O Federal

Cris Araújo · Capítulo 61 de 63

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O Federal

Capítulo 60

 

Camille

 

Ele não me olhou nos olhos, enquanto beijava a minha testa, também não disse nada. As mãos alisaram meu cabelo e Marcone voltou a beijar minha cabeça e em seguida abraçou a irmã, ela estava chorando, algo que eu não conseguia fazer, era como se estivesse tudo trancado por dentro. Depois de dizer algo no ouvido dela, Nina sorriu um pouquinho e enxugou os olhos. Logo depois ele se dirigiu a mãe, ela não estava chorando, eu me perguntava de onde essa mulher tirava tanta força.

— Sua benção, minha mãe.

— Eu já enterrei seu pai, não quero enterrar você também. — Mara disse num tom baixo, mas eu ouvi, e a minha aflição só cresceu ainda mais. Os latidos de Bella só deixaram a situação ainda pior, o animal estava agitado, como se soubesse que ele ia viajar. Marcone assentiu, olhou uma última vez para mim e se abaixou para falar com o cachorro, afagando a cabeça grande. Afastou-se em direção ao carro em passadas largas, ele estava tenso, eu o conhecia.

Quanto mais meu marido se afastava, mais eu tinha a impressão de que não havia me despedido direito, a cada passo parecia que um pedaço do meu coração era cortado e levado junto com ele.

— Espera... — Não sei se meu tom foi alto ou um sussurro, mas Marcone olhou para trás, e eu corri, corri como se não houvesse muito tempo. Ele me enlaçou assim que me joguei em seus braços.

— Promete que você vai voltar para mim... — Foi um pedido ofegante, encostei os lábios nos dele.

— Sim, eu vou voltar logo.

— Eu te amo.

O que eu disse o fez sorrir, ele me beijou outra vez.

— Eu também, eu te amo muito. — Encostou a testa na minha e em seguida eu me afastei, deixando-o entrar no carro de onde Andrea observava tudo.

No momento em que o carro deixou de ser visto, foi como se meu coração tivesse ido junto com ele, e então as lágrimas, várias delas apareceram. Se algo acontecesse, se ele não voltasse, o sentido de muita coisa se perderia.

Todo o estresse dos últimos meses começou a me esmagar, eu quase tinha morrido, Nina tinha sido sequestrada, ele fora baleado mais de uma vez, era um mundo feio, e eu não queria passar o resto da minha vida com medo dele não voltar.

 

*

 

Os dias que se seguiram foram horríveis, Marcone e eu nos comunicávamos por ligações ou chamadas de vídeo, mas nada disso me tranquilizava. E para piorar, a cada vez que a tevê era ligada havia a notícia de que algum policial fora morto. Essas notícias sempre existiram, mas eu só tinha passado a prestar atenção nelas agora. Porque eu amava um policial, as coisas mudavam de significado quando era com um dos nossos. Mas a cada notícia dessas, eu só conseguia pensar nas esposas, nos filhos, nas mães. Mara era uma fortaleza, embora cada uma de suas rugas contasse uma história diferente e talvez dolorosa, ela em nenhum momento fraquejou ou mostrou a mesma aflição que eu.

— Mulheres são naturalmente fortes, Camille. — ela me dissera, quando passei mal na tarde anterior. — Homens precisam aprender com o tempo.

A tontura foi tão forte que cheguei a cogitar estar grávida, mas o teste de farmácia apontou que não. Não ficaria surpresa, embora eu não desejasse engravidar agora, mas Marcone e eu nunca fomos completamente cuidadosos quanto a evitar que isso acontecesse.

Observei as estrelas pela janela do nosso quarto, perguntando-me se ele as via da mesma forma que eu estava vendo agora, se no país em que meu marido estava era noite ou dia. E quando ele voltaria.

Ouvi um ruído e vi Nina colocar a cabeça para dentro, sorri para ela, incentivando-a a entrar.

— Mamãe está chamando você, já passou muito tempo aqui sozinha.

Durante o dia, eu perambulava pela casa ou montava a cavalo, mas quando a tarde ia chegando ao fim tudo ia ficando pior, principalmente quando não havia ligações dele, a impressão que eu tinha era a de que algo ruim havia acontecido.

Mara estava sentada na cama grande, com alguns álbuns sobre a cama, na mesinha ao lado, notei as três canecas de chocolate quente.

— Marco disse que você gosta de chocolate. — Nina pulou na cama da mãe, e eu fiquei feliz que sua habitual tagarelice tivesse voltado.

Sentei na cama e aceitei a xícara, sendo atraída por um álbum grande de fotos, a maioria delas desgastada pelo tempo, mas ainda assim visíveis.

— Olha como eu era bebê. — Nina passou algumas páginas e virou para que eu visse.

— Você era linda e gordinha.

Passamos muito tempo tomando chocolate e vendo fotos antigas, com as conversas eu fui descobrindo a origem dessa família que agora também era minha. Mara me tratava como filha, numa naturalidade tão grande que era como se eu morasse aqui há muito tempo. Em uma das tardes em que fiquei trancada no quarto minha sogra me convidou para ir a fábrica com ela e Nina.

— Você é advogada, não é? — inquiriu, enquanto entrávamos no andar em que ficava sua sala, Celine estava lá. Ela estreitou um pouco os olhos, como se não esperasse me ver ali.

— Sim.

— Acho que você pode me ajudar com alguns contratos, então.

Segui-a, olhando ao redor. Eu tinha vindo poucas vezes aqui com Marcone, desde que viemos para cá. Mas olhando tudo agora, eu senti uma admiração ainda maior por minha sogra. A forma como ela tinha assumido o lugar do marido, como lutava para não deixar que o legado dele se perdesse.

Eu queria ser forte como ela era.

Passei a acompanhá-la todos os dias até lá, e as conversas que mais escutava era sobre as mães que trabalhavam na produção de queijos e que às vezes não tinham com quem deixar os filhos no período em que eles não estavam no colégio.

— Tia. — Abri ligeiramente a porta, notando a expressão preocupada que Mara fazia.

Observei as notícias que estavam passando. Ele estava se expondo demais, quase todas as vezes em que algo foi mencionado nos jornais com relação a operação que a polícia federal e a interpol brasileira estavam lidando junto com a polícia de outros países, o nome de Marcone foi citado, em alguns momentos ele também aparecia, ás vezes junto com Andrea, em outros sozinho. Eu não conseguia entender por que tanta exposição, se era tudo que não queríamos.

— Entre, querida.

— Ele não entrou em contato hoje também — lamentei e me sentei na cama. A mãe do meu marido sorriu, pude ver traços semelhantes aos dele.

— Meu filho nunca fez escolhas tolas, ele deve saber o que está fazendo.

Conversar com ela sempre me acalmava de alguma forma, coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha, lembrando-me do porque estava ali.

— Eu acabei ouvindo algumas conversas sobre os filhos das mulheres que trabalham na fábrica.

Mara assentiu, incentivando-me a continuar.

— Eu poderia dar aulas de pintura nos horários em que as crianças ficam dispersas. Sem custo algum.

Ela sorriu, animada.

— Do que precisaria?

— Um lugar para reunir as crianças, tintas, telas...

— Faça uma lista. — disse ela, com evidente orgulho. — É uma excelente ideia. Lugar temos de sobra aqui.

Trabalhamos por uma semana nisso, entre arrumar o lugar. Nina me ajudou muito nisso e no cadastro de todas as crianças que fariam as aulas, tendo o cuidado de especificar os horários. Fiquei assustada quando percebi que era um número muito maior do que estava habituada no projeto. Foi montada uma cabana branca, rústica numa área da fazenda. Ali seria seguro para mim e para as crianças e não seria dificultoso para os pais irem buscá-las no final do dia ou das manhãs.

O primeiro dia foi o mais difícil, quase não pintamos. Passei a maior parte do tempo conversando e descobrindo quem eles eram, a sala cheia fez-me lembrar de Isabelle. Pensar nela me fez sentir ainda mais orgulho do meu marido, pelas conversas que eu tive com o pai da menina havia alguma esperança para ela, pensar que Marcone estava pagando o tratamento, mesmo depois de ter certeza que Afonso esteve envolvido com o rapto de Nina, ainda que indiretamente, só me fazia ver o quanto ele era humano. E o quanto eu era sortuda também.

Naquela noite, depois de dias sem contato, ele fez uma chamada de vídeo. Parecia que anos tinham se passado desde que ele saíra daqui.

— Quando você vai voltar? — era a pergunta que eu mais fazia nessas chamadas.

— Logo. Estamos quase no final. — ele aproximou-se da tela, como se pudesse me tocar ou estar aqui se chegasse mais perto. — Como você está, meu amor?

— Com saudades — admiti. — Contando as horas para que você volte logo. — Toquei seu rosto na tela, desejando sentir realmente a textura da sua pele.

— Não vai demorar mais. — garantiu ele, sorrindo, as covinhas lindas aparecendo.

— Eu te amo. — beijei a ponta dos meus dedos e toquei a tela.

— Eu também.