O Federal
Capítulo 3
Marcone
Fitei pela terceira vez o laudo pericial. A prova de que, como eu
suspeitava, o incêndio havia sido mesmo criminoso, a presença de compostos acelerantes de combustão denunciava isso.
— Você é federal, não é? — o perito perguntou, sentado na cadeira a minha frente. — Vi você na tevê. — explicou.
— É, eu tive que passar por aquela tortura... — retruquei, desinteressado. — Obrigado. — Acenei com os papéis e apertei a mão dele.
Três dias atrás quando cheguei em Minas, o advogado da minha mãe já tinha acionado a polícia por causa do incêndio, mas busquei meus meios de ter o laudo antes dele através de uma fonte confiável. Meu celular tocou e a foto de Nina apareceu no visor.
— Oi, Nina. — Recostei-me na poltrona e girei a cadeira para ficar de frente para a janela grande.
O dia estava chuvoso, mas o vento era agradável na pele.
— Marco, eu convidei a Cami para ir comigo, tudo bem?
Quem diabos era Cami?
— Nina, você já está no aeroporto? — Apavorei-me com a possibilidade de a pequena encrenqueira ainda estar no apartamento. Já estava quase no horário do voo.
— Sim, Marco. — Ouvi sua risadinha e uma voz suave falar sobre a fila do check-in.
— Quem está aí com você? — Perguntei desconfiado e curioso.
— Cami. — Respondeu com uma pitada de impaciência na voz. — A garota dos quadros. — Emendou ela, quando não respondi.
Ah.
— Tudo bem, um funcionário da fábrica vai estar esperando por
vocês.
Ela ainda disse algo sobre eu ser chato e desligou na minha cara como de costume. Permite-me pensar na mulher que vinha tirando meu sono. Os olhos verdes intensos eram difíceis de serem esquecidos. Na verdade, nem mesmo eu entendia o desejo tão grande de reencontrá-la. Tinha feito meu papel no dia em que a encontrei naquele carro. Mas ainda assim algo nela me atraia de uma forma estranha.
Saí do escritório e fui até a cozinha, onde a minha mãe estava.
— Nina acabou de sair do Rio. — Encostei-me no batente da porta e cruzei os braços. — Precisamos conversar, mãe.
— O que foi? — Mara perguntou, eu sempre ficava espantado em como ela me conhecia.
— O incêndio na fábrica foi criminoso. — Esclareci.
O rosto dela empalideceu, a postura dos ombros caiu e olhos ficaram marejados.
— É alguém que você confia. — Resolvi dizer logo.
— Porque Antônio não me disse nada sobre isso? — Perguntou a si mesma, sentando-se, parecia mais cansada do que minutos antes.
— Porque ele não sabe. — Caminhei para perto dela e sentei ao seu lado. — E se eu estiver certo, provavelmente o laudo dele virá com um resultado diferente. — Segurei sua mão e trouxe até meus lábios.
— Acha que... Antônio... — A pergunta ficou implícita.
— Eu não confio em ninguém. Então, por favor, não comente sobre o laudo com ele. Vamos esperar o que Antônio tem a nos dizer sobre o incêndio. — Olhei para ela, entrelaçando nossos dedos. — Há uma coisa que quero pedir.
Mara desviou os olhos de nossas mãos e encarou meu rosto.
— Quero que venha comigo para o Rio de Janeiro. — Pedi, a sua expressão foi de surpresa e eu sabia que a recusa viria a seguir.
— Não posso... não, aqui é meu lar. É onde me sinto mais perto do seu pai... — Ela balançou a cabeça tristemente. — E tem a fábrica também.
— Podemos administrar a fábrica do Rio, mãe.
— Não consigo me afastar daqui. — Fungou, e colocou alguns fios que teimavam em escapulir do coque atrás da orelha. — Você viu os desejos do seu pai, não viu?
— Sim, mãe, eu vi. — Desde que li o testamento, preferi não pensar muito nas últimas vontades de meu pai.
— Então não me peça isso, filho.
Assenti, sem ter muito o que dizer mais. As últimas palavras do meu pai não tinham sido apenas para ela, mas principalmente para mim. Não imaginava como ela suportava viver aqui, tudo lembrava dele, até mesmo os sons dos animais traziam uma sensação de nostalgia tocante, ou quando o berrante era tocado ao longe por alguém, pequenas coisas que traziam a memória de meu pai. Não sei se isso a fazia sofrer mais ou se era acalento, mas não insisti. No fundo eu já tinha certeza que a resposta seria essa.
*
Abri a primeira gaveta da cômoda e puxei uma camisa polo preta e uma calça jeans, presenciando o milagre de não estarem amarrotadas como eu imaginei que estivessem. Vesti rapidamente e desci as escadas, indo diretamente para o escritório do meu pai. Sentei na poltrona e abri o macbook. Fiz uma chamada de vídeo para Andrea e relaxei, esperando que o rosto dela aparecesse na tela. A confusão que era sua cozinha surgiu primeiro, e depois seu rosto apareceu, enquanto ela ainda colocava os óculos.
— Oi, Andrea — sussurrei, refestelado na poltrona.
— Pela sua cara, devo esperar más notícias? — indagou ela, enfiando uma colher cheia de algo parecido com chocolate na boca.
— O que está comendo? — perguntei, ignorando sua pergunta.
— Nutella. — Ela riu, e lambeu a colher. — É a melhor forma de perder meus quilinhos a mais.
— Onde estão os quilinhos a mais? — perguntei, incapaz de conter um sorriso.
Andrea ficou de pé e levantou a blusa para que eu visse onde estavam a gorduras localizadas, como ela costumava chamar. Dei uma risada baixa e esperei que a cara dela voltasse a aparecer.
— E então? Más notícias? — Repetiu, deixando o recipiente de lado e focando em mim.
— Incêndio criminoso. — Retruquei e ouvi uma gritaria, girei a poltrona para ficar de frente para a janela e vi Nina correndo para abraçar nossa mãe. Um sorriso involuntário tomou conta do meu rosto, assisti à interação das duas e então eu a vi.
Ainda perto do carro, a garota dos olhos verdes expressivos estava parada, observando a cena a sua frente. Parecia meio deslocada sem saber o que fazer, e como se de alguma forma pudesse me sentir, ela olhou na minha direção. Automaticamente deu um passo para trás e cruzou os braços, desviando os olhos. Foram frações de segundos, mas consegui reviver todas as imagens que eu tinha dela e do carro destruído.
Era ela.
— Ainda estou aqui... — Andrea retrucou e eu me voltei para a tela, ainda incomodado.
— Nina acabou de chegar. — Expliquei. — Sabe como ela é barulhenta, não é?
Andrea riu.
— Pare de implicar com a garota. Tem sorte de ela ainda te suportar naquele apartamento. — Ela brincou. — Você está bem?
— Estou, Andrea. — Respondi, olhei rapidamente para onde a garota estava, mas não a encontrei. Voltei a focar minha atenção na tela.
— Eu conversei com a mãe de duas garotas que são agenciadas pela Luxus. — Ela começou. — As duas não tem contato com as filhas há quase seis meses. Elas estão desesperadas. Podemos pensar que se trata apenas de irresponsabilidade das garotas... mas e se não for? — Ela ajeitou a franja com os dedos e franziu o cenho. — Não há publicidade alguma ligada a essas meninas, nenhum trabalho, nenhum rastro fora do Brasil.
Permaneci em silêncio, pensar que algum infeliz tivesse colocado o dinheiro do meu pai numa sujeira como tráfico humano me tirava a capacidade de pensar de forma razoável. Passamos mais algumas horas conversando e encerramos. Girei novamente a cadeira para o lado de fora e observei a natureza.
Então, ela se chamava Cami e pintava quadros.
A vida nunca pararia de me surpreender, eu pensava nessa garota todo dia, a necessidade de saber se ela estava bem me consumia diariamente. Vê-la inconsciente e ferida naquele carro trouxe de volta recordações amargas. As lembranças do corpo carbonizado da minha noiva, a sensação de inutilidade e o remorso por tudo ser minha culpa. Se ela tivesse escolhido outro carro, eu não existiria hoje. E essa ironia acabava comigo. Por um tempo eu culpei a Deus por tê-la tirado de mim.
Ir atrás de quem a matou me deixou ocupado por um tempo, só eu e Andrea sabíamos o que tínhamos feito com aqueles caras, o rastro de sangue que deixamos até encontrá-los, todos que estavam direta ou indiretamente envolvidos na morte dela, não estavam mais nesse mundo, mas depois o luto veio com força. A dor. A realidade de que não existiria mais um nós, que eu não a veria mais. Nunca mais. Essa dor acabava com a vida de qualquer um. E então veio Francine, quando coloquei os olhos nela achei que tinha enlouquecido. Custei a entender como ela poderia ser tão idêntica a Samanta. Investiguei todas as possibilidades de ambas terem algum parentesco, mas não havia ligação sanguínea nenhuma entre as duas. Apenas uma semelhança que me deixou sem dormir por várias noites. Essa mulher tinha virado quase uma obsessão alguns meses atrás. Mas depois eu descobri que o meu papel na vida dela era outro. Não era uma segunda chance como imaginei que fosse, eu estava lá apenas para livrá-la de um problema.
Voltei-me para o mackbook e toquei o touchpad para abrir uma pasta com o nome “ Ela”.
O sorriso de Sam apareceu na tela, fui avançando pelas fotos, lembrando o momento em que cada uma delas fora tirada. A maioria eu mesmo tinha batido, algumas Andrea. Fechei a tela e esfreguei o rosto, sentindo aquela escuridão rastejando para dentro de mim. A porta foi escancarada e Nina entrou animada.
— Marco. — A serelepe quase gritou, com os cabelos pingando, vestida num roupão muito maior do que ela.
— Achei que não viria me dar um oi. — Zombei, levantando-me.
— Venha conhecer a Cami. — Ela segurou a minha mão, mas não me puxou para fora da sala. Ficou quieta, olhando para os próprios pés e depois virou-se para mim. — Seja legal com ela.
— Vou ser legal com sua amiga. — Beijei de leve os nós dos seus dedos e saí com ela.
Caminhei atrás de Nina para a cozinha e detive-me no batente da porta, observando. Cami estava em pé perto da mesa, enfiada num roupão enorme para seu tamanho. Os cabelos castanhos avermelhados longos até o meio das costas estavam soltos, provavelmente sob os raios de sol ficariam quase ruivos. A boca era carnuda, desenhada de numa forma chamativa, sensual mesmo quando ela estava distraída, como agora, e os olhos — nunca vi mais marcantes do que esses, o tom verde mudava de acordo com a luz ambiente. Agora estavam mais claros do que na última vez que os vi. Ela tinha uma beleza diferente, exótica. Ao mesmo tempo que os traços eram delicados, eram marcantes na mesma proporção.
Ela olhou para mim e as bochechas ficaram coradas automaticamente. Reprimi a vontade de rir e entrei na cozinha.
— Cami, esse é o chato do meu irmão. — Nina gesticulou para mim, olhando para a amiga. — Eu falei dele para você, lembra?
Nina falava de uma forma carinhosa, tentando deixar a garota a vontade. De alguma forma ela era importante para minha irmã.
— Marcone Ferris. — Estendi a mão. — Esqueça a parte do chato, minha irmã tende a ser exagerada, às vezes.
— Camille Alencar. — Ela envolveu minha mão com a sua brevemente e depois cruzou os braços, claramente desconfortável perto de mim.
*
Desisti de tentar dormir e levantei da cama, sentei na beirada e fui até a janela, atraído por um som lá embaixo. Observei a silhueta desconhecida pular na piscina e apanhei o relógio sobre o criado-mudo, a fim de olhar a hora. Acendi a luz embutida e observei o ponteiro sinalizando três e seis da manhã. Vesti a calça do moletom, uma camiseta e saí do quarto. Estava frio, passei a mão pela nuca para esquentá-la e caminhei para a área externa da casa. A luz da cozinha estava acesa e a porta de vidro aberta. Encontrei um roupão sobre um dos sofás, talvez alguém estivesse sem sono como eu. Observei de longe o movimento das águas e contive o impulso de ir até lá, voltei para a cozinha, ouvindo o som do vento. Estava frio. Caminhei até a chocolateira e conferi se havia chocolate o suficiente para duas pessoas, cliquei no botão para aquecer e fui sentar na cadeira.
O som do movimento da água na piscina cessou lá fora, houve um instante de silêncio e então ela apareceu na porta, segurando uma toalha firmemente ao redor do corpo, olhou nervosamente para o roupão e depois para mim.
— Não está com frio? — Perguntei de forma casual e estendi o roupão para ela.
— Agora que saí da água sim. — Reprimi a vontade de rir quando percebi seu queixo tremendo. A voz dela era suave, doce e estava trêmula.
— Quer um pouco de chocolate quente? Vai ajudar a esquentar. — Ofereci apontando para a chocolateira.
Camille olhou para mim e depois com curiosidade para a máquina.
— Melhor eu subir, já está... tarde... — Ela gaguejou, olhando para os próprios pés.
Aparentemente ela já tinha criado certa aversão a mim.
— Porque não coloca o roupão? Você está tremendo de frio. — Fui até a máquina, a fim de ficar de costas para ela e aproveitei para encher duas xícaras de chocolate quente. Ouvi o farfalhar do tecido, enquanto ela se vestia e voltei para a cadeira.
O roupão parecia engoli-la, Camille desfez o coque e deixou os cabelos caírem por seus ombros, emoldurando o rosto bonito. Empurrei uma xícara para ela e apontei para a cadeira a minha frente. Depois de uma breve hesitação ela sentou-se e puxou a bebida para perto de si.
— Eu a amedronto, Camille? — Perguntei, depois de um tempo, num tom suave. — Tem medo de mim?
Ela parou de soprar o chocolate e olhou para mim, mas não respondeu.
— Acha que nos conhecemos num dia ruim? — Fiz referência ao embaraço dela mais cedo, a forma como ficou claramente incomodada. — Marcone Ferris. — Estendi a mão para ela, pela segunda vez hoje.
Camille fitou minha mão estendida por uns dois minutos, a nuvem de um sorriso surgiu em seu rosto e ela a segurou de volta.
— Camille Alencar.
— Muito prazer, Camille. — Tomei um gole do meu chocolate e a olhei.
Ela realmente não fazia ideia de que eu já a conhecia. Perguntava-me se conversar sobre isso era a coisa certa a fazer.
— Aqui é muito bonito. — Elogiou ela, depois de tomar um gole da bebida, olhando para a madrugada negra lá fora.
— Gosta do campo? — Não consegui desviar os olhos dela, não era a beleza em si que atraia, havia um mistério.
— É a primeira vez... — Ela olhou para mim. — Nina não exagerou quando disse que aqui era lindo.
— Como vocês se conheceram? — Perguntei, estava realmente interessado nisso.
— Eu a vi pela primeira vez na biblioteca da faculdade, ela estava lendo um livro que minha irmã gostava. — A postura dela mudou, e o olhar ficou inexpressivo.
— Qual era o livro? — Engoli em seco.
Luto. Era o luto que elas tinham em comum. Aquela garota morta era irmã de Camille, eu não precisava perguntar para saber.
— O morro dos ventos uivantes. — Respondeu, com o mesmo olhar distante.
— Qual o nome da sua irmã?
Ela não respondeu de imediato, fitou a própria xícara.
— Qual o nome dela, Camille?
Os olhos verdes voltaram a me fitar, com curiosidade e desconfiança.
— Liz. — A dor em sua voz foi forte.
— Onde ela está agora? — Insisti.
Ouvi-a arfar e levantar-se abruptamente.
— Olhe... obrigada pelo chocolate. Eu... eu vou dormir agora. — Ela torceu as mãos e afastou-se para fora da cozinha, deixando-me sozinho.