — Vai ser estranho se... bom, você sabe...

— Estranho se ela souber que você preferiu sair comigo. — Completei, não que eu achasse o mesmo, Nina era intragável e terrível, mas não invasiva, embora fosse extremamente chata e tivesse uma lista interminável de defeitos. — Nesse caso sou um segredo sujo. — Provoquei, divertindo-me do embaraço dela. — Não vou contar, fique tranquila.

Nosso almoço chegou e comemos em silêncio, não voltamos a cachoeira novamente, ficamos refestelados nas espreguiçadeiras da área da piscina, a tranquilidade era tão grande que cochilei algumas vezes, em alguns momentos Camille fazia alguma pergunta sobre o lugar, em outros ela ficava em silêncio, aproveitando a calmaria como eu, espantosamente bonita sob o sol do fim de tarde. Quando resolvemos voltar, ela estava sonolenta e um pouco mais vermelha. Ela dormiu por todo o tempo de volta, então não conversamos. Quando chegamos em casa, Nina e minha mãe não tinham chegado ainda, como imaginei. O carro do meu pai não estava lá, imaginei o que estavam fazendo.

Acordei Camille alguns minutos depois de estacionar, observei-a por um tempo, tentando entender porque ela me atraia tanto, era linda, mas não era a beleza de fato, tinha algo mais, vontade de estar perto, ela fez um ruído e então decidi acordá-la, ou ela ficaria bem dolorida depois pela posição que estava. Soltei meu próprio cinto de segurança e virei para fazer o mesmo com o dela, Cami disse algo baixinho que não entendi e então toquei o rosto corado.

— Camille?

Ela murmurou novamente, dessa vez entendi meu nome, afastei-me devagarzinho, imaginando que já havia acordado, mas os olhos mantinham-se fechados, as pálpebras tremiam levemente, beijei de leve a testa e me afastei novamente.

— Estamos em casa, Cami... — Sussurrei, dessa vez movimentei seus ombros para que despertasse, deu certo, os olhos dela abriram-se carregados por uma pequena confusão pós sono. — Chegamos. — Afastei-me e esperei.

— Eu dormi? — Ajeitou-se, olhando confusa para mim. As mãos delicadas tiraram algumas mechas que teimavam em cair sobre seu rosto

— Sim. Você fala dormindo. — Foi uma afirmação que pareceu desesperá-la, não consegui não sorrir, destravando as portas do carro.

— Eu falei? — Assustada.

— Sim. — Olhei-a.

— O que eu falei? — perguntou, zangada. — Não, não quero saber.

— Não foi nada horrível. — Tranquilizei-a, achando graça.

Saí do carro e puxei a bolsa do banco de trás, ela permaneceu sentada, provavelmente ainda irritada por ter falado algo constrangedor. Ri baixinho, para que não me escutasse e peguei a sua necessaire. Ainda estava claro, mas a lua já tinha aparecido e estava começando a ficar frio. Entramos em silêncio, eu liguei as luzes da cozinha e ela ficou parada, provavelmente sem saber o que dizer.

— Porque não vai terminar sua soneca, Nina não deve demorar a chegar.

— O sono passou. — retrucou. — Vou tomar um banho.

Estendi a necessaire para ela, e a observei se afastar, quando estava quase fora da cozinha voltou-se para mim.

— Eu quero tomar chocolate quente hoje.

Um convite, assenti e ela saiu.