O Federal

Cris Araújo · Capítulo 62 de 63

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O Federal

Capítulo 61

 

Camille

 

Como acontecia em todas as manhãs, Bella me seguiu pelo

quarto desde a hora em que levantei da cama até o momento em que desci para tomar o café da manhã. E eu adorava isso, adorava a lealdade dela. Nunca entendi muito bem o encanto que os cães despertavam até conhecê-la, ela agora era nossa.

Ela deitou no seu tapete habitual e eu me sentei à mesa do café da manhã. Estava me servindo, quando a funcionária de Mara apareceu, trazendo o telefone para mim. Estranhei num primeiro momento, era raro alguém me ligar, com exceção de Aline, Naiá e às vezes meu pais.

— Alô? — Segurei a xícara, pronta para dar o primeiro gole.

— Eu sinto muito, filha. — Minha mãe. Num primeiro momento imaginei que algo tivesse acontecido ao meu pai, pelo que eu via nos jornais, ele não estava lidando muito bem com a quantidade de dinheiro que estava perdendo.

— O que houve, mamãe?

— Você ainda não assistiu aos noticiários? — inquiriu surpresa. — Seu marido está desaparecido, houve uma explosão em uma das boates e ninguém o encontrou mais... Aquela mulher loira está falando agora na tevê.

O baque da xícara sobre o vidro da mesa soou ensurdecedor, alguns cacos feriram meus dedos e não fosse a armação de madeira, eu estaria com as pernas inteiras cortadas.

Ainda com o telefone na orelha, fui até a sala de tevê, ignorando o ardor que se espalhou pala minha mão por causa do ferimento. Liguei o monitor, e aumentei o som quando encontrei o canal ao qual Joice se referia.

— Eu não consigo acreditar que algo assim aconteceu com ele.

Ainda tenho esperanças que há algum mal entendido, só vou acreditar quando todos os escombros forem retirados. Por enquanto ele está desaparecido, não há morte ou perda confirmada.

— Camille.

A voz de Nina foi a última coisa que escutei, antes de sucumbir totalmente à escuridão.

 

*

 

Desespero.

Nunca pensei que fosse descobrir o significado real da palavra dessa forma. Assim que despertei parecia que todos os telefones da casa estavam tocando junto com os latidos de Bella, ela estava agitada, não sei se por causa do meu estado ou porque sentia algo.

Talvez a mesma dor que eu.

Nesse mundo de ligações ninguém conseguia se comunicar com ninguém. A única pessoa que realmente conseguimos falar foi com Benjamin, mas ele sabia tanto quanto nós. Eu só conseguia chorar, enquanto a sensação de não conseguir acreditar me inundava e me deixava. Nós tínhamos nos falado ontem. Não era possível que...

Evitei o pensamento.

Celine apareceu trazendo um copo de água, mas recusei. Eu não queria nada disso, queria apenas meu marido em casa.

Subi para o quarto, detestando tudo que estava sentindo. Enviei dezenas de mensagens para o celular dele, mas nenhum chegou realmente. Minhas mãos tremiam tanto, tanto, todo o corpo tremia. Eu não conseguia ficar sentada, ou deitada, só queria que alguém me desse alguma notícia, qualquer uma.

Torci os dedos, eu devia ter implorado para que ele não fosse. Devia ter dito mais vezes que o amava, devia ter feito tantas coisas. Mesmo sem querer, algumas lágrimas vieram, eu me recusava a acreditar que uma desgraça desse tipo pudesse ter acontecido com ele.

Explosão. Escombros. Desaparecido.

Era tudo que eu lembrava do que Andrea havia dito.

Explosão. Escombros. Desaparecido.

Meu cérebro ficava repetindo isso o tempo todo, tentando encontrar um meio termo, algo que não me fizesse pensar que ele podia estar morto. Talvez tivesse sido uma explosão pequena.

Horas se passaram, a noite chegou e não recebemos notícia alguma, nenhum sinal. Tomei um banho, tentando me acalmar e me sentei na cama, olhando atentamente para o celular, esperando um sinal e evitando entrar em sites de notícias.

Ouvi passos do lado de fora e coloquei o aparelho sobre o criado-mudo, ciente de que não era eu apenas sofrendo aqui. Nina e Mara também estavam, permaneci quieta quando a porta foi aberta, já ensaiando a desculpa que eu daria para continuar ali sozinha e não descer para comer.

— Você bem que podia falar comigo, não é?

Fechei os olhos com força, temendo estar dentro de uma pegadinha do meu próprio cérebro.

— Me dar um oi, ou quem sabe até dizer que estava com saudades. — A voz grave soou tão carinhosa, que senti as lágrimas descerem por meu rosto, várias delas. O cheiro dele já preenchendo o quarto, como se não estivesse fora há semanas. — Me perdoa, meu amor. — sussurrou ele, introduzindo os dedos entre meus cabelos, enquanto eu ainda não tinha coragem de abrir os olhos e ver que era mentira, que ele não estava ali. — Calculamos tudo errado, eu achei que a notícia só sairia quando já estivesse aqui com vocês.

Reunindo toda a coragem que eu tinha, abri os olhos devagar, enquanto minha respiração se acelerava. Meus dedos tatearam pelo corpo dele, para que eu tivesse certeza de que era mesmo Marcone ali. Minha boca procurou a dele e todo mal estar se dissipou completamente, como se ele fosse um remédio perfeito e ele era.

Para mim ele era.

— O que aconteceu? — inquiri, sem conseguir desgrudar dele, buscando uma forma de me encaixar no seu colo.

— Houve realmente uma explosão, mas eu não estava lá. — Enquanto falava, ele afagou todo o meu rosto, desde a sobrancelha até o queixo. — Policiais se feriram, alguns morreram. — Fez uma pausa. — Agora acabou. Não quero mais nada desse tipo na nossa vida. Acabou de verdade.

— Jura?

Ele assentiu e me beijou outra vez.

— Andrea sabia?

— Sim, ela já está no Brasil também.

— E a irmã de Bruna? — inquiri, porque foi esse o real motivo dele tar ido.

— Ela está bem. É tão esperta quanto a irmã.

 

Marcone

 

Nunca senti tanto medo de morrer na minha vida, e devo dizer que em alguns momentos chegou perto. Só o pensamento de não vê-la mais me desestabilizava, não só por mim, mas pela decepção que lhe causaria, o sofrimento, a angustia, embora eu soubesse que mesmo sem mim, Camille jamais estaria sozinha.

— Eu achei que iria morrer quando ouvi o que Andrea disse. — Tudo que eu não queria era vê-la chorar e ainda mais por minha causa. — Achei que não fosse mais ver você.

— Foi uma mentira que precisou ser contada. — segurei o rosto dela e beijei os lábios trêmulos. — Agora está tudo bem.

Camille assentiu e me abraçou apertado.

— Eu te amo. — ela repetiu. — Te amo de verdade, chega a doer aqui. — ela colocou a minha mão sobre o próprio coração, que batia descompassado. — Não quero me afastar nunca mais...

— Isso não vai acontecer. — Beijei-a. — Nunca mais.

Olhei dentro das suas íris verdes, os olhos estavam úmidos pelas lágrimas e foi como se eu pudesse ver passado e o futuro, ambos se cruzando como se fossem apenas um, a vida me fez entender as cicatrizes, mesmo as mais dolorosas. Em algum momento eu entendi porque doeu mesmo sem aceitar, eu seria estúpido e mentiroso se dissesse que aceitava. Muito pelo contrário, cada marca deixada pela vida seria sempre lembrada, eu nunca esqueceria meu passado, mas agora eu não conseguia viver sem o meu presente, se ele fazia parte do meu destino ou se eu estava predestinado, era algo que nunca entenderia.

Mas a minha maior certeza era a de que eu a amava, amava a forma como ela entrara na minha vida, amava a forma como aprendemos a nos amar, amava a forma como não tínhamos pulado fase, o que aconteceu entre nós foi construído, um tijolo de cada vez. Cada ligação, cada mensagem, cada café, cada jantar, a primeira vez que fizemos amor, a primeira briga. Tudo tinha sido milimetricamente construído, mesmo quando estávamos distraídos em questionamentos secundários.

Os meus momentos com ela eram únicos, seriam sempre únicos. Tínhamos tempo.