O Federal
Capítulo 43
Marcone
O tiro acertou em cheio a parede do prédio, e uma raiva
irracional tomou conta de cada sentido meu, antes que ele pudesse pensar já estava no chão outra vez, dessa vez eu tinha a arma apontada em sua testa, a mão livre apertava tão forte seu pescoço que os olhos do desgraçado pareciam que iam sair para fora, eu queria que as marcas ficassem ali da mesma forma que estavam no pescoço dela.
A vontade que eu tinha era apertar o gatilho, descarregar todas as balas nele, livrar o mundo de mais um infeliz, mas não na frente dela, todavia Enzo não sairia dali sem marcas. Não depois de encher essa menina de cicatrizes na alma, ele também ganharia uma ou mais.
— Eu deveria te matar agora. — grunhi e os seus olhos ficaram ainda mais arregalados, o dedo chegou a pesar toneladas dada a vontade que sentia de acabar de uma vez com o infeliz. — Se você encostar nela de novo, você está escutando, porra? — Ele balançou a cabeça afirmativamente com veemência, a cara dele me enchia de repulsa e raiva. — Não chegue perto dela de novo ou eu vou te matar.
Mirei a arma na mão que ele tinha usado para machucá-la.
— Não, cara. — Ainda foi capaz de gemer.
— O que você disse?
Atirei, e os gritos dele de dor não causaram nenhum tipo de compaixão em mim, muito pelo contrário, ele merecia mais. Retirei as balas da arma metodicamente e joguei perto dele descarregada, tirei meu celular do bolso e liguei para Andrea.
*
Aproximei-me dela com cautela, temendo que talvez Camille quisese se afastar com medo de mim. Os lábios dela tremiam muito e eu lamentei que tivesse vivido por tanto tempo esse tipo de trauma, não queria que ela me associasse a violência ou ao infeliz que ainda estava gemendo no chão.
— Nós precisamos ir a uma delegacia agora. — Ela olhou para Enzo e depois baixou a cabeça.
Temi que dissesse que não, mas Camille deu um meneio afirmativo com a cabeça, quase imperceptível. Guardei as balas no bolso e com a mão limpa toquei levemente o ombro dela, levei-a até o carro e esperei do lado de fora até que a viatura chegasse para levar o miserável. Andrea já nos esperava quando chegamos a delegacia, e eu estava nervoso e frustrado, Camille não havia dito nada, sequer uma palavra, estava quieta, calada, só chorava em alguns momentos, ainda assim sem fazer barulho, como se tivesse repetido isso por muito tempo. Sentir dor calada. Não contar nada a ninguém.
A primeira coisa que Andrea olhou quando chegamos foi para a minha mão, lançou-me um olhar de censura.
— Você precisa contar o que aconteceu a delegada, Camille. — disse num tom razoável e preocupado. — Ela já está esperando por você.
Na sala, a delegada indicou uma cadeira para que Camille sentasse, permaneci em pé. Conforme ela ia dizendo o que tinha acontecido, eu me arrependia um pouco mais de não ter acabado com o filho da puta ali mesmo quando tive chance. E eu sabia que me arrependeria de não ter feito exatamente isso. Em seguida fomos ao IML, onde ela faria uma série de exames que comprovaria as agressões.
— O que você fez com ele? — Andrea perguntou, enquanto esperávamos do lado de fora do consultório.
Eu já havia lavado minhas mãos no banheiro masculino, assim que Camille entrara na sala.
— Ele está vivo, Andrea.
O suspiro de alívio que ela deu me deixou com raiva.
— E o sangue?
Eu a encarei, irritado, nervoso e com medo do que talvez Camille estivesse pensando de mim. Talvez me achasse igual ao ex.
— Ele atiraria em nós dois, Andrea.
Ela meneou a cabeça negativamente.
— Não quero que acabe machucado. — Ela me olhou com a cumplicidade que nós tínhamos há muitos anos.
Antes que eu pudesse dizer algo, a legista colocou a cabeça para fora e eu imaginei que fosse a mim quem ela estava chamando, todavia a mulher fez um gesto para Andrea. Ela entrou e saiu uns minutos depois com um pouco de pesar e preocupação.
— Ela quer que eu a leve para casa.
Olhei instintivamente para a porta e depois fitei Andrea, pensando o pior, é claro.
— Ela está com medo de mim?
Andrea quase sorriu, mas meneou a cabeça negativamente ficando séria novamente.
— Ela está com vergonha, Marcone. Ela mal consegue me olhar de frente. — Cruzou os braços e para minha surpresa os olhos dela ficaram cheios de lágrimas, mas ela os enxugou antes e se recompôs, como já era acostumada a fazer. — Ela é uma menina muito machucada, principalmente por dentro.
Eu sabia, porra. E era justamente por isso que eu queria, precisava, aliás, cuidar dela.
— Vá esfriar a cabeça. — O celular dela tocou e enquanto trocava algumas palavras com quem quer que estivesse na outra linha ela pareceu ainda mais preocupada.
— O que foi? — perguntei.
— A mãe dele já pagou a fiança. O advogado apresentou o porte de armas que ele tem, e Enzo nem chegou a ir para a cela. Está no hospital em cirurgia. — Ela colocou a mão sobre o meu ombro, tentando me confortar de alguma forma. — Ela vai precisar de um bom advogado. Vou cuidar dela, não se preocupe.
Como se fosse possível eu deixar de me preocupar, ela estava ferida, machucada e não me queria por perto. Não era o fim de noite que eu havia planejado. Do meu carro, vi o momento em que Andrea a ajudou a entrar no veículo e deu partida, segui as duas a distância, embora eu soubesse que em algum momento Andrea tivesse percebido.
Fiquei surpreso quando percebi que ela estava dirigindo para o próprio endereço e não para a casa de Camille, vi o momento em que as duas entraram, meu coração ficou apertado e agoniado em ver como Camille parecia triste, desolada e machucada. Perguntava-me como o filho da puta tinha coragem de machucá-la daquele jeito, tocar em algo tão precioso para ferir e não dar carinho. Encostei a testa no volante sem paciência alguma, e decidi ir embora, girei a chave na ignição e dei a partida no carro, dirigi mais devagar do que normalmente faria. Minha mente não parava, o rosto dela aparecia o tempo inteiro, ora perfeito e lindo como era, ora machucado e escoriado, a combinação não tinha um efeito bom. Tudo que eu sentia vontade era de ir atrás do desgraçado e machucá-lo lenta e dolorosamente, de uma forma que ele nunca esquecesse. Mas não foi o que fiz, voltei para o meu apartamento e encontrei Bella, era uma surpresa para Camille, todavia ela não estava aqui agora. Até mesmo o animal ficou triste quando percebeu que eu estava sozinho, de modo carinhoso ela colocou a cabeça na minha coxa, quando me sentei no sofá e fechei os olhos.
— Está sentindo falta dela, não é? — Acariciei o pelo macio e Bella ronronou, como se me entendesse.
E ela entendia, não conhecia um animal mais sensível que os cães.
Pensando nela, acendi o bloqueio de tela no celular para ver a foto que Camille mesmo tinha colocado ali — era uma fotografia nossa de quando tínhamos acabado de acordar, era incrível como ela parecia luminosa pela manhã. Detestei a sensação de inutilidade que sentia naquele momento. Desbloqueei a tela e acessei o aplicativo de mensagens no contato de Camille. No perfil dela também era uma foto nossa, a mesma que ela tinha colocado no meu. Revi algumas fotos dela e enviei uma mensagem solitária, mas não chegou.
Caminhei para o meu escritório e tirei a pasta que Andrea havia me dado e que eu desistira de olhar mais de uma vez para não invadir sua privacidade. Abri a pasta e tirei de lá o dossiê — nome, idade, altura, endereço, rotina, tudo ali. O nome do desgraçado já estava como ex-noivo, o que me fez voltar ao acidente dela. O mau pressentimento ligando novamente a tragédia ao desgraçado: ela havia lembrado que estivera com ele no dia, a irmã dela o odiava, o rosto dela estava machucado, sinal de agressão e ele desaparecera logo em seguida.
Encarei por bastante tempo a foto dele, um monstro civilizado. A sociedade estava cheia deles.
Camille
— Você precisa parar de chorar. — Andrea disse pela terceira vez, ou quarta, eu já tinha perdido a conta. — Não sei o que dizer quando alguém está chorando. — continuou ela baixinho, porém exasperada. — Então não chore...
— Ele disse que vai matar Marcone, Nina e depois vai me levar para um lugar onde ninguém nunca vai nos achar. — contei, sentindo uma angústia ainda maior repetir o que ele havia dito, depois de ver Enzo apontando aquela arma para nós, eu tive certeza que o que ele dissera era real.
Ele teria atirado.
— Ninguém vai machucar você, não vamos deixar.
Eu a olhei, querendo acreditar nela.
— Eu trouxe essa confusão para a vida dele, se Enzo tivesse atirado... se ele estivesse baleado agora por minha causa... eu não me perdoaria jamais.
— Mas não aconteceu, Marcone está inteiro e preocupado com você, magoado porque você não quis vê-lo. — Ela tirou o óculos de grau e só então eu percebi que seus olhos eram azuis. — Ele acha que você está com medo dele.
Relembrei o momento em que ele bateu em Enzo, o único sentimento que tive foi de vingança. Eu me senti de certa forma vingada e o que me assustou foi exatamente a minha falta de compaixão.
— Eu não tenho medo dele, ele nunca me faria mal. — Enxuguei os olhos com as costas das mãos e olhei para ela, disposta a dizer o que eu pensei por todo o caminho em que fizemos para esse apartamento. — Eu vou terminar com ele, vou me afastar, e vou sair do país.
— E isso vai ser melhor para quem? — inquiriu ela, depois de um tempo. — Para Enzo?
— Para todos.
Ela colocou os óculos e se levantou, foi até uma escrivaninha e trouxe de lá o notebook branco.
— Eu vou mostrar uma coisa a você, quero que preste muita atenção e depois você decide o que quer fazer. — Ela ligou o aparelho e entrou em algum site desconhecido, rolou a página e depois virou a tela de modo que eu visse o conteúdo. Eram várias fotos de mulheres, a maioria jovens. — Todas elas estão mortas. — Ela foi rolando a página e vários rostos femininos continuaram a aparecer, loiras, morenas, pretas, ruivas, jovens, de meia idade, senhoras. — Elas foram mortas pelo namorado, marido, ex-marido, ex-namorado, noivo, ex-noivo.
Conforme eu ia lendo as legendas na foto ficava mais difícil respirar.
— Marta é uma estatística. Amanda é uma estatística, Soraia é uma estatística. As mulheres que são mortas viram isso, uma estatística.
— Para. — pedi, trazendo a situação para a minha realidade, quantas vezes eu realmente não achei que fosse morrer e mesmo assim o perdoei depois, achava que ia mudar, que eu realmente não facilitava as coisas.
— Você é uma advogada formada, Camille. Sabe os direitos que tem, faz parte de uma minoria, você tem direitos e leis que te protegem. Estudou isso, não estudou?
— Sim, eu estudei.
— Então está na hora de você usar o que sabe para resolver os seus problemas, se Marcone não tivesse aparecido ou se você estivesse realmente sozinha, qual seria o final da história?
Eu estaria morta ou em algum lugar com ele. Enzo me mataria, eu vi com meus próprios o olhos o prazer que ele estava sentindo quando apertou meu pescoço, foi um prazer perverso, tal qual ele demonstrava todas as vezes em que me bateu.
— Não vai mudar nada se você for para outro país ou outro planeta, se ele for louco como eu imagino, ele irá atrás de você. — Ela suspirou. — Não machuque o meu amigo, nós nos tornaríamos inimigas se você fizesse isso.
— Você gosta dele? — perguntei, porque eu desconfiava desde o início. E isso não saia hora nenhuma da minha cabeça, os dois pareciam ser íntimos demais e isso me incomodava de várias formas.
Ela me olhou, primeiro sem entender e depois com um pouco de humor.
— Claro que eu gosto, que tipo de pergunta é essa?
— Você entendeu a pergunta.
Ela ficou mais séria, e arrumou o lençol que já estava impecável.
— Eu estive com Marcone em todos os momentos marcantes da vida dele, desde os mais felizes aos mais violentos, nós protegemos um ao outro, nós amamos um ao outro. — Ela olhou para a porta do quarto, talvez relembrando algo. — Eu o vi sofrer por anos por algo que não foi culpa dele, e ver o que ele está construindo com você agora é surreal, eu duvidei que isso fosse acontecer um dia.
Engoli em seco, ela estava sendo realmente sincera.
— Então não estrague o que vocês têm. — Dessa vez ela me olhou. — Não jogue fora e não o machuque.
— Mas é justamente por isso que quero deixá-lo para não machucá-lo. — Eu não conseguia entender porque as coisas precisavam ser tão difíceis para mim. — Enzo sabe quem Nina é, sabe onde Marcone mora, nos seguiu por dias. Podia ter nos matado ou mandado alguém nos matar.
O rosto dela endureceu, e ela ficou com o mesmo ar sombrio que as vezes eu via em Marcone.
— Quando minha melhor amiga morreu, destroçada dentro do carro do homem que ela amava, eu entendi que as coisas simplesmente acontecem. — Ela sussurrou com calma. — Nós não temos controle, a vida força as situações e nós temos que superá-las. — Olhou diretamente nos meus olhos e um sorriso mórbido e repentino surgiu. — Existe uma coisa chamada legítima defesa, ela, às vezes, é mais justa que as leis.