O Federal
Capítulo 29
Marcone
Encarei a lápide, ainda digerindo a morte dele, o afogamento
aconteceu porque ele estava bêbado. A bebida fora consumida por ele desde o momento em que meu ex-sogro recebera a notícia da morte de Sam, um vício que costumava tirá-lo do ar. Dei dois passos e parei diante da lápide dela, o nome estava gravado no mármore escuro com letras elegantes e douradas, onde algumas folhas secas eram deixadas pelo vento.
Samanta Rissol.
Abaixei-me e coloquei a rosa vermelha, o sentimento de pesar era gigantesco, parecia sufocar.
— Você quer ficar sozinho? — Andrea perguntou, a voz estava afetada, ela com certeza não queria mais ficar ali.
— Sim. — Ouvi o som das folhas sendo pisadas, enquanto ela se afastava.
Olhei ao redor, o lugar era realmente bonito, embora não me transmitisse paz alguma, pelo contrário, eu imaginava todas as histórias inacabadas que estavam enterradas ali. Todos os amores perdidos, a felicidade e os sonhos que iam para debaixo da terra junto com os mortos. Não sabia exatamente o que dizer ou como me expressar, mas no meu íntimo eu tinha necessidade de explicar, não pela primeira vez, como eu gostaria que as coisas tivessem sido diferentes. Para mim e para ela.
— Eu faria qualquer coisa para ver você só mais uma vez. — A culpa misturada com a dor já conhecida fez um trabalho impecável de me desestabilizar, numa intesidade menor do que geralmente acontecia quando eu vinha aqui, mas ainda assim penosa. — Só queria saber se existe alguma possibilidade de você estar feliz, Sam... — Eu realmente gostaria de ter certeza disso, seria muito mais fácil se soubéssemos o que acontecia depois.
A noite tinha sido absurdamente ruim, saí do apartamento num estado deplorável, e quando recebi uma ligação de Camille percebi que o mal estar ia além da dor antiga, outro tipo de culpa vinha se acumulando dentro de mim desde que coloquei os olhos nessa menina. A culpa por estar seguindo em frente, por estar construindo novas lembranças, por estar amando outro cheiro, outro beijo, por pensar nela o tempo todo. O passado e o presente estavam me pressionando, obrigando-me a escolher: permanecer preso ao passado ou dar um passo a frente e viver o presente, todas as emoções conflitantes que estavam me rodeando desde que cheguei aqui me deixavam num humor deprimente.
Meu peito estava pesado de um jeito fora do comum. Impedindo-me de respirar normalmente, numa angústia sem fim.
— Eu não quero mais sentir culpa por estar feliz. — lamentei baixinho, esperando que ela ouvisse, onde quer que estivesse. Que o vínculo que sempre tivemos fosse forte o suficiente para isso. — Se eu pudesse fazer qualquer coisa para mudar o que aconteceu, eu faria. Eu faria qualquer coisa. — repeti, veementemente. Fiz uma pausa, tentando controlar o turbilhão de emoções. — Eu te amo, Sam. Acho que o amor ganha a imortalidade no nosso caso.
Meus olhos arderam por causa do que iria contar.
— Eu conheci alguém... — Aos poucos minha respiração foi voltando ao normal. — Ela é... especial. — Sentei na grama meio úmida por causa da chuva do dia anterior. — Preciosa.
*
O táxi parou em frente a mansão que Estevan vivera junto com Samanta desde que ela era uma criança, a mãe de Sam morreu, enquanto ela ainda era pequena. O turbilhão de sensações ruins, junto com as lembranças que eu amava vieram em cheio quando o portão branco foi aberto e eu vi o jardim que minha noiva cuidou, mesmo depois de se mudar para o meu apartamento. Bloqueei todos os pensamentos, uma habilidade que era capaz de me livrar de muitos conflitos internos e saí do táxi. Perguntei-me porque Estevan nunca havia me contado sobre não ter vendido essa casa, talvez pelo mesmo motivo em que eu ainda mantinha o apartamento.
A antiga governanta abriu a porta para mim e Andrea, e me abraçou em prantos assim que me reconheceu, isso durou alguns bons minutos, antes dela se afastar enxugando os olhos com o antebraço.
— Tudo bem, Amália. — Pousei a mão em seu ombro, tentando confortá-la.
Após alguns minutos, lamentando a morte do patrão e repetindo não acreditar no que tinha acontecido, ela indicou onde a advogada estava. Andrea a seguiu, eu permaneci ali.
Caminhei em voltas pela sala e parei diante da janela imensa de vidro, lembrando-me da conversa que Estevan e eu tivemos alguns anos atrás, num momento em que compartilhávamos da mesma dor. Não fazia ideia se era pior para mim ou para ele, mas de alguma forma eu tive força e incentivo para continuar de pé.
Estevan não.
Anos atrás
— Estão todos mortos. — disse eu, olhando as costas magras do
homem que um dia foi robusto e cheio de vida.
— Se sente melhor, filho?
A pergunta me fez ofegar, embora visivelmente abatido, ele me deu colo muitas vezes, eu precisei, nós precisamos.
— Ela não vai voltar.
Depois de tudo que havia passado nos últimos meses, a constatação daquela maldita verdade me desorientou.
Ela não voltaria nunca mais.
— Precisamos de você. — A voz de Andrea me tirou das lembranças.
Passei as mãos pelo cabelo, nervoso, e a segui. Não prestei realmente atenção na mulher que estava junto com Andrea no escritório, eu nunca a tinha visto antes.
A primeira coisa que recebi foi uma carta, ele deixara uma para mim e outra para Andrea, isso só me fazia pensar que talvez Estevan quisesse mesmo morrer.
— Há quanto tempo ele fez o testamento? — interrompi o que ela estava explicando a Andrea e a encarei.
— Faz quase um ano. — respondeu ela.
Assenti.
O que a advogada leu a seguir deixou tanto a mim quanto a Andrea boquiabertos. Ele havia deixado setenta por cento de todos os bens para mim, vinte para ela e dez para Amália.
— Estevan foi muito generoso com vocês. Ele sempre foi muito reservado e os últimos anos, vocês três eram os únicos que ele mantinha contato.
Apertei o envelope entre os dedos, decidindo se eu queria mesmo saber o que havia escrito ali.
— Ele parece ter planejado tudo. — Andrea sentou-se numa das poltronas, quando ficamos sozinhos.
Em silêncio, eu abri o envelope e tirei o papel de lá. Fique pasmo ao perceber que era uma carta mesmo, escrita a mão.
Não pense que foi planejado, eu tenho vivido bem os últimos
dias. Conheci um lado da vida que não sabia que existia, e vivi
satisfeito até agora.
Um dia, todos nós iremos partir, acho que chegou a minha vez.
Não tenho muito o que dizer, filho. Mas não faça como eu, não
deixe a vida escorrer pelos seus dedos.
Use o dinheiro para construir uma vida longe da violência.
Eu espero que você possa se apaixonar de novo, se sentir
jovem outra vez. Fazer alguma garota feliz, como fez a minha
filha, enquanto ela ainda respirava.
Apenas, seja feliz.
Tenho certeza que é isso o que Sam diria a você se ela
pudesse.
Adeus, filho.
Dobrei o papel e o coloquei de volta ao envelope, engolindo o bolo imenso que se formou na minha garganta.
Construir uma vida longe da violência.
— Eu vou parar, Andrea. — Encarei os seus olhos úmidos. — Eu já devia ter parado.
Ela dobrou o papel e o guardou, como eu fiz e enxugou o os olhos.
— Quando terminarmos esse caso, eu vou parar.
Foi a mesma frase que eu disse a Samanta no passado.
— Você faz bem. — A voz foi um sussurro cansado.
Amália entrou trazendo café e alguns biscoitos, mas nada daquilo me atraiu. O meu sangue parecia estar correndo mais rápido do que o normal, a mente não parou por um minuto sequer. Naquela tarde, eu voltei ao cemitério para deixar minha aliança e dizer adeus aos dois, não foi fácil, por mais tolo que isso parecesse. Não foi fácil.
*
Consultei o relógio, enquanto observava pela janela o pouso do avião, eu ainda tinha algumas horas antes de vê-la.
— Não vejo a hora de chegar em casa. — Andrea retrucou, endireitando-se para levantar.
— Eu também. — Entre outras coisas.
Daspedi-me dela e passei numa joalheria antes de ir para casa, encontrei o apartamento vazio. Havia um traje sobre a minha cama e um bilhete, reconheci de imediato a letra de Nina.
Se você não vestir isso, eu vou matar você!
Tão carinhosa.
Era um smoking, eu não fazia ideia de como colocar esse tipo de gravata. Olhei para o traje, e me peguei imaginando como Camille estaria vestida e se tinha sentido minha falta como eu senti a sua, tirei a caixinha do bolso, perguntando-me se ela gostaria do presente.