O Federal

Cris Araújo · Capítulo 13 de 63

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O Federal

Capítulo 12

 

Camille

 

— Foi algo grave? — Flávio perguntou assim que Marcone

sentou novamente ao meu lado.

— Ela disse que não, eu me ofereci para ir junto, mas Júlia disse que não precisava,

Era um exagero me sentir desconfortável com a interação dos dois, mas me vi exatamente dessa forma, ainda que ele estivesse me dando atenção. Eu não era burra, mas a forma como ela me avaliou parecia e muito com o jeito que as mulheres me avaliavam nos eventos que eu costumava ir com meu ex. Senti-me intrusa, como me sentia a maior parte do tempo, num lugar onde não deveria estar.

— E você já está trabalhando na área? — Flávio voltou a me fazer perguntas.

— Estava, mas tive alguns problemas e tive que sair.

— Nós temos um programa de estágio muito bom, se tiver interesse em conhecer.

— Claro... — O sorriso foi involuntário, era o que eu precisava, manter a mente ocupada o máximo que eu pudesse.

Comi o tal sanduíche japonês abrasileirado e gostei mais do que imaginei, e a noite correu bem, mais interessante do que achei que seria. A sensação pouco comum de querer esticá-la estava lá, mas o tempo estava passando.

— Posso te levar para casa?

Uma das coisas que ficava cada vez mais clara, mais evidente sobre Marcone é que ele sempre me dava uma opção. Eu podia dizer sim ou não.

— Sim. — Foi um fio de voz que deixei escapar, minha cara já pegava fogo. A cada vez que eu olhava para Aline, via uma expressão diferente e eu sabia que ela não me deixaria em paz sem que eu contasse quem era Marcone. — Aline veio comigo...

— Não tem problema nenhum. — Ele me olhou. — Quantas tatuagens você tem?

A pergunta veio subitamente.

— Seis. No pé e na nuca.

— Mais nenhuma? — Ele realmente voltou o tronco na minha direção.

— Não.

— Tem algum significado?

Parei um minuto para pensar, meio decepcionada. Na verdade, não tinha significado algum, era só mais um fruto dos meus impulsos.

— Não, eu vi o desenho e gostei. Só isso.

— Gostar do desenho é um motivo e tanto, não é? — Ele sorriu, fazendo as covinhas ficarem expostas de um jeito atraente.

 

— Você tem alguma? — perguntei, Flávio tinha o braço inteiro tatuado e pelo V da camisa dava para ver o final ou o início de outro desenho, o que me levava a entender que o peito também era tatuado.

— Não, nenhuma.

Eu realmente não havia visto nenhuma pelo corpo dele quando estivemos na cachoeira, e eu olhei bastante.

 

*

Não me lembrava de ter uma noite tão agradável nem de ter rido tanto, Marcone e Flávio além de um repertório inesgotável de assuntos, eram engraçados, gentis. Depois de alguns drinks voltamos para o pub, Aline e eu dançamos tanto que cheguei a ficar suada, a sensação de liberdade, de poder estar em qualquer lugar e com quem eu quisesse, não tinha preço. A liberdade, o sentir-se livre não tinha preço.

Soltei um suspiro quando a fachada do prédio foi ficando evidente.

— Obrigada, Marcone. — Aline foi dizendo, enquanto se ajeitava para sair do carro.

— Boa noite, Aline. — sussurrou ele, e virou-se para mim. — Posso falar com você?

Assenti, e fiquei nervosa quando minha amiga saiu do carro, fiz um sinal através da minha janela aberta para que ela subisse.

— Eu gostei da noite. — Acabei dizendo, quando ele não fez nada além de me encarar.

— Eu também.

— E eu nem queria ir. — Meneei a cabeça e puxei os cabelos que eu precisaria lavar novamente.

— Porque não queria?

Dei de ombros sem saber o que responder.

— O que quer falar comigo?

— Nada, só não queria que entrasse ainda.

Mordi o lábio, escondendo um sorriso idiota.

— Por que não me ligou?

— Eu ligaria mais cedo ou mais tarde. — O tom que ele usou foi intenso, o que me fez acreditar.

Num movimento lento, ele se aproximou e deixou um beijo suave na minha testa, fechei os olhos, aspirando o cheiro masculino, misturado com menta ou algo parecido.

— Essa é a hora que eu entro?

— Sim, Camille, é a hora que você entra.

Fiz exatamente isso, o carro negro de vidros escuros permaneceu na calçada até que entrei no elevador privativo, fiquei encostada na parede, observando as mudanças dos andares, o celular vibrou em minha bolsa e meu coração acelerou, abri o zíper rapidamente e entrei no aplicativo de mensagens.

 

De: Marcone

Boa noite, Cami.

 

Mordi o lábio, escondendo um sorriso de pura satisfação, olhei inúmeras vezes, pensando em mil maneiras diferentes de dar boa noite para ele, um entusiasmo repentino agitando o meu estômago. Saí do elevador, ainda digitando e apagando inúmeras vezes. Soltei um grito, quando esbarrei em alguém a caminho da porta de correr que me levaria ao hall.

— Aline! — Ajeitei a bolsinha no ombro depois do susto, e olhei de cara feia para ela. — Qual o seu problema?

— Você passou a noite inteira flertando com aquele bonitão e achou que não me daria respostas.

Revirei os olhos indignada e coloquei o dedo no leitor de digital. Eu já esperava por isso de qualquer forma.

— Quem é ele? — A curiosa perguntou, seguindo-me.

Fiz um gesto para que falasse baixo, afinal já passava de uma da manhã, tirei a sandália de salto e caminhamos para a cozinha. Mesmo depois de vários drinks, eu estava perfeitamente consciente, a cada coquetel, Marcone me entregava uma taça de água com gelo. Eu tinha gostado, não me lembrava da última vez que saí assim.

— Quem é ele? — ela voltou a questionar, esbarrando num dos bancos altos em frente ao balcão. Acendi o led e abri a geladeira em busca de algo gelado para beber.

— Irmão de Nina. — Tirei uma lata de coca light e enchi dois copos. — Eu o conheci na fazenda.

— Hum.. — A expressão dela ficou pensativa, talvez imaginando coisas a respeito. — E o que rolou?

— Nada, ele foi gentil como hoje e só. — Bebi um gole da bebida, o gás entupiu momentaneamente o meu nariz. — Você conheceu Flávio no projeto?

— Não, meu pai tem negócios com o pai dele. Eu o conheci em um desses jantares cheios de pompa que a avó dele promove. Fiquei sabendo do projeto e quis participar.

— Mas, porque crianças com câncer? — indaguei curiosa, não questionando o motivo em si, mas se havia algo mais pessoal por trás dele.

Geralmente minhas emoções eram as maiores culpadas das minhas atitudes, principalmente quando elas eram ruins.

— Eu não sei, ele é meio reservado com relação à vida pessoal. Na verdade, nunca conversamos a respeito dos porquês. — Ela terminou a bebida antes de mim e deixou o copo sobre o balcão.

— E aquela mulher? — perguntei de modo desinteressado. — Você sabe quem ela é?

Uma risada sorona soou a cozinha, e eu a olhei irritada.

— Ela é repórter, mas não sei nada além disso, sempre a vi na área vip das boates de Flavio, mas... — Deu de ombros, por fim.

Lembrei-me da mensagem que eu não havia respondido e puxei o celular da bancada.

 

De: Camille

Boa noite, Marcone.

 

Curiosa, toquei na foto de perfil dele. Não me surpreendi que fosse com Nina, embora ela o fizesse de gato e sapato, era nítida a ligação dos dois.

— Viu que foi bom sair hoje? — Aline sorriu, o sorriso combinado com a juba castanha, deixavam-na ainda mais bonita.

— Foi muito bom. — concordei.

Ela acabou dormindo aqui em casa, ainda passamos muito tempo conversando no escuro, depois do banho e não fazia ideia de em que momento adormeci.

 

*

 

Abaixei-me para pegar o suco de laranja que Naia trouxera, dei um gole e voltei a digitar o documento no word, enquanto, pelo fone de ouvido, eu escutava um audiobook sobre negligência familiar, o tema central do meu tcc. Eu tinha enviado mais cedo um e-mail para Flávio, e a ansiedade para a chegada da resposta estava me matando. Se eu conseguisse trabalhar, mais uma mudança na minha vida estaria concretizada, mais um passo sem depender de ninguém, mas uma escolha feita por mim, sem que ninguém me manipulasse. Aos poucos eu estava conseguindo. O bipe no computador indicou a chegada de um e-mail, cliquei imediatamente, tendo certeza que era uma resposta ao que eu tinha mandado mais cedo.

Meus olhos passearam avidamente pelas letras, um endereço e um horário marcado para a segunda, desliguei o bluetooth e tirei o fone dos ouvidos. Uma ansiedade misturada com nervosismo, saí do quarto e caminhei para a cozinha, prendi a respiração quando percebi que a porta do quarto da minha irmã estava entreaberta. O quarto dela ainda estava do mesmo jeito — o lençol era trocado toda semana, o closet estava com todas as roupas dela, a escrivaninha cheia das canetas que ela costumava colecionar, mas o cheiro, isso tinha mudado. Eu podia sentir a falta dele, a falta de vida, acho que ela era a parte mais viva dessa casa, a energia que mais brilhava.

A garota que vinha algumas vezes na semana para fazer a limpeza saiu do quarto com o balde na mão e sorriu rapidamente para mim. Ainda me mantive em frente à porta, agora fechada, mas fui incapaz de entrar. Cheguei a tocar na maçaneta e desisti, voltando a seguir o meu caminho. Encontrei Naiá na sacada, era uma parte que eu gostava de ficar. O vento de fim de tarde era agradável, sentei na poltrona ao lado dela, espiando que livro ela estava lendo.

Orgulho e Preconceito de Jane Austen.

Sempre achei estranho esse fascínio que ela tinha por livros, em seus aniversários, levá-la para tomar um café numa livraria era o suficiente para mantê-la feliz por um bom tempo. Eu geralmente me encantava pelas capas, mas não passava da primeira linha, meu temperamento agitado nunca me permitiu sentar e ler, eu era mais fã de séries e filmes.

— Tenho a impressão que você está sempre na mesma página desse livro.

Ela me ignorou, e como se fosse uma ironia, a página foi virada e eu revirei os olhos.

— Vai sair para dançar hoje de novo?

A pergunta fez-me lembrar da noite e da minha vergonha, porque já tinha virado um hábito ficar esperando mensagens daquele homem, elas não chegavam. E isso soava como um aviso, de que as coisas estavam como deveriam estar, afinal eu não o conhecia. Sabia o que havia por fora, o que ele me mostrara nas poucas vezes que estivemos juntos, não era como saber quem ele era de verdade. Mas a curiosidade e a atração me traíam, se eu fechasse os olhos podia lembrar exatamente o som agradável que meu nome soava na boca dele. O cheiro ainda estava vivo, completamente marcado na minha memória, nos meus sentidos. E a curiosidade me espezinhava, a sensação de que o destino parecia brincar comigo, encher-me de pequenos acontecimentos inexplicáveis, tal qual o fato de eu ter pintado o rosto de Marcone sem nem ao menos tê-lo visto uma única vez.

— Tenho pesquisas para concluir, e preciso estudar a empresa em que vou na segunda-feira para não passar vergonha por não saber nada sobre ela.

— Isso, é exatamente isso que deve fazer. Caminhar com as próprias pernas. — Ela fechou o livro. Nós duas sabíamos o quanto meus pais iriam ficar irritados por isso, o combinado era que depois da formatura eu fosse para o exterior com Enzo e voltasse para assumir uma parte dos negócios da família, claro que ao lado do meu marido. Bufei mentalmente.

Ainda ficamos um tempo ali, enquanto Naiá me contava as fofocas do prédio e sobre os encontros que ela tinha com senhoras da mesma idade para jogar baralho, algo que eu achava um barato. Já tinha ido uma vez e, meu Deus do céu, as velhas eram terríveis.

No início da noite, Nina fez uma chamada vídeo contando sobre o encontro com Ben, fiquei atenta a cada vírgula, curiosa para saber o que tinha acontecido, e mais ainda para qualquer pista sobre o irmão dela, num momento da chamada eu escutei a voz dele, e vi parcialmente o corpo, quando ele beijou a cabeça de Nina e os dois trocaram algumas palavras.

— Estou falando com Cami, dê um “oi” para ela.

Então o rosto dele ficou totalmente focado na tela, estava realmente fardado, o simbolo da polícia federal estava bem visível no meu canto de visão. Os cabelos extremamente pretos estavam mais curtos nas laterais do que ontem.

— Oi, Camille. — Um sorriso provocador surgiu e eu mordi meu lábio, mil formas de responder passando pela minha cabeça.

— Oi. — Nunca um oi soou tão deprimente para mim.

— Você chegou bem ontem a noite?

— Sim — respondi, a cara de Nina apareceu atônita no visor.

— Estou indo trabalhar. — Ele acenou e não o vi mais, apenas o som de uma porta batendo.

— Ele trabalha em pleno sábado a essa hora?

— O que meu irmão quis dizer com — fez um sinal abrindo aspas com os dedos — “ Chegou bem a noite? ”

— Eu o encontrei por acaso num pub ontem a noite, Aline e eu saímos e foi legal. Ele estava com um amigo...

— Flávio? — inquiriu ela, uma expressão pensativa no semblante, olhando-me atentamente.

Assenti, recostando-me na cabeceira da cama, sem saber o que pensar por causa da forma interrogativa que ela ainda me olhava.

— Hum... — Foi o que ela disse por fim.

— Flávio inclusive me convidou a conhecer a empresa, ele disse que tem um programa muito bom de estágio.

Nina bateu palmas, animada, e depois me enviou dezenas de looks que printara no pinterest e que julgava ideal para uma entevista numa multinacional.