O Federal

Cris Araújo · Capítulo 18 de 63

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O Federal

Capítulo 17

 

Marcone

 

Era a primeira vez na semana que Nina me pedia para ir buscá-

la na faculdade, isso porque Benjamin estava em Minas Gerais com Andrea. Mexi no retrovisor para focar mais no carro negro que estava dois automóveis atrás do nosso, eu podia estar enganado, mas ele parecia sempre fazer o mesmo movimento que eu. Esperei o sinal abrir e mudei a rota que sempre fazia da FMU para o prédio.

— Eles estão nos seguindo? — Nina perguntou, parando de rabiscar no caderno pequeno e olhando de relance para trás, ela era esperta de um jeito que me deixava orgulhoso.

— Vamos descobrir agora. — Peguei a arma do porta-luvas e coloquei sob a minha coxa, enquanto reduzia a velocidade e parava no acostamento. Travei as portas e esperei.

O carro, um Sedan escuro, passou por nós numa velocidade moderada, de onde eu estava só pude ver a mão tatuada de quem estava no banco do passageiro e pendia meio para fora pela janela, a caveira desenhada tomava todo o dorso da mão, ainda tentei ver a placa do carro, mas só memorizei as três primeiras letras — LPT.

— Já vi esse carro perto da faculdade algumas vezes. — retrucou ela, olhando-me, depois me mostrou o que estava rabiscando. — Anotei a placa. — Deu sorrisinho convencido e fechou o caderno, recostando-se no banco.

— Garota esperta. — Coloquei novamente o veículo em movimento. — O carro fica apenas parado por lá?

— Eles devem ir buscar alguém que estuda na faculdade.

— Quero que me conte, caso continue acontecendo.

— Marco, não vai acontecer nada comigo. — Ela fez uma careta. — A universidade é segura.

— Lugar nenhum é 100% seguro. — Girei o volante numa curva e pisei no acelerador quando a pista ficou livre, eram quase vinte minutos a mais no trajeto.

Quando ela resolveu vir morar comigo, optei por mudar para um prédio mais seguro do que o que eu morava. Ela não postava localização ou fotos em tempo real nas redes sociais, o bom era que Nina, apesar de irritante a maior parte do tempo, colaborava para a própria segurança. Não aprontava nenhuma maluquice e nem deixava de me escutar quando eu recomendava que tomasse cuidado. Fiz um retorno desnecessário para irmos a polimix pegar o sanduíche que ela gostava, e que tinha se tornado praticamente o seu jantar de toda noite. Destravei a porta do carro e dei o cartão de crédito para que ela fosse fazer os pedidos, enquanto eu esperava. Olhei o relógio de pulso, certificando-me que já passava das seis horas da noite.

Quando voltei a estacionar o carro novamente, dessa vez no estacionamento do prédio, eu estava oficialmente atrasado.

— Vai ficar aí? — Nina perguntou, mantendo a porta do carro aberta, enquanto catava suas coisas e o pacote com os sanduíches.

— Subo num instante.

Ela bateu a porta e se foi em direção ao elevador, peguei o celular de dentro do porta-luvas e encontrei o contato de Cami. Havia se tornado um hábito. Todos os dias, nesse mesmo horário eu ligava, mesmo quando ainda estava na delegacia. Ela atendeu no segundo toque.

— Camille.

— Vai adivinhar onde eu estou hoje? — O timbre cadenciado e ,agora, completamente gravado em minha cabeça inquiriu com leveza.

Tentei escutar algo, mas estava tudo muito silencioso, exceto pela sua respiração. Todavia, era quarta-feira, um dos dias da semana em que ela tinha estágio. Consultei novamente o relógio: 18:18.

— Você está voltando para casa, precisamente parada no sinal vermelho a duas quadras do seu prédio.

— Como você sabe essas coisas? — Ouvi sua risada e um bufo teatral.

— Basta prestar um pouco de atenção aos detalhes, Camille. — Recostei a cabeça no banco, preparado para escutar o que ela tinha para contar.

— O que você seria se não fosse polícial? — Era a segunda vez que ela fazia essa pergunta e eu não tinha resposta.

— Sei lá, advogado? — Sugeri, afinal era a minha formação.

— Criminalista.

— Talvez. Ou podia ser peão, meu pai era fazendeiro.

Ela riu, provavelmente pensando a respeito, ou quem sabe, me imaginando dentro dos trajes vergonhosos.

— Como você está? — perguntei, num tom mais sério.

Houve um silêncio e depois o baque da porta do carro sendo fechada, o toc toc do salto alto no chão me fez imaginar como ela estava vestida. Um terninho discreto ou quem sabe, uma saia lápis extremamente sexy.

— Estou bem, apenas cansada. Tenho uma infinidade de coisas da faculdade para fazer.

A porta do elevador se fechou, ouvi o botão no andar sendo apertado.

— Os sites, e as referências que você mandou estão me ajudando muito nessa reta final. — continuou ela, referindo-se a uma de nossas conversas pelo aplicativo de mensagens.

— Por que escolheu direito? — Senti vontade de estar por perto para ver que tipo de expressão ela estava fazendo, enquanto pensava.

A porta do elevador se abriu e voltei a escutar o som do salto alto no piso, por um curto tempo.

— Escolhi porque era algo que minha mãe queria.

— E você gosta? — Perguntei, curioso por qualquer pista que ela pudesse me dar.

— Passei a gostar.

Pelo tom, soube que era verdade.

— Oficialmente no meu quarto agora — Ouvi-a dizer.

— Nos falamos depois, então. — Embora quisesse continuar na linha, eu precisava entrar e ela devia ter coisas para fazer também.

— Está bem.

Encerrei a ligação um minuto depois e permaneci olhando o aparelho por um tempo, perguntando-me se era a curiosidade ou a atração que me ligava a garota, ou talvez uma combinação das duas. Falavámo-nos todos os dias, eu sempre ligava, geralmente ficava ansioso por esse momento, começava a perceber uma personalidade cativante por trás da melancolia que vez ou outra ela demonstrava, a pasta com informações sobre ela ainda estava intocada no mesmo lugar, a sensação que eu tinha era de invadir sua privacidade caso fosse realmente analisar o que Andrea havia descoberto sobre ela. O que me deixava mais impressionado era a forma como ela esboçava interesse e desconfiança ao mesmo tempo, a desconfiança me incomodava, o interesse me deixava em alerta, não por ela, muito pelo contrário, por mim mesmo. O tic tac do meu relógio mental continuava irascível do mesmo jeito, os demônios que sempre me exauriam com a possibilidade de eu causar mais sofrimento ou morte em alguém inocente, como no passado. Isso me corroía, talvez o medo do qual Andrea se referira outro dia fosse o problema mesmo.

 

Camille

 

Coloquei o celular sobre o criado-mudo e deixei a bolsa no tapete felpudo do quarto, louca para tirar os saltos dos pés, flexionei os dedos e estiquei as pernas, sentindo-me mais cansada do que o normal. Além do dia ter sido realmente mais cheio, havia ainda o meu emocional que não estava no melhor momento, durante toda a manhã na faculdade a sensação que eu tinha era a de estar sendo observada, a cada vez que o celular tocava a mesma agonia aparecia, a sensação de entrar em pânico junto com uma ansiedade dilacerante e tudo por causa da volta de Enzo. Perguntava-me se ele tinha me esquecido, se tinha decidido me deixar em paz, como eu pedi tantas vezes desde o término. Olhei o dedo agora sem aliança alguma e soltei uma respiração aliviada. O dia tinha sido tão ruim que resolvi marcar uma consulta extra com a minha pscicóloga, geralmente depois da consulta eu estava mais apta a resolver melhor qualquer situação.

Caminhei para o banheiro, gostando da sensação do piso frio nos meus pés, era uma das minhas sensações preferidas, tal qual os pés na água do mar era como acalento. Despi o terninho e me encarei no espelho, minha atenção completamente no pingente em meu pescoço. Eu também queria falar dele para Hebe, contar sobre Marcone, de como eu me sentia atraida e tinha medo. Contar que eu ficava ansiosa pelas ligações e mensagens dele, por todo o frenesi qua a voz grave causava no meu íntimo, tão desconhecida e tão familiar.

Saí do banho, e fui direto para a cozinha depois de vestida. Não vi ninguém, o apartamento estava exatamente como o habitual: parecia inabitado. Havia suco de laranja na geladeira, todavia ele não me atraiu. Acabei sentando-me na poltrona em que Naia costumava ler, um de seus livros estava lá, eu o ignorei e fechei os olhos, aproveitando a brisa de início de noite, mantive os leds apagados, através das folhas de vidros eu conseguia ver a estrela e a lua cheia gigantesca, acabei adormecendo ali.

No dia seguinte eu saí direto da faculdade para preparar a aula de pintura das crianças, acabei almoçando com Aline e Tarcísio num restaurante popular próximo ao prédio, algo que fazia um tempinho que não fazíamos. Durante a aula, a maioria das crianças estavam dispersas e Isabelle não tinha aparecido, um mal sinal, raramente ela faltava. Só tive notícias suas quando já estava em casa através de Aline — a menina estivera internada por dois dias, mas já estava em casa. Eu sentia um profundo respeito pelo pai daquela criança, imaginava que não devia ser fácil para ele, apesar que Belle era uma menina especial, não por ter câncer, mas pelas ideias que carregava. Qualquer um que conversasse dois minutos com ela perceberia o quanto ela era encantadora em vários sentidos, mas principalmente no fato de nunca estar triste, isso me deixava curiosa sobre o mundo no geral, afinal ela tinha motivos de sobra para ser introvertida e calada, mas era o contrário: ela era protagonista sempre. Ainda me perguntava o que tanto tinha conversado com Marcone no dia em que ele passara a manhã conosco, eu teria aceitado ser uma mosca apenas para saber. Olhei para a tela do celular, estrategicamente colocado ao meu lado na cama e percebi o relógio digital mudar de 17:59 para 18:00 em ponto, automaticamente prendi a respiração, esperando. Claro que eu demorava um tempo para atender, ele não precisava saber que eu ficava ansiosa pelas ligações, que eu esperava por elas. Levantei, um tanto nervosa, e entrei no estúdio. Sentei no chão frio no exato momento em que o celular vibrou.

18:03.

— Porque esse horário? — fiz a pergunta assim que atendi, porque eu não lembrava em que momento as ligações tinham virado um hábito com hora marcada e tudo.

— Honestamente? — A voz grave soou divertida e eu sorri automáticamente. — Não sei.

— Hoje eu estive com as crianças. — Contei, mudando de assunto. — Isabelle esteve internada por dois dias.

— Ela melhorou?

— Para o quadro dela sim. — Suspirei, desanimada.

Ficamos em silêncio, perguntei-me onde ele estava, só me dei conta que havia feito a pergunta quando escutei a resposta dele.

— Estou na delegacia, com um monte de evidências, relatórios, fotos espalhadas pela minha mesa.

— Hum.

Fiquei sem saber o que dizer.

— Tem planos para amanhã a noite?

— Deixe-me olhar minha agenda — brinquei, andei até a tela em que o rosto dele estava pintado, passeei os dedos pelas nuances das cores e encontrei o azul expressivo dos olhos atentos, não eram em nada comparados com o que eu sentia quando os via pessoalmente, mas dava-me a impressão de sua presença real no ateliê, principalmente agora, enquanto eu escutava sua respiração. Fiz imagens mentais de como deveria ser o trabalho dele, imaginava o quanto de violência ele já devia ter presenciado e participado, afinal eu morava em um dos países mais violentos do mundo e numa cidade extremamente perigosa também. — Ela está livre.

Ouvi um suspiro arrastado e imaginei que o filho da mãe estivesse sorrindo.

— Pensei em dividirmos uma refeição. — sugeriu ele e eu revirei os olhos.

— Isso inclui sua irmã?

Ouvi a gargalhada gostosa que ele deu.

— Não, apenas nós dois. — O tom foi mais sério. — Às sete — sugeriu.

— Às oito. — Eu já me imaginava uma pilha de nervos antes mesmo do dia amanhecer.

— Ok.

Há dias, peguei-me pensando no quanto eu queria vê-lo outra vez, tudo era muito fácil perto dele, ainda que eu não o conhecesse por muito tempo, eu sabia pouco, percebi que ele não contava muito sobre si mesmo, na maior parte do tempo em que estivemos juntos, ele me fizera perguntas sobre mim, mas nunca me falara realmente sobre ele.

Não sei quanto tempo passamos conversando coisas sem sentido algum, ou perguntas aleatórias que ele fazia: tipo música preferida, comida preferida, lugar preferido da casa, eu respondi que era o ateliê e a área da pscina e Marcone voltou a perguntar quando veria meus quadros. Eu não dei uma resposta, é claro, então voltamos a falar de mim outra vez, giramos em torno do mundo da arte, dos artistas que eram minha referência. Ele escutou por muito tempo. O mais encantador era o interesse que Marcone demonstrava ter por qualquer coisa que eu dissesse, como se realmente fosse importante para ele saber, ficamos muito tempo conectados, tomei banho, comi e quando deitei na cama, ele ainda estava na linha. Não sei ao certo quando encerramos ou se encerramos, mas em algum momento eu dormi.