O Federal

Cris Araújo · Capítulo 25 de 63

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O Federal

Capítulo 24

 

Camille

Nina abriu a porta do banheiro de Marcone e depois de colocar

uma toalha seca no anel metálico, deixou-me sozinha para tomar banho. Nós tínhamos passado o dia juntas, almoçamos no shopping e assistimos a um filme no cinema. Uma estréia tão chata que eu não tinha sequer prestado atenção de verdade. Entrei no boxe e liguei chuveiro, regulando a água para ficar morna. Marcone estava há três dias fora, e eu começava a entender a angústia que Nina sentia quando falava do trabalho do irmão e de Ben, não era saudável para eles, muito menos para quem os esperava em casa. A possibilidade que talvez não houvesse volta, isso consumia e estragava tudo, fazia-me questionar por quais motivos alguém escolhia essa profissão. Fazia quase três semanas desde que ele me beijou, desde então não deixamos de nos falar, nem de nos vermos. A afinidade que tínhamos era surreal até mesmo para mim. Embora fôssemos completamente diferentes em algumas coisas, éramos iguais em outras. E quanto mais tempo juntos passávamos, mais eu me ressentia por mim mesma de ter chegado a cogitar que ele fosse igual a Enzo. Não podia ser mais diferente

Tudo era diferente, o jeito que ele me olhava, o jeito que falava comigo, a forma que se comportava quando estávamos em público, sem tentar me retrair, muito pelo contrário, ele ria das minhas besteiras. Deixava-me completamente a vontade, livre para que eu fosse quem quisesse ser. E era esse motivo que me deixava indecisa sobre contar a ele sobre Enzo, medo que ele mudasse comigo, que me olhasse diferente.

Saí do banho com esses pensamentos e fui até a minha bolsa sobre a cama, raramente eu entrava nesse quarto, exceto quando Marcone me pedia para pegar alguma coisa, mas eu conseguia enxergá-lo em cada detalhezinho, a personalidade forte estava presente em cada móvel e escolha de cor. Coloquei o vestido e caminhei até o closet dele, o cheiro do homem estava ali, como se ele estivesse presente, usei um pouco do perfume que estava em evidência na primeira prateleira e fui encontrar Nina na cozinha. Ela tinha me avisado que pediria pizza, sentei no balcão, observando-a abrir a caixa retangular com uma logo imensa e laranja.

O cheiro estava maravilhoso.

— Qual sabor você gosta? — Ela pegou duas latas de refrigente da geladeira e colocou no balcão junto com dois copos.

— O que tem aí? — Inclinei-me para ver e Nina sentou-se ao meu lado.

— Pedi três sabores diferentes. — Ela apontou para a caixa aberta, servindo a si mesma logo em seguida.

Passamos as horas seguintes vendo tevê, um episódio atrás do outro, algo que eu não fazia antes por causa do tcc.

 

Marcone

 

Bati a porta do carro e me abaixei para tirar a coleira de Bella e afagar a cabeça grande. Disciplinada, ela me seguiu até o elevador específico para moradores que tinham animais de estimação. Enquanto os números mudavam até parar no meu andar, ela permaneceu sentada, a língua para fora da boca indicava que ela estava cansada e com sede, o que não era de surpreender depois dos três dias de trabalho que nós tivemos. Às vezes eu preferia trabalhar com ela que com um agente humano, nos comunicávamos muito melhor.

Fui imediatamente até meu quarto, onde eu sabia que Nina estaria dormindo e me surpreendi ao ver que ela não estava sozinha. Eu teria um infarto fulminante se não tivesse visto a cabeleira castanha de Camille sobre o meu travesseiro, ambas dormiam tranquilamente, não cheguei perto para não acordá-las, apenas apreciei a cena, gostando muito do que via e da ligação inquestionável das duas. Tomei um banho e me troquei tentando fazer o mínimo de barulho, quando ia sair do banheiro, notei a calcinha branca rendada pendurada. Antes que eu pudesse pensar a respeito, peguei a peça pequena entre os dedos, minha mente fértil imaginando de várias formas como devia ficar em Camille, pelo tamanho não cobria nada. O sangue esquentou como um louco, e eu devolvi o pedaço de pano diabólico para onde estava antes.

Ainda olhei para as duas antes de sair e encostar a porta, coloquei água para Bella e tomei um copo de refrigerante, enquanto uma fatia de pizza esquentava no micro-ondas.

O cheiro já conhecido me fez olhar para trás, Camille e Bella se encaravam a uma distância razoável, o tamanho do animal realmente assustava a quem não lidava com ele sempre, esperei para ver como uma reagiria a outra, mas tudo que Bella fez foi ir até a garota e cheirar ao redor, como que conhecendo o terreno. Achei graça do olhar amedrontado que Camille me lançou, como se se sentisse encurralada.

— Venha, ela não vai machucar você. — Estendi a mão e ela veio, sendo seguida pelo cachorro que sentou-se, olhando para nós dois.

— Ele assusta. — reclamou, um tanto receosa.

— Ela. É uma fêmea. — Fiz um sinal e Bella se aproximou.

Camille se meteu entre minhas pernas e eu ri, aproveitando da proximidade para beijar o pescoço perfumado e frio. Os olhos sonolentos desviaram do cachorro para o meu peito nu, e as mãos curiosas passaram por ali, em seguida ela me encarou. As íris dilatadas, lembrei-me do que ela dissera sobre meus olhos estarem diferentes na noite em que nos beijamos pela primeira vez, os meus eram um reflexo indêntico dos dela, ambos dilatados, cheios de desejo.

Baixei a cabeça para tocar os lábios carnudos com os meus, sentindo a conexão familiar. Isso me surpreendia muito, a necessidade de estar perto dela, embora uma parte de mim ainda me chamasse de egoísta, uma que eu não queria escutar. Senti o corpo macio perto do meu, os seios redondos, que eu calculava serem pequenos, embora não os tivesse tocado ainda, estavam apertados contra o meu peito, fazendo meu sangue esquentar.

O ruído resignado que Bella soltou, fez-me afastar apenas um pouquinho de Camille, ela me abraçou.

— Acha que ela está com ciúmes? — perguntou.

Achei graça, abaixei-me diante de Bella e Camille fez o mesmo.

— Essa é Camille — apresentei, acariciando a cabeça peluda.

O olhar entediado que ela lançou nos fez rir, logo em seguida correu para o tapete perto da entrada da sacada, o lugar onde ela gostava de ficar quando estava aqui.

— Você demorou. — sussurrou ela, sentando-se num dos bancos e tomando um gole da bebida do meu copo. — É sempre assim?

— Depende da investigação.

Coloquei a pizza aquecida no prato e sentei ao seu lado, realmente faminto. Enquanto eu comia, ela me contou sobre a tarde com Nina, que decidira de última hora domrir aqui, em alguns momentos meus olhos se permitiam olhá-la com mais atenção e o pensamento de como ela ficava dentro do maldito pedaço de pano voltava a minha mente. A garota realmente não fazia ideia do quanto era atraente. Assim que terminei a fatia de pizza, acabamos no sofá, ela trouxe um lençol fino que pouco ajudaria caso ela estivesse mesmo com frio e se remexeu até ficar numa posição boa em cima de mim, dado ao pouco espaço do móvel.

— O que é isso?

Segui seu olhar, encontrando uma cicatriz que tinha ganhado de um dos assassinos de Sam, um canivete escondido e que perfurara superficialmente um pouco abaixo da minha costela. Pensar nisso com Camille perto de forma tão íntima, encheu-me de pesar. A voz imaginária me chamando de egoísta aparecendo e trazendo ainda mais desconforto.

— Ganhei numa briga. — Segurei o queixo delicado e beijei a boca tentadora, isso a manteve calada por um tempo.

Cami suspirou, aconchegando-se mais a mim.

— Você não tem medo? — perguntou de olhos fechados, os dedos curiosos espalhando-se por todo canto: meu tórax, meu peito, meu queixo. Ela gostava de tocar onde não devia e isso era um problema, porque o tempo inteiro eu tentava me segurar ao máximo com ela. Camille era especial demais, e eu não queria apressar nada, embora ela não me ajudasse em nada nisso. Os olhos da garota se tornavam febris durante os beijos e embora não fosse proposital, ferrava com a minha cabeça e meu autocontrole.

— De que? — inquiri, curioso.

— De morrer.

Ponderei a pergunta seriamente, na verdade eu nunca tinha parado para pensar a respeito. Para mim era pior para quem ficava, para quem tinha que enfrentar a dor da perda e o luto.

— Acho que a morte prefere as pessoas que eu amo à mim, Camille. — Ela levantou a cabeça para me olhar, um pouco de dor enchendo os seus olhos, talvez estivesse pensando na irmã.

Era um pensamento que tinha há muito tempo, várias coisas horríveis poderiam ter acontecido comigo ao longo desses anos, mas nunca me feri de verdade, não fisicamente. Apenas meu coração fora destruído e a dor era bem pior, muito pior do que qalquer dor física. As pontas dos dedos apenas pararam quando ela dormiu, a posição que eu estava era muito desconfortável, ainda assim permaneci do mesmo jeito, para poder olhá-la.

 

*

 

Uma das coisas que eu realmente apreciava no Rio de Janeiro eram as praias, eu costumava dizer que não havia cartão postal mais relevante que um retrato da praia num final de semana. Camille consertou o boné, que com certeza ficava mais atraente nela do que em mim e sugou mais uma vez a água de coco pelo canudo verde. Depois de um empate no vôlei contra Nina e Ben, viemos beber algo no quiosque, ela preferiu a água, eu uma cerveja, enquanto os outros dois estavam no mar.

O calor era infernal.

Parecia fazer um século que eu tinha um final de semana tão tranquilo quanto este. Depois de acordar e tomar o café da manhã com Nina e Camille, fiz uma ligação de vídeo para minha mãe e a advogada e me acalmei, ainda que parcialmente, por saber que estava tudo bem por lá. Depois do início do processo, a filha de Antônio tinha parado com os ataques nas redes sociais e minha mãe tinha recebido apenas o jornal principal de Minas, tinha sido um conselho da advogada para manter a imagem da fábrica completamente limpa por conta da prisão e dos crimes de Antônio, já que era uma das principais fontes de emprego e economia da região. Após isso, entrei em contato com o delegado responsável pelo caso e obtive informações a respeito dos pedidos de liberdade provisória que os advogados de Antônio já tinham solicitado várias vezes e que haviam sido negados.

O dia tinha começado bem, viemos para a praia em seguida.

Bella colocou a cabeça grande na coxa de Camille e ela afagou levemente, ainda receosa.

— Acho que ela está me dizendo que aceita dividir você, não é, Bella? — Cami sugeriu num tom divertido.

— Isso é um grande passo para o relacionamento de vocês. — brinquei e tomei outro gole de cerveja.

Relacionamento.

Embora não tivéssemos conversado realmente sobre nós dois, era isso que estávamos fazendo, não era? Construíndo um relacionamento, soava até estranho. Eu não imaginava que ficaria sozinho para sempre, mas nunca imaginei que me envolveria tão intensamente outra vez, ainda que eu não soubesse nominar o que sentia por essa garota, tudo que se referia a ela me afetava, a melancolia que vez ou outra a deixava quieta e retraída, a forma carinhosa como ela se referia a minha irmã e que de certa forma eu entendia o porquê, Nina era, talvez, uma extensão da relação que Camille tinha com a irmã. Ainda havia desconfiança, era como se ela esperasse por alguma atitude minha, principalmente quando conversávamos. Outra coisa que percebi é que a relação dela com os pais não era das melhores, havia mágoa quando Camille se referia a eles. Todavia o que me deixava surpreso era que ela tinha um jeito peculiar de demonstrar que me queria, ao modo dela, os beijos, os olhares, a voz, o sorriso era tudo muito genuino, puro.

Ela era preciosa, como uma pedrinha de brilhante.

— Olha.

Ouvi sua risada e vi Bella lamber a sua perna, um ato de carinho. Ao que parecia ela tinha conquistado minha irmã, a mim e à Bella.

— Ela gosta de você. — Segurei sua mão livre e beijei com carinho, estava salgada. — Vamos dar um mergulho, está muito quente. — sugeri.

Caminhamos de mãos dadas até o mar agitado, a onda molhou primeiro nossos pés. De longe, vi Nina e Ben saindo da água. Segurei a cintura de Camille, quando passei a conduzi-la para um lugar em que dificilmente seus pés tocariam no chão.

A boca dela veio ávida até a minha, as mãos que a até então estavam ao redor do meu pescoço subiram pela minha nuca até os meus cabelos, o movimento arrepiou meu corpo todo, a sensação de pele contra pele, sem muito tecido impedindo o contato. Os olhos ariscos abriram-se, quando segurei com um pouco mais de força a cintura fina, fazendo-a sentir, talvez, como tinha me deixado, eu podia sentir o seu coração acelerado, a respiração mais acentuada, a pele arrepiada sob meus dedos. Voltei a beijá-la, e inebriada como eu, ela retribuiu.

Não soube precisar quanto tempo ficamos ali, entre um beijo e outro, além das conversas paralelas, perguntas que ora ou outra ela fazia. Sobre meu trabalho e sobre a cicatriz novamente, ela encontrara outra em meu queixo, uma que eu nem percebia mais quando me olhava no espelho e que tinha uma história não tão sombria. Era uma herança do garoto levado que eu tinha sido na infância, isso a fez rir.

— Minha mãe tinha minis infartos sempre que eu chegava machucado. — contei, segurando-a firme, por conta do balanço mais forte do mar.

— Eu nunca teria saído de lá. — confidenciou ela, ainda com o polegar sobre a cicatriz.

Estreitei os olhos, sem entender.

— Da fazenda, eu nunca teria deixado aquele lugar.

— Por que?

— Tem vida.

Encostei os lábios na testa quente, pensando a respeito. O fato de eu não pensar assim tinha me afastado do meu pai por muitos anos, mas as palavras dela tinham um sentido, eu estava sentindo uma falta maior do que o habitual da calma daquele lugar. Minha casa. Lembrei-me de quando ela se referiu a se sentir segura lá.

— Porque você veio para cá? — perguntou ela, substituindo o dedo pela boca em meu queixo.

— Eu tive que fazer uma escolha, ficar lá e seguir os passos do meu pai ou ir atrás do que eu queria.

Depois de alguns minutos em silêncio, ela voltou a fazer perguntas.

— Porque escolheu ser policial?

O questionamento me fez voltar a muitos anos atrás, quando eu era ainda um menino frazino e ingênuo.

— Nem sempre nós tivemos dinheiro, Camille — referi-me a mim e a minha família. — Coisas ruins acontecem com pessoas pobres, ás vezes. E até que meu pai construísse tudo que ele construiu muitas coisas ruins aconteceram com ele e com minha mãe.

Situações humilhantes que muitas vezes quem havia apaziguado era alguém de farda, os homens fardados pareciam os heróis da minha infância, claro que depois de me tornar um deles descobri que nem sempre era assim, pelo contrário, alguns eram vilões também.

— Você ama o que faz... — Foi uma afirmação.

— Já amei. — Peguei um pouco de água com a mão direita e joguei pelo colo avermelhado pelo sol, fiz isso repetidas vezes. — Hoje em dia me pergunto porque ainda não parei.

— Você já pensou nisso?

— Há muito tempo atrás. — Segurei o queixo delicado e beijei a boca curiosa, beijá-la era muito melhor do que imaginei, a boca parecia ter sido feita para isso.

O dia seguiu tranquilo, quando eu a deixei em casa já era noite. Sentir-me inquieto assim que ela ia embora vinha sendo uma constante.