O Federal

Cris Araújo · Capítulo 15 de 63

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O Federal

Capítulo 14

 

Marcone

 

— Se não tem nada aqui, não precisa se preocupar.

O homem gordo e extremamente suado olhava desesperado para todos os lugares que Bella farejava dentro do galpão imenso e cheio de carga, Ben e o novato, cujo nome ainda não tinha decorado, estavam abrindo as caixas, onde deviam conter batatas. Assim que retornei ao trabalho, essa investigação foi passada para mim. O antigo agente tinha uma boa parte do caso já encaminhado, então não foi preciso mais do que algumas noites de plantão para chegarmos ao lugar certo e conseguirmos o mandado de busca e apreensão.

Ben olhou para mim, mostrando-se nervoso, provavelmente por não estarem encontrando nada.

— Não tem nada aqui... — disse o homem. — Transporto cargas como essa há muito tempo...

Enquanto ele contava a velha ladainha sobre ser inocente, fiz um sinal para que o outro agente ficasse perto do sujeito. Afastei-me em direção aonde Bella estava farejando em círculos, a pata grande começou a arranhar a lataria de uma das carretas, destravei a porta e ela pulou para dentro imediatamente. Os pelos ao longo do corpo ficaram eriçados e ela mais agitada, andando em círculos sobre a madeira, sinal de que algo havia sido encontrado.

— O que encontrou, garota?

As drogas estavam lá, e mesmo cercado o miserável tentou correr para fora do galpão. Enquanto era colocado dentro da viatura ele soltou todo tipo de ameaça e xingamento, coisas que eu acrescentaria, é claro, no relatório da sua prisão.

*

 

Joguei as chaves no aparador, enquanto olhava as mensagens de Nina. A encrenqueira tinha mesmo me abandonado por aquele puto desalmado. Qual tinha sido a última vez em que assistimos a um filme juntos ou fomos ao Poli Mix, ou simplesmente ficamos conversando sobre os sucos terríveis que ela tomava para não ficar inchada? Era uma traidora, a maldita fase em que éramos trocados pelos namorados. Digitei um ok em resposta para o aviso de que ia dormir fora, de que não a esperasse e nem ficasse preocupado.

Deixei o aparelho sobre a cama e fui para o banheiro, livrando-me da calça e das botas. Desde a morte de Samanta os impulsos para deixar de fazer o que eu fazia eram constantes, mas algo sempre parecia me atrasar, colocar a questão em segundo plano, como se não fosse importante, mas eu sabia que era. Encarei-me no espelho, estava cansado, depois do banho o aspecto abatido da noite sem dormir ficaria menos aparente, ou não. Melhor que fosse dormir e deixasse para me preocupar depois. Os olhos cheios de ódio do homem que me encarara e ameaçara não tinham saído da minha cabeça. Por vezes me perguntava o que levava as pessoas a se tornarem o lado podre da sociedade. Se era mesmo a falta de oportunidade ou se era algo que já vinha do berço, da parte mais intrínseca da natureza humana. Acho que nunca teria essa resposta, muito pelo contrário, ela se tornaria uma dúvida ainda maior com o passar do tempo, principalmente se permanecesse por muito mais tempo dentro dessa profissão.

Por um tempo, embaixo do chuveiro permiti que a minha mente ficasse nublada o suficiente para que nada frustrante viesse me atormentar, perguntava-me, às vezes, se a mente de todas as pessoas era tão barulhenta quanto a minha, de alguma forma eu me tornei alguém aceso demais, era como se sempre alguma coisa fosse acontecer, embora eu sempre acreditasse ou quisesse acreditar que não eram traumas, no fundo eu tinha certeza que sim. Só não era honesto o suficiente comigo mesmo para admitir isso. Peguei a toalha seca pendurada no anel de metal na saída do boxe e parei em frente ao espelho, enquanto enxugava os cabelos. De onde estava escutei o celular vibrar, ou era Andrea ou Flávio, geralmente quando eu estava de folga marcávamos um chope ou algo do tipo, mas hoje eu não estava com vontade nem de uma coisa nem de outra.

Vesti uma boxer e peguei o celular, antes de sair do quarto. A mensagem, no entanto, era de Nina. Três arquivos. Deixei fazendo download e fui até a geladeira, tinha mais água mineral do que qualquer outra coisa, além dos ingredientes dos sucos terríveis da minha irmã. Franzi o nariz com a última constatação e resolvi pedir alguma coisa no delivery. Peguei o aparelho e abri as fotos, a primeira impressão que tive ao olhá-las foi do tamanho esforço que tinha feito para não pensar nessa garota. Todas as três imagens eram de nós na piscina, no meu último dia na fazenda, tiradas no iphone de Ben. Eu, Camille e Nina, ampliei a imagem e foquei no rosto de Cami, mesmo na foto os olhos dela pareciam atrair um magnetismo surpreendente, o sorriso ainda mais incrível, acho que pelo fato de ela sorrir pouco. Deixei minha mente vagar para a cachoeira, em como ela estava relaxada, risonha, confortável perto de mim, não sei por que o simples fato dela se sentir à vontade comigo me deixava tão elétrico, diminui a imagem para o tamanho normal e olhei seu corpo inteiro, não sei quanto tempo permaneci olhando aquela foto, não tinha me permitido ligar nem mandar mensagem, obviamente aquela menina já tinha passado por algum evento traumático, a linguagem corporal, as oscilações de humor, o desconforto inicial quando estava perto de mim, havia algo de errado.

Abri o aplicativo de mensagens e procurei o contato dela, estava off-line, a foto de perfil tinha mudado, antes era a pintura de uma mulher negra, perguntava-me se era uma das obras dela, agora estava seu rosto contra o reflexo do sol, os olhos claríssimos.

 

De Marcone:

Saudades.

Mandei antes que voltasse atrás e voltei caminhando para meu quarto, com os olhos grudados na tela. Ela ficou on-line e eu sentei na cama, recostando-me na cabeceira estofada.

 

De Camille:

Marcone

 

De Marcone:

Sou eu. Senti saudades. Como você está?

 

Dessa vez ela demorou um pouco mais para responder, começou a digitar e parou umas três vezes, ajeitei melhor os travesseiros e deitei.

 

De Camille:

Estou bem. Também senti saudades.

 

Desisti de digitar, cobri minha quase nudez com o edredom e fiz uma chamada de vídeo. Mais uma vez ela demorou de atender — perguntei-me se eu não estava incomodando, ou se talvez ela nem estivesse em casa. Podia estar na balada, afinal era sábado. Na segunda tentativa Camille atendeu, mas não vi nada a não ser escuridão, parecia que o dedo dela estava tapando a câmera. Dei risada.

— O que você está fazendo? — perguntei.

Ouvi um espirro e a música suave que tocava foi desligada.

— Estou deitada. E você? — Um sussurro e outro espirro.

— Deixe-me ver você, o que aconteceu com sua câmera?

— Nada, eu estou horrível.

Eu ri, achando a ideia impossível. Uma provável blasfêmia, aliás.

— Você não ficaria horrível nem se estivesse sem um dente da frente. — Ouvi a risada abafada e outro espirro.

— Qualquer pessoa ficaria feia sem um dente da frente.

— É, você tem razão, mas não é o seu caso, é? — Esperei, mas ela permaneceu em silêncio. — Vamos lá, estou com saudades. Deixe-me ver você.

Aos poucos, a luz foi aparecendo e então o rosto dela.

— Está resfriada? — As maçãs e o nariz estavam vermelhos no rosto delicado, os olhos irritados e um pouco úmidos, e os cabelos presos num coque frouxo, algumas mechas fugiam e decoravam o pescoço esguio, reconheci a blusa que ela estava usando porque era minha, a mesma que lhe emprestei numa das madrugadas em que tomamos chocolate quente juntos na fazenda, um suspiro que apenas eu escutei saiu dos meus lábios.

— Um pouco. — Ela sorriu e deitou-se, os cabelos fugiram do coque e esparramaram-se pelo travesseiro.

Fiquei sem saber o que dizer, encantado com o sorriso raro que ela deu..

— Posso passar aí pra ver você? — soltei sem pensar.

— Você vem mesmo? — Ela estava surpresa.

— Sim, se você quiser que eu vá. — Deixei que ela decidisse, o meneio afirmativo que ela deu foi quase imperceptível. — Vou pôr uma roupa.

Ela fez que sim, e eu encerrei a chamada. Procurei por um jeans e uma camisa, e saí, catando o celular, a carteira e as chaves do carro. Quando segui em direção à rua Lopes Quincas, perguntei-me se estava fazendo a coisa certa. Afinal, eu já estava decidido a ficar longe dessa garota e de problemas, todavia, não ia dar certo, aliás pouca coisa tinha dado certo na minha vida nos últimos anos. Dei risada de mim mesmo e consertei o retrovisor, checando a traseira do carro. Eu estava atraído e podia ser bem chato dizer isso, mas havia um tempo que não sentia esse tipo de atração por alguém. Aquela sensação boa que sentíamos quando estávamos perto de alguém querido, eu podia estar sendo equivocado, mas sabia que ela sentia o mesmo.

Em menos de dez minutos, eu estava no prédio dela. Antes de estacionar pude vê-la, usava um vestido branco e os cabelos estavam presos num rabo de cavalo. Fiquei ridiculamente nervoso por um momento, vendo-a na portaria. Camille olhou para o carro, e deu um passo a frente, os braços em volta do corpo, como se sentisse muito frio. Destravei a porta para que ela entrasse, o cheiro que estava ficando familiar tomando conta imediatamente do espaço pequeno que ocupávamos. O sorriso que ela deixou escapar quando viu a mim, foi excepcionalmente especial. Eu não a via sorrir tão abertamente assim,

— Oi. — A voz estava meio anasalada por causa do resfriado.

— Oi, Camille.

Por uns dois minutos tanto eu quanto ela permanecemos em silêncio.

— Há um elevador privativo. — Ela apontou para a área sinalizada por cones amarelos e eu coloquei o carro em movimento outra vez, dirigindo exatamente para onde ela havia apontado.

Chequei a traseira do carro através do retrovisor e destravei a porta para que saíssemos.

— Como foi a primeira semana de trabalho?

Ela parou rapidamente para me olhar, provavelmente surpresa que eu soubesse da novidade.

— Foi... interessante.

Apertou o botão da cobertura e virou-se para mim, depois de entrarmos no elevador.

— Como sabe sobre o trabalho?

— Nina não segura a língua.

Ela riu baixinho, olhou e desviou os olhos de mim, como se não soubesse o que dizer. O rosto estava mais corado do que o comum por causa da gripe.

— Flávio está sendo legal?

— Sim, todos são bem legais lá.

Ela espirrou outra vez, automáticamente coloquei a mão direita em sua testa — estava quente, ela devia estar com febre.

— Quem está cuidando de você? — perguntei, quando ela voltou a abraçar o corpo.

A porta do elevador se abriu e nós saímos, Camille colocou o dedo indicador na fechadura eletrônica e olhou para mim.

— Meus pais viajaram para uma festa e a minha antiga babá está de folga e foi jogar baralho na casa de uma amiga.

— Você não foi porque não está se sentindo bem?

Olhei ao redor, quando ela acendeu os leds da sala, a decoração completamente clean, tudo muito claro e cheio de vidros, a varanda integrada com as duas salas deixava o ambiente bem fresco, a sala de estar e jantar eram divididas por uma parede curta de vidro.

— É bem bonito... — comentei, seguindo-a para uma das conexões.

— É bem sufocante também.

Emendou ela e subimos um pequeno lance de escadas, Cami abriu uma porta para que entrasse. O quarto dela — completamente diferente do que imaginei — a cama estava desfeita, minha blusa sobre ela, o perfume dela era totalmente intenso ali dentro, as cores eram mescladas entre branco e dourado, com poucos detalhes verdes. Havia um notebook aberto sobre a escrivaninha ao lado de uma agenda dourada.

Continuei olhando por ali, tentando ligar os detalhes à personalidade dela, as canetas estavam espalhadas pela escrivaninha, uma cartela de comprimidos estava ali intocada, sinal de que ela não havia se medicado. Olhei para trás, vendo-a sentar-se na cama e abraçar uma almofada estranha.

— O que tem ali dentro? — Apontei para uma porta branca.

Por favor, não entre sem que eu permita.

Era a mensagem que estava colada na porta.

— Meus quadros.

— Posso ver? — perguntei, curioso para conhecer outra parte dela. Ainda era incapaz de definir com propriedade essa garota.

— Não. — Ela sorriu e espirrou outra vez. — Outro dia.

Fiquei ainda mais interessado por causa da recusa, perguntei-me o que ela guardava ali, surpreso com a quantidade de coisas que queria saber sobre ela.

Assenti e parei perto da agenda, meus olhos passaram rapidamente pela página aberta, as palavras ali chocaram com alguns sentimentos que também tinha guardado por muito tempo, eram questionamentos que também tinha feito diversas vezes, em muitos momentos aos gritos, como se alguém fosse me escutar e realmente responder.

 

Dói muito acordar e não ti ver.

Não ouvir suas risadas.

Não brigar com você.

Dói muito saber que isso não tem conserto, que esse vazio

nunca será preenchido.

Dói muito, sabia?

Por que você se foi?

E me deixou essa culpa que me esmaga toda manhã quando eu

acordo?

Dói muito.

Às vezes, eu esquecia que ela tinha perdido alguém há tão pouco tempo, deixei de bisbilhotar e fui me sentar perto dela, Camille me deu espaço para sentar ao seu lado.

— Por que você não foi com seus pais? — Voltei a perguntar.

Ela ponderou por algum tempo, em meio a alguns espirros.

— Não é algo que eu queira participar.

Voltei a olhar ao redor, era uma casa confortável, ela morava bem, estudava em das melhores faculdades do Rio de Janeiro, era linda, no entanto, não parecia muito entusiasmada com nada disso, a aversão que ela parecia sentir pela casa era notável. Lembrei do que ela dissera sobre estar na fazenda, sobre se sentir segura lá. Quanto mais coisas eu não sabia sobre ela, mais eu ficava tentado a descobrir, a entrar por cada nuance que ela me desse, cada brecha, cada palavra, cada peça do quebra-cabeça que era ela. Recostei-me na cabeceira da cama e segurei com delicadeza a mão quente.

— Eu falei sério quando disse que queria ser seu amigo. — Deixei que nossos dedos se entrelaçassem, esperando por uma reação dela.

Camille revirou os olhos, mas não se afastou.

— Isso não é verdade. Você deseparece o tempo inteiro... — retrucou ela, mas uma dose de constrangimento se insinuou em seu semblante.

Permaneci calado porque ela tinha razão, eu tinha desaparecido. Havia a chamada responsabilidade afetiva que muitos pregavam e poucos de fato viviam, eu tinha certeza que se continuássemos a nos vermos, iria passar de simples amizade — a atração já era forte da minha parte, a beleza combinada à personalidade misteriosa que ela tinha, aos pequenos detalhes que eu já gostava.

— Você tem razão.

Ela ficou surpresa, foi evidente.