O Federal
Capítulo 58
Camille
Ao contrário dos outros dias, um sol tímido tocava as minhas
pernas. Após a fisioterapia geralmente Marcone me colocava numa parte do jardim em que o sol estivesse mais quente, e quando estava chovendo ficávamos sentados no sofá longo, observando a natureza.
— Que tal tomar banho e vestir algo mais quente? Vai esfriar. — ele disse baixinho, beijando a parte tatuada da minha nuca.
— Hum... — ronronei com preguiça.
Tinha se passado quase um mês, passei todos os dias inteirinhos com ele, só não estava perfeito porque eu ainda não estava totalmente recuperada. No início foi assustador, parecia que o corpo não era meu. Que as pernas não eram minhas, e que eu nunca mais ficaria normal novamente. Alexandre e Marcone me pediam calma, mas eu sentia que ele também tinha medo que fosse irreversível. Aos poucos todos os movimentos foram voltando, o meu cérebro e os meus músculos voltaram a ter sincronia. Todavia, ainda não era absolutamente normal, sentia muitas dores nas costas, principalmente quando ficava muito tempo numa mesma posição.
Saímos dali quando realmente esfriou, como em todos os dias, ele me pegou no colo para subir as escadas até nosso quarto.
Nosso.
No início soava estranho, nós viemos para a fazenda quando Alexandre me liberou para viajar, segundo ele não haveria riscos, a essa altura eu já estava realmente melhor. Não fui eu a pedir para vir para cá, ficaria em qualquer lugar com ele.
Marcone ficou muito perturbado, principalmente nos primeiros dias em que acordei sem os movimentos dos membros inferiores, tudo o deixava nervoso, minhas dores, a minha falta de sono ou sono em excesso. Tudo o amedrontava, como se minha vida fosse escapar entre seus dedos. Eu o entendia, se fosse o contrário teria enlouquecido.
Beijei seu pescoço, sentindo-me em casa.
Na minha casa.
— Eu te amo. — disse baixinho, quando chegamos ao último degrau.
Ele me colocou no chão e me beijou, até seus beijos eram cuidadosos.
Como se eu fosse completamente quebrável.
— Eu também, meu amor.
Beijou-me outra vez e segurou algumas mechas do meu cabelo, exteriorizando o fascínio que tinha por eles.
Tomamos um banho juntos e ao invés de ir procurar algo para vestir ele sentou na cama, com a toalha enrolada nos quadris. Fui até meu lado do closet recém projetado ali e fiquei com a respiração suspensa quando encontrei uma caixinha vermelha ali, minha boca abriu algumas vezes, meus dedos avançaram para pegá-la e recuaram várias vezes.
— É seu. — ele soou atrás de mim, e eu mordi meu próprio lábio, enquanto meus dedos finalmente tocaram a caixinha de veludo com o nome Chopard. Abri devagar, mas estava vazia.
Temi me voltar para olhá-lo, eu sabia que Marcone estava atrás de mim.
— Eu preciso te dar o que estava na caixa. — A voz dele soou aveludada, como se eu precisava de incentivos a me apaixonar mais.
Senti o esquentar gradativo da minha bochecha até o meu pescoço, um frio na barriga como se fosse um primeiro encontro, como se não tivéssemos vivido tantas coisa. Virei-me e o vi ajoelhado, ainda enrolado na toalha, mas eu tinha certeza que nunca veria uma cena tão linda quanto essa. Havia outra caixinha em sua mão, aberta. As lágrimas me impediram de ver o que realmente estava lá dentro.
— Estou suando... — disse baixinho, talvez achando que eu não fosse ouvir. — Eu te amo, Camille.
Sim, eu sabia. Sentia tal qual o vento que entrava pela janela aberta e tocava a minha pele. Enxuguei os olhos e enfiei os dedos pelos seus cabelos úmidos, e fartos, não me lembrava de em algum momento desde que nos conhecemos vê-los tão grandes. Apenas sussurrei que também o amava. Sentia-me como se tivesse nascido para isso.
Amá-lo.
Ser dele.
— Eu quero viver cada fase com você. — Minha mão foi beijada. — Namoro, noivado, casamento, filhos. Quero que seja minha para sempre, basta você querer também. E se você disser sim, eu prometo que vou tentar ser o melhor homem para você, o melhor amante, o melhor amigo, o melhor marido, o melhor pai para nossos filhos. — A essa altura, eu já tinha dito sim mais de uma vez, mas ele não parou de falar. E eu sabia, ele seria o melhor em tudo.
Marcone já era o melhor para mim.
O melhor homem. O melhor amante. O melhor marido.
Ele já era era o melhor que eu poderia encontrar.
Três semanas depois
Camille
Encarei-me no espelho antigo da suíte de Mara — observando o
resultado de horas sentada, permitindo que várias pessoas cuidassem do meu cabelo e da minha pele. Eu tinha imaginado meu casamento várias vezes, quase todas as garotas sonhavam com esse dia. Eu sonhei. Sonhei com o vestido, com a decoração, mas nunca realmente imaginei como seria.
Com os pés ainda descalços, fui até a janela enorme, esquecendo-me das outras pessoas que estavam ali comigo. Eu só queria ter certeza que era real. Reprimi a vontade de chorar, pela talvez, milésima vez hoje. A tenda branca cheia de flores estava mais linda do que imaginei, o tapete vermelho, os castiçais.
Tudo exatamente como imaginei.
Voltei para frente do espelho, e toquei o meu lábio inferior com o dedo indicador, lembrando o beijo que Marcone havia roubado mais cedo, quando eu ainda estava com os cabelos cheios de bobes e utensílios para cacheá-los, as garotas quase tiveram um surto e eu também.
Olhei o anel de noivado. A pedra grande de brilhante, rodeada por outras bem pequenininhas. Ainda lembrava do pedido, do que ele me disse, das nossas lágrimas, do amor que compartilhamos. Logo teria a aliança a lhe fazer companhia e sorri, era o que mais vinha fazendo desde que ele me pediu em casamento. Sorrir, até mesmo minha recuperação se acelerou.
O sofrimento podia destruir uma pessoa e a felicidade podia reconstruí-la.
— Camille. — Ouvi a voz de Nina, e pelo reflexo do espelho vi meus pais ao seu lado.
Não os via desde que foram me visitar no hospital, mas geralmente eles ligavam para mim ou para Mara. Meu pai estava respondendo um processo por sonegação de impostos, pelo que eu ouvia pela tevê a multa era milionária, embora eu não tivesse perguntado e Marcone também não tivesse dito, eu sabia que ele estava por trás disso.
Não conseguia perdoá-los, também não me sentia na obrigação de fazer isso. Todavia era o dia mais feliz da minha vida, e eu não queria que nada estragasse.
— Você está linda, filha. — Joice sussurrou, parecendo emocionada.
Como se não soubesse exatamente o que dizer, meu pai olhou para o meu pescoço vazio e retirou uma caixa retangular do bolso, em seguida a abriu, mostrando um colar cheio de pedrinhas.
— Eu gostaria que usasse, seria seu de qualquer forma. — Com cuidado, ele tirou a joia da caixa e abriu o fecho, esperando que eu me virasse para colocar no meu pescoço.
Hesitei, por um momento, mas permiti que ele fizesse, foi inevitável não sorrir com o resultado. Parecia que o colar era o complemento que faltava à maquiagem e ao penteado.
— Eu gostaria de levar você ao altar.
Permaneci estática olhando-o pelo reflexo do espelho. Já tinha planejado entrar sozinha, embora eles soubessem do casamento, nunca os tratei mal, mas não era como se eu os quisesse me magoando de novo.
Marcone
Quando a música começou a tocar, eu prendi a respiração.
Primeiro vi Augusto e depois toda a minha vida entrou no meu campo de visão. O vestido branco e cheio de pérolas davam a ela uma beleza quase sobrenatural, os cabelos estavam parcialmente presos por uma pequena coroa que brilhava conforme os raios de sol tocavam-na, por um minuto fiquei sem saber se ela era real ou a visão de um dos melhores sonhos que eu provavelmente teria na vida. A reação do meu corpo ao vê-la sorrir me deu certeza que eu estava muito acordado, a cada passo que ela dava, o meu amor parecia crescer mais, Camille não desviou os olhos do meu rosto por um segundo sequer, parecia estar dentro do mesmo encantamento que eu. Como se apenas nós dois estivéssemos ali.
Aproveitei que o caminho enfeitado com flores e tecidos delicados era longo, para registrar todos os detalhes daquele momento.
A expressão que ela me olhava.
A forma como o vestido de noiva a deixava delicada e ao mesmo tempo sensual, uma característica natural. Algo que ela não se esforçava muito para ser.
O sorriso que estava em seus lábios, como se ela fosse a mulher mais feliz do mundo, e eu esperasse que fosse exatamente isso. Porque tinha certeza de que eu era o homem mais feliz e sortudo do mundo.
Foi difícil afastar os olhos dela quando a cerimônia começou
Augusto me disse algumas palavras, mas eu não ouvi, não consegui tirar os olhos dela, de cada parte perfeita que era ela.
Enquanto a cerimônia acontecia, eu pude reviver todos os nossos momentos, cada um deles, inclusive os ruins.
Se era o destino ou não, nunca saberíamos, mas era como se essa garota realmente fosse feita para mim, como se nossos traços e nossas cicatrizes se completassem de alguma forma.
Camille
Marcone me colocou no chão apenas quando já estávamos dentro da suíte, não sei como ele conseguiu, afinal eu ainda estava vestida de noiva. Mas, como nas cenas mais clichês de filmes românticos que envolviam casamentos e lua de mel, ele me carregou nos braços até o nosso destino final. Nunca parei para pesquisar de onde vinha essa tradição ou se de fato era realmente uma tradição. Contudo, adorei cada minuto.
Os dedos dele tocaram os botões arredondados que mantinham a parte de trás do vestido fechada.
— Sempre fantasiei isso. — Devagar, de modo que fiquei toda arrepiada, ele começou a tirar alguns grampos que prendiam parte do meu cabelo, os cachos foram caindo pelos meus ombros e braços, queria ver seu rosto, encarar cada emoção que se passasse por seu semblante, tal qual quando caminhei para ele horas atrás.
Eu vi tudo: amor, desejo, felicidade.
O tecido pesado do vestido foi empurrado e eu me vi quase nua, não fosse pelo espartilho, cinta liga brancos e os saltos. Senti uma energia completamente erótica por estar vestida desse jeito, e foi intencional. Eu levei a sério quando ele me disse que seria o melhor amante, era o que eu queria ser também. Fechei os olhos quando a palma da mão desceu pela minha nuca até fazer uma carícia despretensiosa na minha bunda.
A outra mão passou a puxar com delicadeza os cachos do meu cabelo, deixando-os ondulados.
— Olhe para mim agora. — foi um pedido baixinho, como se a voz estivesse carregada demais para sair no tom normal.
Fiz o que ele mandou, sem evitar sorrir, um sorriso safado como ele costumava dizer em alguns momentos.
— Você parece uma pintura feita especialmente para mim... — Os olhos azuis subiam e desciam por meu corpo, despertando a ardência conhecida entre minhas pernas, a carência que todos os dias em que não tivemos contato íntimo fez crescer e tomar forma dentro de mim.
O beijo que trocamos foi quente, como se fosse o primeiro. Gostoso como sempre era e infinito porque agora pertencíamos um ao outro, a aliança e o sobrenome dele eram provas disso.
Camille Alencar Ferris.
Soava bem. Queria gritar isso, queria que todos soubessem.
— Você é meu agora... — sussurrei, no meio de outro beijo que me deixou sem fôlego, as mãos dele passavam por todos os lugares, deixando um rastro quente sobre o tecido fino que ainda cobria minha pele, cada polegar cobria um de meus seios, friccionando-os de forma lenta e gostosa. — Só meu... Para sempre.
— Sim, só seu.
Sem pressa, ele me fez sentar na cama, a intenção era terminar de me despir. As tiras delicadas dos saltos foram abertas e ele as retirou dos meus pés. Os dedos fizeram uma massagem suave e depois foram substituídos por seus lábios.
— Você é linda demais, meu amor... — gemeu ele, enfiando o rosto entre minhas pernas, o polegar fez alguns movimentos circulares sobre o meu clitóris sobre a calcinha da liga.
Gemi, abrindo mais as pernas e deitando sobre a cama grande.
Deitada, assisti-o se despir, enquanto me olhava, como se ainda não quisesse me ver sem a lingerrie provocante. Cada músculo do corpo dele foi ficando a mostra, as coxas, o abdômen, o membro rijo que me deixou ainda mais excitada. Tudo nele me excitava. Não tinha como ficar sem esse homem. Apoiei-me nos cotovelos e abri mais as pernas quando ele aproximou-se novamente. O roçar do membro duro contra meu sexo sobre o tecido, deixou-me agitada, o coração aumentando as batidas. Desejando-o dentro de mim, como fazia algum tempo que eu não sentia.
— Eu teria enlouquecido sem você... — a boca dele estava a centímetros da minha, o corpo encaixado no meu, era errado que eu ainda estivesse vestida, que minha pele não estivesse completamente grudada a dele.
Escorreguei as mãos por suas costas até introduzi-las entre os seus cabelos macios, puxando-o para que me beijasse, uma prova de que estava aqui com ele.
Marcone terminou de me despir, deixando apenas as meias longas, e como se estivesse desesperado para me sentir, ele penetrou a minha carne, consumando aquilo que já estava consumado. Tomando para ele algo que já lhe pertencia, que já era seu.
Os seus gemidos, a sua respiração irregular, as arremetidas longas e dolorosamente quentes tudo tirava-me o juízo, passei a nem mais entender o que pedia para ele. Se era mais do seu pau, se era que ele fosse mais rápido, ou simplesmente que não parassa. Qua não saíse de dentro de mim.
Entreguei tudo que tinha para ele, meu corpo, minha boca, meu amor, meu maior desejo.
Tudo era dele, e Marcone era todo meu.