O Federal
Capítulo 33
Camille
Mudei de posição e passei a mão pela cama, buscando o corpo
do homem com quem dormi a noite inteira, mas não encontrei nada. Senti apenas o cheiro forte de café e um calor gostoso na pele das costas. Espreguicei-me e só então abri os olhos, acostumando-me a claridade. O calor vinha de uma janela aberta que eu nunca havia notado por conta das persianas que permaneciam sempre fechadas, notei que havia uma sacada ali também. Soltei um suspiro e sentei esfregando os olhos, meu corpo estava dolorido em muitas partes, como se minha boca e meus seios estivessem extremamente inchados.
Ergui meu rosto e vi Marcone assistindo ao meu despertar, o cheiro de café vinha da caneca que ele segurava, senti-me muito nua e muita descabelada, enquanto ele parecia recomposto e adulto ao extremo. Puxei o lençol branco para cobrir a minha nudez sem fazer ideia se era tarde ou ainda manhã.
— Que horas são? — perguntei, ele estava vestido todo de preto, parecia maior dentro da camisa e calça escuras.
— Ainda é cedo. — Ele sentou perto de mim e colocou a caneca sobre o criado-mudo. — Se eu não precisasse trabalhar, estaria como você. — O sorriso que ele deu me fez sorrir também.
Soltei o lençol e cheguei mais perto dele, de um jeito que pude sentar no seu colo. O tecido áspero da calça arranhou um pouco onde já estava dolorido na minha coxa.
— Por que precisa ir trabalhar? — Beijei de leve o queixo pontudo e puxei a corrente que estava em seu pescoço a fim de ver o que havia preso nela.
Polícia Federal.
— Eu tenho alguns boletos para pagar. — Ele riu, olhando-me como se eu não fosse normal. — Diga-me se está tudo bem.
— Sim, está. Eu posso ficar aqui mais um pouco? — Na verdade, eu não queria voltar para casa ainda, queria ficar mais um pouco dentro dessa bolha. Como se não houvesse nada para me preocupar lá fora.
A impressão que tive durante todo o fim de semana é que eu passaria meses escondida com esse homem, em qualquer lugar do mundo. Eu não queria voltar para casa, apenas passar o dia inteiro revivendo os nossos momentos.
— Claro que pode. — Fez uma pausa e afastou algumas mechas do meu ombro. — Mas sozinha? Nina não vai aparecer tão cedo.
— Eu sei, eu gosto de ficar sozinha. Não quero ir para casa ainda.
— Ok, então.
Subi as mãos por sob a sua camisa e o beijei, o gosto do café ajudou a me despertar um pouco mais.
— Eu preciso ir — disse ele, baixinho, em seguida beijou minha testa e me colocou de volta na cama que parecia muito maior sem ele comigo.
— Há um cartão de crédito e uma chave extra em cima do aparador da sala, se você quiser pedir alguma coisa ou sair. A chave está lá — Ele foi dizendo, enquanto colocava o relógio no pulso. — O telefone da cozinha funciona, então ligue para os seus pais e avise que ainda está aqui. — O tom foi mais autoritário dessa vez.
— Que horas você vai chegar? — perguntei, desejando voltar novamente para o nosso final de semana.
Ele deu um sorriso contido . Os olhos fixaram-se no meu rosto
— Eu não sei, amor. — respondeu, mais sério e voltou a sentar. — Na polícia não temos uma rotina estável, tudo depende do rumo dos acontecimentos durante o dia. Eu posso ter um dia de burocracia ou vários mandados de prisão para cumprir. Tudo depende de ordens, aprovações, mandados. Enfim, nada que precise se preocupar. Vá dormir. — Ele ajeitou minha cabeça no travesseiro e beijou meu seio antes de cobri-lo com o lençol.
— Me beija outra vez. — pedi, fazendo um beicinho. Ele achou graça, beijou-me e saiu logo depois.
Encolhi-me sob o lençol e abracei o travesseiro dele antes de pegar sono de novo.
Acordei horas depois mais disposta, vesti a camisa dele e caminhei até a sacada que eu nunca havia notado, era a mesma vista da sala. Havia uma tranquilidade incrível aqui, espreguicei-me, sentindo as dores em partes significativas do meu corpo: na parte inferior da coxa, na bunda. Rastros do final de semana intenso que tivemos.
Analisei o interior da geladeira dele, sentindo um pouquinho de fome, peguei o queijo que havíamos comprado no sábado, achando realmente estranho essas coisas simples. Em minha casa tudo já estava pronto quando eu me sentava à mesa, e na casa de Heloísa não era diferente. Fiquei na ponta do pé para abrir o armário e pegar um prato. Montei um sanduíche, e o mordi, enquanto perambulava pelo apartamento. Eu já conhecia a maior parte dos cômodos, mas a curiosidade por estar ali sozinha pela primeira vez me fez voltar ao quarto de Marcone.
Abri a gaveta do criado-mudo, onde havia camisinhas, encontrei várias delas, o que me deixou enciumada, embora fosse ridículo. Ele tinha um passado, do mesmo jeito que eu tinha o meu.
Voltei a morder o pão e me afastei dali, indo em direção ao closet. A maioria das roupas dele eram escuras, até mesmo o roupão era preto. O cheiro dele era intenso ali, peguei outra de suas blusas para vestir depois que tomasse banho e encontrei um mackbook dentro de uma gaveta, coloquei sobre a cama, a fim de dar uma olhada nas notícias depois.
O banho que tomei foi demorado, ensaboei o corpo inteiro, todas as partes doloridas, lembranças de todas as vezes em que ele esteve dentro de mim. Eu reconhecia cada marca deixada, por beijos ou por mordidas, nunca achei a vermelhidão do meu corpo tão excitante. Lavei o cabelo com o xampu dele e os penteei já dentro da camisa cheirosa, deixei para que secassem naturalmente.
Voltei ao quarto, abri o notebook, e sentei na cama, recostando-me na cabeceira estofada. Entrei em alguns sites em que o nome da minha família fazia parte das notas, procurando por algo a respeito da festa do meu aniversário. Havia uma foto minha e de Marcone no site de Georgia, a fofoqueira questionava a identidade do meu namorado, algo que os curiosos desse meio já deviam saber agora. Na mesma nota ela relembrava o fim do meu noivado com Enzo e ainda fez uma comparação com uma foto antiga em que posei com ele em algum evento que estivemos juntos.
Não me reconheci na imagem.
O meu cabelo estava preso num coque, segundo Enzo passava um ar de mulher comprometida, meus cabelos soltos eram apenas para ele, quando estivéssemos a sós. O meu sorriso era mecânico, travado, ferido, o medo que passei a sentir de cometer algum deslize nessas festas me deixava tensa durante todo o tempo.
Senti um mal estar terrível olhando aquela foto, perguntando-me como acreditei que Enzo que me amava, aquilo definitivamente não era amor, era ódio ou algo parecido.
Não encontrei mais nada a nosso respeito, se havia antes, Joice já tinha dado um jeito para que retirassem. Fechei a aba e estava prestes a desligar o aparelho quando uma pasta com o nome “ Ela ” chamou minha atenção. Cliquei e esperei que as fotos carregassem, eram muitas, e conforme algumas delas surgiam completamente nítidas, meu coração ia ficando pequenininho. Um sentimento de posse crescendo violentamente. E o ciúme tão intenso que temi não conseguir respirar.
Era Marcone e outra mulher, a mesma que eu vi na praia. Grávida... com ele. A mesma.
Perguntei-me que espécie de brincadeira ele e Nina estavam fazendo comigo, repassei nossas conversas em nenhuma delas ele mencionara o nome de uma mulher ou falara sobre algum relacionamento recente, muito menos um filho. Houve apenas a conversa sobre Julia, mas não era ela quem estava em todas essas fotos.
Meu estômago embrulhou com a constatação do quanto ele parecia feliz nas imagens, cheio de sorrisos ou caretas. Perdi a vontade de ficar ali, e me levantei, colocando o mackbook de qualquer jeito na cama, sentindo-me extremamente trouxa. Enganada. Novamente.
Achei o vestido que Marcone pegara na lavanderia do prédio no domingo, vesti-o e fui até a cozinha, a fim de ligar para Miguel me buscar.
Marcone
— Você está distraído hoje. — Andrea disse, analisando-me novamente.
Eu estava mesmo, geralmente a essa hora do dia, eu já teria recebido inúmeras mensagens de Camille, mas não havia nenhuma. O que me fez pensar que: ou ela não tinha voltado para casa, ou estava ocupada demais para isso.
Nunca um dia na delegacia se arrastou tanto como hoje, perdi a conta de todas as vezes que consultei a hora, os dias tranquilos eram os piores, às vezes.
Abri a porta para que ela passasse e a segui para fora da delegacia, Ben nos encontrou no caminho.
— Não esqueçam do jantar amanhã a noite. — Afastou-se, antes que eu tivesse tempo de perguntar quando a serelepe voltaria para casa.
— Você vai? — Andrea perguntou, girando a chave do carro no dedo.
— Sim, é uma forma de eu ver minha irmã.
Ela riu da minha cara, e em seguida olhou-me mais demoradamente.
— Você está distraído. — Voltou a falar, mas eu não prestei muita atenção. Erick estava se aproximando com um capacete nas mãos, quando ela deu a partida no carro depois de se despedir, percebi que a moto do infeliz seguiu o carro dela.
Cheguei ao apartamento um tempo depois, claro que o trânsito não ajudou em nada no meu estresse, o primeiro lugar em que fui quando entrei em casa foi ao meu quarto. A cama ainda estava desfeita, o meu mackbook estava aberto sobre ela e não havia sinal de Camille, fui até o banheiro e encontrei apenas uma das minhas blusas que ela usara durante os dias que passara ali comigo. Aproveitei para tomar um banho e recarregar a energia do dia inteiro. Saí com uma toalha enrolada na cintura, peguei o celular para consultar as mensagens: havia duas de Nina, uma da minha mãe, mas nenhuma dela. Fiquei frustrado pela segunda vez, a primeira tinha sido por eu imaginar que ela estaria aqui.
Vesti-me e peguei as chaves do carro. Cliquei em uma tecla do mackbook para ver se ela o havia desligado e todas as fotos de Samanta apareceram junto com a luz da tela do aparelho.
Passei uma das mãos pelo cabelo, preocupado com o que ela devia estar pensando agora. Obviamente que eu era um idiota.
Dirigi até o seu prédio, e após Miguel liberar a minha entrada, Naiá me recebeu com o entusiasmo de sempre, sinal que o quer que estivesse passando pela cabeça de Camille ela não tinha contado ainda a essa senhora.
— Onde ela está? — perguntei, nervoso, depois das amenidades.
— Está trancada no quarto desde cedo. — respondeu de modo carinhoso, sem mostrar muita preocupação.
Eu subi o pequeno lance de escada que levaria até o quarto e bati duas vezes, não houve resposta, então eu a abri. A cama estava desfeita, mas vazia. Ela saiu do ateliê ao mesmo tempo em que fechei a porta atrás de mim. Ela não precisou dizer nada, a expressão que fez ao me ver mostrou tudo.
Camille estava magoada.
— Quem é ela? — perguntou diretamente, sem fazer rodeios, cruzando os braços.
Suspirei, ainda mais nervoso. Se eu tivesse como escolher, não seria o momento que eu exporia esse assunto a ela.
— Quem ela é, Marcone? — Voltou a perguntar, ainda mais triste com o meu silêncio. — Que tipo de brincadeira está fazendo comigo?
— Não há brincadeira nenhuma, as fotos que você viu são antigas, faz anos, Camille.
— Mentira. — O tom que usou me fez olhá-la melhor, pensando que talvez houvesse algo mais, além das fotos. — Eu vi vocês, vi com meus olhos e faz pouco tempo.
— Você viu. — Não foi exatamente uma pergunta. — E onde você viu?
— Na praia, ela estava grávida. Mas eu vi, não sou louca.
Se ela tivesse visto quem eu estava pensando, eu estava ainda mais encrencado. Os lábios cheios tremiam levemente, e eu estava com a terrível impressão de que ela estava prestes a chorar ou que já tinha chorado.
— Você viu pessoas diferentes. — Tentei começar uma explicação que fizesse sentido, mas o que aconteceu foi a desconfiança que estava desaparecida há dias aparecer novamente nos olhos dela, na forma como ela me encarou, receosa, triste, parecendo reviver algo. Talvez ela já tivesse sido traída, repassei as palavras que ela dissera sobre o antigo relacionamento, como algo que não lhe fez bem, que a magoara.
— A capacidade que vocês homens tem de mentir é inacreditável. — Ela enfiou os dedos pelos cabelos parecendo exasperada.
Porra.
— Não estou mentindo, só pare e me deixe explicar. — Aproximei-me, temendo que ela fugisse de mim, voltando a ser a garota arisca e desconfiada que conheci na fazenda, todavia ela permaneceu no mesmo lugar, só desviou os olhos sem querer olhar para mim. — Nós podemos sair daqui?
Ela hesitou, é claro.
— Só me deixe explicar que não é o que você está pensando.
A garota revirou os olhos, e assentiu, eu não a culpei essa frase era um clichê ridículo.
Saímos do prédio e ela se manteve silenciosa por todo o tempo, o que me deixou preocupado com o que ela podia estar pensando.
Acabei voltando para meu apartamento, ela sentou no sofá assim que entramos, ainda calada, embora os olhos estivessem gritando. Ela estava magoada e com raiva.
Enchi um copo com água e dei a ela, mas Camille recusou agitada.
— Ela está morta, Camille. — Disse de uma vez. — Faz anos que eu a perdi.
Os olhos dela se estreitaram, confusos.
— As fotos que você viu são de alguns anos atrás, quando ela ainda estava viva.
Tirei o celular do bolso e procurei pela notícia que circulara por todos os meios de comunicação durante dias, a filha de uma dos empresários mais ricos de Brasília havia morrido num atentado. Deixei que ela lesse e reconhecesse a mulher da foto na tela do celular.
— Isso não é possível... — Ouvi-a dizer num sussurro, reconheci o medo que ela tinha de ser enganada.
O pior é que aquela merda era possível sim, eu sabia disso mais do que ninguém.
— O que aconteceu?
Eu a olhei seriamente, talvez o que eu estava prestes a contar faria com que ela não quisesse nunca mais me ver.
— Ela estava noiva do cara errado. — contei. — As bombas eram para mim.
Notei o queixo dela tremer e então ela colocou o celular sobre a mesa de centro, talvez sem querer olhar mais a notícia.
— Eles foram presos? — Depois de ficar em silêncio por um tempo imenso ela perguntou, baixinho.
— Não. Eu matei todos.
Vi quando ela engoliu em seco, esperei pelo julgamento, mas ele não veio. Camille só continuou a me olhar talvez tentando desvendar que tipo de homem eu era, mas não houve medo, não, ele não apareceu, apenas curiosidade.
— E quanto a outra mulher, quem é ela?