O Federal
Capítulo 23
Marcone
Olhei mais uma vez o relógio, ela estava atrasada. Estava
curioso para saber o motivo de Camille recusar que eu fosse buscá-la, embora a cafeteria fosse realmente perto de seu prédio e num lugar péssimo para estacionar, precisei deixar o carro um pouco longe dali.
Desviei os olhos da entrada para analisar o lugar em volta, era pequeno e receptivo em tons de rosa e verde. No lado oposto ao meu duas adolescentes usando ainda a farda do colégio dividiam uma fatia de torta.
— Olá, Cami. — A garota que já tinha vindo me perguntar mais de uma vez o que eu iria pedir, sorriu gentilmente para a entrada e eu fiz o mesmo.
Camille usava shorts jeans e uma camiseta branca, a sandália baixinha decorada com imitações de pedras preciosas deixavam a tatuagem a mostra. O pé dela era realmente lindo, eu só não lembrava há quanto tempo essa parte do corpo feminino tinha passado a chamar minha atenção dessa forma. Enquanto ela estava distraída conversando com a menina do caixa, ainda alheia a minha presença, pude observá-la pelo tempo que quisesse. Era impossível não notar as olheiras no rosto livre de maquiagem, o fato dos cabelos estarem presos num rabo de cavalo deixou em evidência o colar que eu tinha lhe presenteado em seu pescoço. Fiquei surpreso pelo fato dela ainda usar, principalmente pelo valor que a peça tinha.
Olhando ao redor, ela me encontrou e sorriu, disse alguma coisa a menina e caminhou para onde eu estava, de perto eu pude dar uma boa olhada nas pernas longas, disfarcei como pude, é claro. Levantei-me para abraçá-la e senti o cheiro já característico que vinha da pele e dos cabelos dela.
— Eu te fiz esperar muito? — Sentou-se ao meu lado, passando rapidamente os dedos pelos fios de cabelos fora do rabo de cavalo.
— Não, exatamente. — Sorri para ela, pensando que eu realmente tinha sentido sua falta nos dias em que não nos falamos. — É bom você pedir alguma coisa, a garota já veio trilhões de vezes e deve estar aborrecida porque ainda não fiz pedido nenhum.
Camille riu e me deu uma olhada engraçada.
Logo em seguida ela fez os pedidos, percebi o modo educado que ela se dirigia às pessoas, algo que eu admirava.
— O que houve para não atender minhas ligações? — perguntei, quando a garçonete se afastou.
— Tive dias ruins. — Sussurrou ela, e o olhar desconfiado estava ali, foi impossível não perceber.
— Eu posso ajudar?
Ela fez que não e correu os olhos pelo cardápio.
— Você não gosta de cappucino? — perguntou ela, mudando de assunto.
— Com exceção ao chocolate quente, eu prefiro café preto. — As estrelinhas tatuadas entre sua orelha e nuca chamaram minha atenção.
— Você gosta de tatuagens? — inquiriu, quando percebeu para onde eu olhava.
— Faz pouco tempo que descobri que sim. — Passei o polegar pela pele pintada, sentindo o relevo do desenho. — Pensa em fazer mais alguma?
— Talvez sim. — Ela pegou o celular da bolsa pequena e abriu uma pasta com arquivos e inspirações de tatuagens.
— Em que lugar dessa vez? — Segurei seu aparelho e passei as olhar as imagens, em grande maioria eram delicadas: borboletas ou frases de traços finos.
A garçonete trouxe o meu café, o cappucino e a fatia de torta dela.
— No pulso. — Indicou o lugar, e eu passei o dedo, imaginando alguns dos desenhos ali. — Você gostou de alguma? — Tomou um gole da bebida e passou a acompanhar as fotos junto comigo.
— Essa aqui. — Girei um pouco o celular para que ela visse a frase.
“ Com minha própria vida. ”
— Gosto também. — Ela me olhou sorrindo, o canto da boca sujo com um pedaço minúsculo de chocolate. — Você faria?
— Sim. — Usei o polegar para limpar seus lábios e coloquei o resquício de chocolate na minha própria boca, os olhos intensos me fitaram por um longo tempo e eu estava curioso para saber o que se passava em sua cabeça, da mesma forma que queria entender o motivo de seu sumiço.
— Por que não experimenta? — Ofereceu, apontando o garfo para a torta, aceitei e ela colocou um pedaço na minha boca. — Gostou?
Conforme o tempo foi passando, e a hora dela ir embora foi chegando, percebi que eu queria um pouco mais de tempo. Para tudo. Para as conversas, para o sorriso dela, para as manias e os gestos repetitivos que ela fazia em alguns momentos, para a intensidade verde dos olhos calorosos que me hipnotizavam. Eu queria mais tempo com ela, já tinha passado da hora de admitir isso e de saber se ela queria o mesmo. Fiquei subitamente nervoso, enquanto caminhávamos para onde meu carro estava estacionado.
Camille estava me convidando para o jantar que sua mãe promoveria por conta da formatura, a expressão corporal dela mudava quando citava a mãe, não era a primeira vez que havia notado. Todavia, eu não estaria de folga para comparecer, pedi que ela tirasse fotos e me mandasse todas.
— Pode me levar para outro lugar? — pediu ela, depois que liguei o motor do carro.
Olhei-a, talvez tendo uma resposta de que o que eu vinha sentindo era correspondido.
— Para onde quer ir? — Perguntei, mudando a rota que nos levaria para o seu prédio.
— Porque não me mostra onde você mora? — perguntou naturalmente, enquanto colocava o cinto de segurança.
— Nina nunca levou você lá? — Fiquei curioso e surpreso, apesar de raramente minha irmã aparecer com alguma amiga a tiracolo, com exceção do puto que ela chamava de namorado.
— Não, nunca deu certo, geralmente ela vai a minha casa. — Ajeitou a bolsa no colo atenta aos prédios que nos rodeavam.
— Ok.
A garota estava atenta a tudo.
— Somos praticamente vizinhos. — sussurrou ela, achando graça, quando fiz um gesto para que ela descesse do carro já no estacionamento.
— Praticamente. — concordei e segurei seu braço, puxando-a em direção ao elevador.
Não sabia se Nina estava em casa ou não, ainda não tinha parado para checar as mensagens do celular. Enfiei a mão no bolso do jeans e peguei as chaves para em seguida abrir a porta, dei espaço para que ela entrasse e fechei a porta atrás de mim, observando-a parar no meio da sala, olhando tudo.
— Quer beber alguma coisa? — perguntei e ela se virou para mim, nas bochechas uma coloração rosada e atraente, tal qual ela era. Atraente de modo muito natural. Camille fez um gesto que sim e eu fui até a cozinha.
Camille
Observei-o afastar-se e fui até o aparador, onde alguns porta-retratos estavam espalhados, além de uma chave solitária. O apartamento era extremamente masculino, com toques femininos sutis como algumas flores em lugares estratégicos, mas o tom predominante era escuro. Fui atraída por uma foto em que Nina estava abraçada com ele, em outra Mara e Tadeu, o pai de Marcone. Senti uma conexão familiar muito grande vendo aquelas fotografias. Uma vez, ouvi numa série o mocinho dizer que família era poder. Na verdade o que me fazia assistir era justamente a essência familiar que a trama tinha, a forma como um protegia ao outro.
Com a própria vida.
Deixei as fotos de lado, quando senti um vento agradável no meu braço. Percebi que vinha da sacada, a porta larga de vidro estava aberta assim como as persianas. Caminhei até lá e fiquei sem fôlego com a vista dali, era como se as estrelas estivessem muito perto, como se fosse possível tocá-las.
Fechei os olhos, sentindo o vento fresco do início da noite em meu rosto, e só voltei a abri-los quando senti o braço de Marcone roçar o meu, muito perto de mim.
— Vinho? — perguntei aceitando a taça que me estendeu.
— Sim. — Ele bebericou a própria bebida e manteve os olhos no meu rosto.
— É tão bonito aqui de cima — comentei, mudando a taça para a mão esquerda e consertando a bolsa no ombro.
— Eu gosto também, foi um dos motivos que me fez comprar o apartamento. — respondeu, ainda olhando meu rosto.
— Onde morava antes?
— Nesse mesmo bairro, mas num prédio inferior a esse. Quando Nina resolveu vir morar no Rio, resolvi me mudar. Aqui é mais seguro.
Família era poder.
Encaramo-nos por muito tempo, eu queria decifrar esse homem, queria ser tão atenta quanto ele era em ver a minha alma. Ainda em silêncio, Marcone tocou meu ombro e eu o segui de volta a sala, sentei no sofá, sentindo-me completamente nervosa por estar ali sozinha com ele. Tomei um gole da bebida e coloquei a taça na mesinha ao lado do sofá, sem saber onde colocar as mãos, ou o que dizer, como se eu nunca tivesse estado sozinha com um homem. Todavia, eu nunca estive sozinha com um homem como ele.
— Relaxe, Camille. — Ouvi-o dizer num tom suave, mas sério. — Quando você quiser ir é só me dizer.
Ele tomou o líquido inteiro da taça num só gole, e a colocou na mesa ao lado da minha, o movivento deixou meu corpo muito próximo ao dele por um momento, e a atração que quis tanto evitar estava ali, fazendo o ar a nossa volta mudar. Não sei se Marcone também notou, mas a forma como me olhou me fez prender a respiração e morder a lábio.
— Eu me pergunto o tempo inteiro o que se passa na sua cabeça. — Emendou ele e afagou levemente meu rosto, senti minhas bochechas quentes imediatamente, ao mesmo tempo que quis fechar os olhos e aproveitar o toque dele, eu queria olhar o seu rosto, sorver cada pequeno detalhe dele e das mudanças sutis que estavam acontecendo em seus olhos.
— Ultimamente? — Tive coragem de perguntar, olhando para as íris azuis atentas a mim. — Você. — confessei, porque era a verdade, não havia um dia sequer que eu não pensasse nesse homem, e que eu não inventasse desculpas para continuar com o que quer estivéssemos fazendo, por que não tinha nome, além de amizade. Era o que ele tinha proposto quando nos conhecemos, sermos amigos. Eu não sabia se passava disso para ele, porque eu começava a ver de maneira diferente.
Os lábios dele tocaram minha testa e eu fechei os olhos, sentindo, como que atraída pousei minha mão esquerda no seu pescoço, imaginando que mais tarde talvez o perfume dele permanecesse em meus dedos, fazendo-me lembrar daquilo que já estava completamente registrado pelos meus sentidos. Havia, porém, uma necessidade maior.
Conhecer o sabor. Saber se era tão gostoso quanto o cheiro.
— Me beija... — pedi, abrindo os olhos e afastando-me um pouco para ver o rosto dele. Os olhos azuis estavam escuros de uma forma que nunca os tinha visto antes, meu coração ficou agitado de tal forma que temi que Marcone pudesse escutá-lo.
Os dedos continuaram a afagar cada parte da minha face, como a descobrir cada traço, desde a sobrancelha até meu queixo. Prendi a respiração quando o rosto dele ficou mais próximo do meu, todavia, como numa tortura silenciosa ele beijou o canto dos meus lábios, enquanto roçava o nariz atrás da minha orelha.
Quase automaticamente minhas mãos se fecharam ao redor de sua nuca e então ele me beijou, as mãos grandes envolveram a minha cintura e no segundo seguinte eu estava em seu colo. O gosto do vinho recente misturado ao seu gosto natural tornaram o beijo quase afrodisíaco, senti cada parte de mim ficar arrepiada, entregue, enquanto a língua explorava meus lábios, meu coração antes disparado agora estava louco, completamente audível, afastei-me, tentando organizar as sensações, mas tudo ficou mais intenso quando a boca dele encontrou meu pescoço e eu gemi sem querer. Os afagos suaves em minha cintura continuaram, enquanto eu recuperava o fôlego, sem me desgrudar dele.
— Eu queria fazer isso há muito tempo... — disse ele, baixinho, e eu gostei de saber que não era a única afetada.
— Eu também. — Ergui o rosto para beijá-lo outra vez, defazendo-me em seus braços, em mil pedacinhos.
O beijo era gostoso, mais do que imaginei, como se minha boca fosse feita exatamente para encaixar na dele, aproveitei para tocá-lo, meus dedos passearam pelo peito rígido, forte, a barba crescendo, embora ainda invísivel espetaram-me levemente.
— Eu preciso passar mais tempo com você. — sussurrou em meu ouvido e fechei os olhos, abraçando-o mais forte, de forma que meus seios ficaram colados ao peito dele, o prazer nublando os meus pensamentos. — É só você dizer que quer também.
Afastei-me apenas o suficiente para ver seu rosto, perdi-me por um momento na escuridão incomum dos seus olhos.
— Seus olhos estão... diferentes... — O que disse soou num fio de voz.
— Os seus também — Dessa vez ele sorriu, como se soubesse de algo e eu não. Beijou delicadamente meu queixo. — Só vou me afastar se você quiser.
Ajeitei-me no seu colo.
— Eu não quero... — Admiti, eu não queria que ele se afastasse, muito pelo contrário, eu queria sentir aquela sensação nova que ele despertava, o nervosismo agradável, o prazer de apenas estar por perto, essas coisas simples que eu não lembrava que existiam.
Tentei me afastar dele quando ouvi o trinco da porta, mas Marcone me impediu, segurando-me pela cintura, e me mantendo em seu colo. Olhei para a entrada do apartamento, esperando pela irmã dele, só podia ser ela e era. Nina abriu e fechou sem nos perceber ali e quando viu a cena, primeiro estacou. A cara dela fez Marcone rir, não houve som, mas senti a vibração do seu tórax.
O filho da mãe riu.
— Acho que eu cheguei na hora errada. — retrucou ela, escondendo um sorriso.
— Você tem toda razão. — Marcone disse, o nariz brincou atrás da minha orelha, e fiquei dividida entre beijá-lo outra vez ou me enterrar em um buraco.
Carinhosamente e sem mais brincadeiras, Nina beijou meu rosto e se afastou para o corredor que devia levar aos quartos.
— É melhor eu ir. — Embora eu quisesse mesmo o contrário.
Ele entrelaçou nossos dedos e beijou minha mão algumas vezes antes de assentir.
A viagem até meu prédio foi rápida demais, ficamos a maior parte do tempo em silêncio, um muito agradável por sinal. Quando o carro estacionou, eu me virei para ele, assisti a mão grande deixar o volante e tocar meu rosto. E como se ali fosse o meu lugar, fui para o colo dele, não o beijei, encostei a testa na sua. Essa naturalidade toda entre nós me deixava surpresa e confortável ao mesmo tempo.
— Vamos nos ver amanhã? — perguntou baixinho, senti minha pele inteira arrepiar, e uma necessidade instável de ficar mais perto, as mãos dele afagaram minhas costas, espalhando calor por elas.
— Sim. — A resposta foi acompanhada de um selinho curto.
— E depois? — insistiu, num tom divertido, mas ainda assim sério.
— Também. — Sorri.
Não sei direito quanto tempo trocamos beijos dentro do carro, e quando o veículo escuro se afastou, eu só desejei que a noite passasse logo para que pudesse estar com Marcone de novo, no dia seguinte.