O Federal

Cris Araújo · Capítulo 40 de 63

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O Federal

Capítulo 39

 

Marcone

 

Saí pela porta de vidro da delegacia e liguei para Camille, ela

me atendeu no primeiro toque.

— Está livre agora? — perguntei, entrando no meu carro dentro do estacionamento da delegacia.

Não houve resposta imediata, apenas a respiração dela foi ouvida por alguns minutos.

— O gato roubou sua língua? — Esperei que ela risse, mas não aconteceu. — E então?

— Estou com a crianças agora.

Estranhei num primeiro momento, não a resposta, mas o tom que usou para responder.

— Tudo bem, nos vemos a noite, então.

Decidi ir encontrá-la no projeto, fazia tempo que eu não via aquelas crianças e a tagarela da Isabelle. Assim que estacionei o carro diante do prédio, vi Tarcísio ajudando algumas crianças a descerem de um veículo grande, ele não me viu. Percebi que a infraestrutura do lugar era maravilhosa, mas não muito segura. Eu não tive problema nenhum em entrar sem que ninguém me visse. Passei pelo lavatório para lavar as mãos e fiz o mesmo caminho de um tempinho atrás quando vim com Camille.

Todavia a sala estava vazia.

— Marcone. — Ouvi a voz de Aline e me virei. — Que surpresa.

— Oi. — Olhei por sobre o ombro para a sala novamente, certificando-me se era o lugar certo. — Camille me disse que estaria aqui, então eu resolvi passar para ver as crianças, faz um tempinho que não apareço.

Aline franziu um pouco as sobrancelhas e mudou o caderno que segurava de um lado para o outro.

— Faz muito tempo que ela disse isso para você?

— Não muito, ela já foi embora.

— Não, na verdade ela não apareceu aqui hoje ainda.

Enfiei as mãos nos bolsos e olhei da porta para Aline, repassando a ligação e o que a mentirosa tinha me dito.

— Ela não veio? — insisti.

Ela negou com a cabeça, a expressão assumindo um ar preocupado.

— Aconteceu algo?

— Eu devo ter entendido errado, então. — repliquei, após um tempo.

 

*

Recuei assim que escutei as vozes das duas, Nina colocava uma calça jeans na mochila e Camille estava de pernas cruzadas, observando-a. Meu coração chegou a ficar aquecido, encantado com a ligação das duas. Mas logo em seguida me lembrei das mentiras dela, do fato de ter me sentido um trouxa mais cedo. Deixei-as ali, e fui ao meu quarto a fim de tomar um banho rápido, ainda sentindo-me frustrado. Buscando entender a mentira dela, talvez até buscando desculpas para as omissões e mentiras.

Deixei o quarto e caminhei para o escritório, não demorou muito para que a porta fosse aberta. Nina entrou de maneira sonsa, iria para a casa do puto e ficava envergonhada por isso, as bochechas da encrenqueira chegavam a corar.

— Marco, estou indo... não venho dormir em casa... — Beijou de leve meu rosto, mas parou um minuto me encarando, provavelmente percebendo que eu não estava num dos meus melhores dias.

— Como você vai? — Desviei a atenção de Camille, que permanecia em pé olhando nossa interação.

— Ben está aí embaixo me esperando.

— Ok. — Beijei de leve a cabeça dela. — Não esqueça de ligar para nossa mãe. — Ela me abraçou rapidamente, disse algumas palavras a Camille e saiu logo em seguida, deixando-nos a sós.

— Oi. — Cami fechou a porta e sorriu de leve para mim, por um momento quase esqueci porque estava zangado e desisti de questioná-la.

Apenas por um momento.

— Onde você esteve essa tarde, Camille? — perguntei, desconfortável, é claro.

O seu rosto ficou completamente confuso, caminhei até onde ela estava e cruzei os braços, parando em sua frente.

— Eu disse para você.

Mentirosa.

— Estranho, eu estive lá e Aline não fazia ideia de onde você estava. — A confusão transformou-se em outra coisa. Vergonha, talvez. — Na verdade, ela me disse que você sequer esteve lá hoje.

— Você está me vigiando? — perguntou horrorizada, os olhos ficaram marejados como se estivesse enxergando algo muito ruim em mim.

— Não, não estou. Apenas quis passar a tarde com você e resolvi fazer uma surpresa já que tinha me dito que estaria lá. Por que você mentiu? — Descruzei os braços e ela deu um passo para trás, assustada.

Foi minha vez de ficar horrorizado, ela estava achando que eu ia agredi-la?

— É melhor eu ir para casa. — sussurrou, os olhos piscando veementemente, afastando-se de mim.

— Prefere se afastar a me dizer por que mentiu? — inquiri, incrédulo.

— Eu vou para casa, quero ficar sozinha.

Encarei-a, a frustração se transformando em raiva.

— Então vá. — Apontei para a porta e dei-lhe as costas voltando para a cadeira.

Quando voltei a encará-la a decepção era muito clara no seu rosto, esperava outra reação minha, obviamente. Ainda ficou quieta, e depois saiu, engoli em seco, imediatamente arrependido, impelido a ir atrás dela. Ouvi a porta ser aberta e fechada, e esfreguei os olhos.

— Caralho. — grunhi e levantei, pegando as chaves do carro.

Saí rapidamente para a sala no intuito de encontra-lá antes que entrasse no elevador. Todavia, Camille ainda estava ali, encostada na porta, ela ergueu o rosto para mim e eu notei a face extremamente vermelha, ela não estava chorando, mas estava com vergonha. Muita vergonha.

— Estou apaixonada, Marcone... — sussurrou, e então apenas uma lágrima escorreu por sua face, ela enxugou imediatamente. — Você já quis ser perfeito para alguém? — Dessa vez ela fechou os olhos com força e quando os abriu havia uma mistura gritante de sentimentos, o mais evidente era a insegurança.

— Sim. — Eu queria ser para ela.

Ela tirou um pequeno cartão do bolso do jeans e deu alguns passos até entregá-lo a mim.

Hebe Duarte. Pscicóloga.

Senti-me tolo por um momento, mas ela também não tinha facilitado as coisas, seria muito simples ter simplesmente dito a verdade.

— Minha irmã me convenceu a fazer terapia.

Senti vontade de abraçá-la tamanha a vulnerabilidade que ela estava esboçando, mas pelo tom de voz que falava Camille me afastaria, ela estava fazendo esforço para não chorar.

— Não há problema nenhum em fazer terapia ou acompanhamento com um pscicólogo, eu também faço.

Ela meneou a cabeça numa negativa, a língua passando nervosamente pelos lábios.

— Você é diferente de tudo que eu já estou habituada. — Ela estava triste. — Às vezes, nem acredito que seja real e eu tenho medo que acabe. — Fez uma pausa. — Estou mentindo para você, escondendo coisas que não devia...

— Eu sei. — Dei um passo incerto em sua direção, temendo que por algum motivo ela recuasse. Consegui abraçá-la, mas o corpo pequeno estava rígido, tenso. — Você achou que eu fosse te bater? — inquiri, mesmo antes de ela responder eu já estava com vontade de matar o desgraçado. O rosto dela ficou ainda mais vermelho, cheio de ultraje, vergonha.

Perguntei-me que tipo de merda tinham feito com ela.

— Eu nunca machucaria você. — Ergui o seu rosto, a boca vermelha tremia levemente. — Foi ele quem machucou seu rosto.

Ela sabia de quem eu estava falando, mas não respondeu e algumas lágrimas rolaram pelo seu rosto e eu soube que sim.

— Porque não me contou?

— Eu queria contar, eu queria, mas fiquei com medo. Eu estou com medo. — Ficou nervosa, a voz chegou a ficar alta. — Se não fosse Bella, ele teria me arrastado pelas ruas e ninguém teria feito nada. As pessoas não se importam, nem minha mãe acreditou em mim... — Entendi a mágoa que ela tinha da mãe. — Ela não quis nem me ouvir.

— E você achou que seria o mesmo se me contasse?

— Você é diferente do que estou habituada. — Ela voltou a dizer as mesmas palavras, e os dedos tocaram o meu rosto. — Eu gosto do jeito que você me olha, as coisas que me fala... é um mundo diferente do que estou acostumada... eu achei que podia mudar. Que você começasse a me enxergar de outro jeito...

O pior de tudo era ver que Camille se considerava culpada.

 

Camille

 

Aceitei o copo com água que Marcone me deu, ainda com vergonha de encará-lo. Expor o que eu sentia era tão ultrajante que parecia errado, fui chamada por tanto tempo de louca que simplesmente admitir que estava prestes a entrar num consultório para uma terapia de rotina era difícil, era como concordar que eles estavam certos. Que eu era louca de verdade.

— Quando você pretendia contar para mim?

Não havia acusação no tom dele, nem condescendência. Ele estava chateado e provavelmente desde a nossa viagem a Minas estivesse ligando pontos. Marcone era inteligente.

— Eu ia contar, eu só não sabia como. — Olhei-o disposta a contar tudo. — Eu menti por ele, fingi ser o que não era, insisti numa relação falida, me apeguei desesperadamente à minha esperança de que ele mudasse em algum momento....

— E o que te fez mudar de ideia?

— Minha irmã, ela transformou a vida dele num inferno até terminarmos.

Marcone apenas assentiu, perguntei-me o que ele estava pensando, nunca tinha visto seu rosto tão duro e tão severo. O que quer que se passasse em sua cabeça não era bom.

— Porque nunca abriu um processo? — perguntou ele, depois de um momento.

 

— Nós vamos agora a uma delegacia. — A voz de Liz soou tão

irritada, mas tudo o que fiz foi tapar os ouvidos, completamente cansada de toda a gritaria.

Evitei olhar o rosto no espelho, horrorizada com a dor intensa no olho direito. Minha boca parecia estar mil vezes maior, inchada e escoriada.

— Ela não vai sair daqui, porra. — A voz colérica demonstrava o tanto de álcool que ele devia ter ingerido.

Eu não chorei, só me senti morrer mais um pouquinho, como vinha acontecendo. Uma pequena dose de morte dia após dia. Era o que eu vinha consumindo desde que o deixei entrar na minha vida.

 

Pisquei com a lembrança, eu não tinha dúvida alguma que fosse uma lembrança. Fragmentos sendo unidos pouco a pouco, a sensação que senti naquele dia veio tornando aquela parte da minha vida mais real do que eu gostaria.

— O que foi, Camille? — ele perguntou, aproximando-se instantaneamente.

— No dia em que minha irmã morreu, eu o vi. Mas eu não consigo entender como e porque. — soei confusa, sem consegui ordenar os pensamentos.

— Você se lembrou?

— Não exatamente, estão vindo cenas embaralhadas, fora de ordem. — Enrolei os cabelos para cima e peguei o copo de água sobre a mesa, bebi o que restava de uma vez.

Uma pontada na testa me fez fechar os olhos e as mãos dele tocaram meus ombros.

— O que lembrou?

— Ele me bateu, mas minha irmã estava lá. Ela disse que me levaria a polícia...

— E o que mais? — Ele beijou minha têmpora, parecendo saber exatamente onde estava doendo.

— Só isso...

Ele suspirou e manteve a boca encostada na minha testa.

— Tente se lembrar. — sussurrou com carinho, e eu o abracei, em segundos estava em seu colo.

Não respondi nada, aproveitei do cheiro e do carinho dele no meu cabelo, só algum tempo depois eu parei para pensar no que podia acontecer se Marcone fosse confrontá-lo, não era o que eu queria e eu tinha medo do resultado.

— Pode me prometer uma coisa? — Levantei a cabeça para olhá-lo, e eu vi a tensão no rosto bonito.

— Eu não vou prometer nada se for relacionado a aquele desgraçado. — respondeu irritado e eu senti ainda mais medo.

— Eu não quero que essas pessoas entrem na sua vida por minha causa. — referi-me a todos que faziam parte da minha vida, até mesmo meus pais.

Ele sorriu, não o sorriso que eu gostava. Era mais o sorriso de um homem que já tinha passado coisas dolorosas.

— Você é muito jovem ainda. — Marcone beijou minha testa, o dedo tocou levemente a ponta do meu nariz e logo depois fez o contorno da minha sobrancelha.

— Não sou tão jovem, tenho 21 anos.

Marcone riu, o polegar afagou minha bochecha, e os olhos ficaram tão intensos que perdi a respiração por um momento.

— Então, está apaixonada?

Senti-me subitamente tímida, tentada a esconder o rosto dele.

— Eu também estou. — A afirmação fez meu coração dar um pulo e uma onda de nervosismo me percorrer inteira, como se minha corrente sanguínea estivesse bombeando mais sangue que o normal para o meu peito, houve um formigamento geral no meu corpo até o último fio de cabelo. — Acho que desde quando vi você pela primeira vez. — O dedo longo puxou o meu cabelo do coque.

— Na fazenda? — inquiri, sem conseguir conter um sorriso. Ele sorriu também, e negou com a cabeça o que me deixou confusa.

— Antes disso.