A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 52 de 66 · parte 2/2

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A Torre Negra, Vol. 7

Capítulo IV · PELES

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

— Salve, pistoleiros! — gritou. Pelo menos tinha pulmões admiráveis. — Pistoleiros em peregrinação para a Torre Negra, é o que são, é o que têm de ser, pois será que não vejo os grandes trabucos de cabo amarelo? E o Feixe voltou, belo e forte, pois eu o senti e Lippy também! Aliás ela tem estado lépida como uma potra desde o Natal, ou desde o que eu chamo Natal, pois não tenho calendário nem vi Papai Noel, o que não é de admi-rar, porque não tenho sido bonzinho. Nunca! Nunca! Bonzinhos vão para o céu e todos os meus amigos estão naquele outro lugar, assando marsh-mallows e tomando Nozzy com uísque na toca do diabo! Ahrrr, só mesmo eu, alguma coisa pega minha língua pela goela e a faz correr pelos dois can-tos da boca! Salve um, salve o outro e salve os duendezinhos peludos no meio! Se não é um zé-trapalhão enquanto eu viver e respirar! Uau, como é que não é bom ver vocês?! Joe Collins é meu nome, Joe Collins de Odd’s Lane, eu mesmo bastante estranho, zarolho e coxo, mas, fora isso, às suas ordens!

Ele havia agora atingido o monte de neve que marcava o ponto onde acabava a estrada da Torre... ou onde ela começava, dependendo do ponto de vista e da direção em que a pessoa estivesse viajando, Susannah supu-nha. Ergueu a cabeça para eles, um olho brilhante como o de um pássaro, o outro se perdendo, quase fascinado, na vastidão branca.

— Longos dias e belas noites, sim, digo eu, e quem pudesse dizer o contrário sem dúvida não está aqui. E quem vai dar alguma importância à porra do que eles dizem? — Tirou do bolso o que podia ser uma bala de goma e jogou a bala para cima. Oi pegou-a facilmente no ar: Nhoque!, e a bala sumiu.

Com isto, Roland e Susannah deram uma risada. Parecia estranho rir, mas foi uma boa sensação, como encontrar uma coisa de valor muito tem-po depois de você ter achado que a perdera para sempre. Até Oi parecia estar rindo e, se a égua o preocupava (ela tornou a relinchar enquanto con-templavam sai Collins da pilha de neve), isso não transpareceu.

— Tenho um milhão de perguntas para vocês — disse Collins —, mas vou começar com apenas uma: diabo, como vão conseguir descer des-se monte de neve?

 

QUATRO

O fato é que Susannah simplesmente escorregou, usando a padiola real-mente como um trenó. Ela escolheu o lado onde a ponta noroeste de Odd’s Lane desaparecia sob a neve, porque o monte de neve era um pouco mais raso ali. Foi uma viagem curta, mas não suave. Bateu num grande e denteado pedregulho de neve a três quartos do caminho para baixo, caiu da padiola e completou o resto da descida com dois brilhantes saltos mor-tais, morrendo de rir enquanto caía. A padiola virou (virou como uma tar-taruga, pelo visto), derramando a tralha deles por todo lado e com bastante violência.

Roland e Oi vieram aos saltos atrás de Susannah. Roland se curvou de imediato sobre ela, nitidamente preocupado, e Oi fungou ansioso em seu rosto, mas Susannah não parava de rir. Nem ela nem o velho. Papai Mose diria que o riso dele era “alegre como uma fita de chapéu”.

— Estou bem, Roland... Levei tombos piores no meu Trenó Flexible Flyer quando era criança, pode crer.

— Tudo está bem quando acaba bem — Joe Collins concordou. O-lhou-a de relance com o olho bom para se certificar de que ela de fato es-tava bem, depois começou a pegar algumas das coisas espalhadas, inclinan-do-se laboriosamente sobre a bengala, o fino cabelo branco esvoaçando em volta da cara rosada.

— Naum, naum — disse Roland estendendo a mão para pegar o bra-ço dele. — Eu faço isso. Queres arriar de vez essa traquitana?

Nisto o velho estourou de rir e Roland juntou-se de bom grado a ele. De trás da casinha, a égua deu outro relincho alto, como se protestasse contra todo aquele bom humor.

— Arriar de vez essa traquitana! Rapaz, essa foi ótima! Não tenho a mais ínfima pista do que pode ser minha traquitana, mas foi ótima! Real-mente em cima! — Ele sacudiu a neve do casaco de peles de Susannah en-quanto Roland acabava rapidamente de pegar as coisas caídas no chão, tornando a empilhá-las no trenó improvisado. Oi ajudou, levando vários pacotes de carne na boca e colocando-os no canto da padiola.

— Um animalzinho bastante esperto! — disse Joe Collins num tom de admiração.

— Tem sido um bom companheiro de viagem — Susannah concor-dou. Estava muito feliz por terem parado; por nada, de mundo algum, que-ria ter sido privada do conhecimento daquele senhor tão cordial. Estendeu-lhe a mão direita, toscamente enluvada.

— Sou Susannah Dean... Susannah de Nova York. Filha de Dan.

O homem pegou a mão dela e sacudiu. A mão dele estava sem luvas e, embora a artrite tivesse entortado os dedos, o aperto era forte.

— Nova York, claro! Eu mesmo já morei lá. E também em Akron, Omaha e San Francisco. Filho de Henry e Flora, se isso importa a vocês.

— Veio do lado-América? — Susannah perguntou.

— Ó, Deus, sim, mas há muito e muito tempo — disse ele. — Do que vocês chamariam passado longínquo. — O olho bom cintilava; o ruim continuava contemplando as extensões de neve com aquela mortal falta de interesse. Ele se virou para Roland. — E quem poderia ser você, meu ami-go? Pois eu o chamo de amigo assim como faria com qualquer outro, a menos que você me prove que não é, hipótese em que eu recorreria à mi-nha Bessie, que é como eu chamo minha bengala.

Roland estava sorrindo. Era impossível não estar, Susannah pensou.

— Roland Deschain — disse ele —, de Gilead. Filho de Steven.

— Gilead! Gilead! — O olho bom de Collins girou com espanto. — É um nome tirado do passado, não é? Um nome para os livros! Meu Santo Rapaz, você deve ser mais velho que Deus!

— Alguns acham que sou — Roland concordou, agora apenas sor-rindo... mas calorosamente.

— E o carinha? — ele perguntou se curvando para a frente. Collins tirou do bolso mais duas balas de goma, uma vermelha, uma verde. Cores do Natal e Susannah sentiu um leve toque de déjà vu. A coisa roçou em sua mente como asa e passou. — Qual é seu nome, carinha? Como eles gritam quando querem que você venha pra casa?

— Ele não...

...fala mais, embora já tenha falado, era como Susannah pretendia termi-nar, mas antes que tivesse tempo, o trapalhão respondeu:

— Oi!

E falou do modo brilhante e firme como falava quando Jake andava com ele.

— Bom rapaz! — disse Collins, pondo as balas na boca de Oi. De-pois estendeu o braço com a mesma mão torta e Oi ergueu a pata para en-contrá-la. Eles se cumprimentaram felizes perto do cruzamento de Odd’s Lane com a estrada da Torre.

— Macacos me mordam — disse Roland suavemente.

— Somos todos macacos no final, tenho de admitir, com ou sem o Feixe — Joe Collins observou, soltando a pata de Oi. — Mas não hoje. Agora acho que devemos entrar onde está quente para podermos palestrar tomando uma xícara de café. Tenho um pouco de café, podem crer... ou uma caneca de cerveja. Tenho até uma birita que chamo de gemada, se vo-cês quiserem. Ela me faz muito bem, especialmente com uma mijadinha de rum, mas quem sabe? Realmente não ando sentindo o gosto de nada nos últimos cinco anos ou mais. O ar que vem da Discórdia acabou com meu paladar e também com meu nariz. Seja como for, o que me dizem? — Ele os fitou com um ar vibrante.

— Eu diria que parece incrivelmente ótimo — disse Susannah. Pou-cas vezes tinha sido tão sincera em sua vida.

Ele deu tapinhas afetuosos em seu ombro.

— Uma boa mulher é uma pérola que não tem preço! Não sei se li is-so em Shakespeare, na bíblia ou numa combinação dos d... Arre, Lippy! Malditos sejam aquilo que eram seus olhos, aonde você acha que está indo? Queria conhecer as pessoas de perto, é isso?

Sua voz tinha se transformado naquele sussurro ultrajado que parece marca registrada das pessoas que só têm por companhia um ou dois ani-mais de estimação. A égua havia conseguido chegar perto deles e Collins agarrou-a pelo pescoço, dando-lhe tapinhas com rude afeição, mas Susan-nah achou que era o mais feio animal quadrúpede que já vira em toda a sua vida. Parte de seu bom humor chegou a se dissipar diante da coisa. Lippy era cega — não de um olho, mas dos dois — e magra como um espanta-lho. Quando andava, a armação dos ossos se deslocava tão claramente de um lado para o outro sob a fina camada de pele que Susannah tinha quase a sensação de que algumas hastes iam perfurá-la. Por um momento ela se lembrou do corredor negro sob o Castelo Discórdia com uma espécie de sinistra visão compacta: o chiado deslizante da coisa que os seguira, e os ossos. Todos aqueles ossos.

Collins podia ter visto um pouco do que Susannah estava sentindo na cara dela, pois quando tornou a falar parecia quase na defensiva.

— É uma coisinha velha e feia, eu sei, mas quando você ficar tão ve-lha quanto ela está, acho que também não estará em condições de vencer muitos concursos de beleza! — Deu batidinhas no pescoço esfolado e meio ferida da égua, depois puxou a crina rala como se quisesse arrancar os pêlos das raízes (embora Lippy não desse sinais de dor) e virou-a na estra-da, de modo que ela ficou de novo de frente para a casinha. Enquanto ele fazia isto, os primeiros flocos da tempestade que se aproximava começa-ram a rodopiar.

— Vamos, Lippy, Seu velho Ki’-box e gammer-gurt, seu cavalo de costas tortas e lepra de quatro patas! Não consegue sentir o cheiro de neve no ar? Pruquê eu já senti e olha que o meu nariz se aposentou há anos!

Tornou a se virar para Roland e Susannah.

— Espero — disse — que curtam a minha cozinha, pois é, pruquê acho que vamos ter uns três dias de sopro! É, pelo menos três antes da Lua do Demônio mostrar de novo o focinho! Mas foi legal a gente ter se acha-do, foi sim, e eu garanto o que digo e o que vou fazer! E não julguem meu cavalheirismo pelo meu cavalo! Hee!

Claro que não, pensou Susannah, estremecendo um pouco. O velho ti-nha se virado e Roland olhou para ela com uma expressão estranha. Ela sorriu e balançou a cabeça como dizendo: não é nada... o que, é claro, era. Não ia dizer ao pistoleiro que uma egüinha decrépita com cataratas nos olhos e costelas aparecendo tinha lhe provocado um acesso de treme-treme. Roland nunca a chamara de histérica e, por Deus, ela não pretendia lhe dar motivo para mudar de idéia nem...

Como se ouvisse seus pensamentos, a velha égua olhou para trás e mostrou a Susannah os poucos dentes que lhe sobravam. No ossudo triân-gulo que era a cabeça da Lippy, os olhos eram rolhas de cegueira envoltas em pus, sobre um sorriso meio horrendo. Ela relinchou para Susannah como a dizer: Pensa o que quiser, pássaro preto; eu estarei aqui muito depois de teres seguido teu curso e sofrido tua morte. Nesse momento aumentaram as rajadas de vento, jogando neve em seus rostos, gemendo entre os abetos carregados de neve, assobiando sob os beirais da casinha de Collins. Depois de come-çar a ceder, o vento tornou a se fortalecer por um momento, produzindo um grito breve de angústia que pareceu quase humano.

 

CINCO

O anexo consistia em um cercado de galinhas num dos lados, a baia da Lippy do outro e em um pequeno celeiro entupido de forragem.

— Consigo subir ali e puxar o feno pra baixo — disse Collins —, mas arrisco a vida toda vez. É prucausa deste meu quadril que tenho em peda-ços. Não quero obrigá-lo a ajudar um velho, sai Deschain, mas será que não podia...?

Roland subiu na escada encostada na beira do piso do celeiro e come-çou a jogar o feno para baixo até Collins lhe dizer que estava bom, que com um pouco de sorte já havia forragem suficiente para alimentar a Lippy por uns quatro dias de sopro (“pois sua vontade de comer é leve como foda de beija-flor, como se pode ver olhando pra ela”, disse Collins). Então o pistoleiro desceu e Collins os levou por um curto caminho até a casa. A neve empilhada de um lado e do outro era da altura da cabeça de Roland.

— Mi casa es su casa, et cetera, você sabe — disse Joe, introduzindo-os na cozinha. Era forrada com o que parecia ser um pinho cheio de nódulos, embora não passasse de um plástico, como Susannah percebeu ao chegar mais perto. Era deliciosamente quente. O fogão elétrico se chamava Ross-co, marca de que ela nunca tinha ouvido falar. O refrigerador era Amana e tinha uma portinhola especial colocada na frente, sobre a maçaneta. Susan-nah se aproximou e viu as palavras GELO MÁGICO.

— Esta coisa faz cubos de gelo? — ela perguntou deliciada.

— Bem, não, não exatamente — disse Joe. — É o congelador que faz, beleza; essa coisa na frente só joga os cubos na sua birita.

Isto pareceu engraçado, ela riu. Olhou para baixo, viu Oi erguendo a cabeça para ela com seu velho sorriso amigo, o que fez com que risse ainda mais. Conveniências modernas à parte, o cheiro da cozinha era maravilho-samente nostálgico: açúcar, temperos e muita coisa gostosa.

Roland estava observando as lâmpadas fluorescentes e Collins abanou a cabeça.

— Ié, ié, tenho toda a “létrica” — disse ele. — Também uma forna-lha de ar quente, né bom? E nunca ninguém me manda uma conta! A pos-sante está numa casinha lá pelo outro lado. É uma Honda, silenciosa como manhã de domingo! Mesmo quando tu chega pertinho da casinha dela, a única coisa que tu ouve é mmmmmm. O Gago Bill troca os cilindros de pro-pano e faz a manutenção quando ela precisa de manutenção. Isto só acon-teceu duas vezes durante todo o tempo em que estou aqui. Tudo bem, mentira no negócio, nariz de pinóquio... Foram três vezes. Um total de três.

— Quem é o Gago Bill? — Susannah perguntou no momento exato em que Roland fazia outra pergunta.

— Quanto tempo está aqui?

Joe Collins deu uma risada.

— Um de cada vez, meus caros e novos amigos, um de cada vez! — Tinha posto a bengala de lado para tirar o casaco, pôs seu peso sobre a perna ruim fez um chiado baixo e quase caiu. Teria caído se Roland não o tivesse segurado.

— Obrigado, obrigado, obrigado — disse Joe. — Não gosto de con-tar, mas não seria a primeira vez que ia dar de nariz neste chão de meleca! Bem, como tu me livrou de um tombo, vou responder primeiro à tua per-gunta. Tô aqui, o estranho Joe da Odd’s Lane, há uns 17 anos. E se num tô respondendo cum precisão bissoluta é porque teve uma época que o tem-po ficou bastante engraçado por aqui, se entende o que tô dizendo.

— Entendemos — disse Susannah. — Pode crer que nós entende-mos.

Collins estava agora tirando um suéter e embaixo dele havia outro. A primeira impressão de Susannah foi de um sujeito forte, que por pouco escapava da gordura. Depois ela viu que muito do que encarara como gor-dura era só enchimento. Claro que ele não era desesperadamente magro como a velha égua, mas estava a muitas léguas de gorducho.

— Quanto ao Gago Bill — o velho continuou, removendo o segundo suéter —, ele é um robô. Limpa a casa tão bem quanto conserva meu ge-rador funcionando... e, é claro, é ele quem faz o trabalho com o arado. Da primeira vez que cheguei aqui, ele só gaguejava de vez em quando; agora é a cada segunda ou terceira palavra. Não sei o que vou fazer quando ele pi-far de vez. — Aos ouvidos de Susannah, Collins parecia singularmente despreocupado quanto a isso.

— Talvez ele melhore, agora que o Feixe está de novo funcionando bem — disse ela.

— Pode durar um pouco, mas duvido como diabo que tenha alguma melhora — disse Joe. — Máquinas não se curam do mesmo modo como as coisas vivas. — Finalmente ele alcançou o último agasalho e aí o strip-tease parou. Susannah achou ótimo. Olhar para as vigas das costelas da égua, um tanto fantasmagóricas, tão próximas sob o curto pêlo cinza, já fora sufici-ente. Não tinha a menor vontade de ver também as do dono.

— Tirem os casacos e as perneiras — disse Joe. — Vou fazer suas gemadas ou o que mais quiserem num minuto ou dois, mas primeiro quero mostrar minha sala, que é meu orgulho, pois é.

 

SEIS

Havia um tapete artesanal, de tiras, no chão da sala bem no estilo da casa da avó Holmes e uma poltrona reclinável com uma mesinha do lado. Na mesa, um monte de revistas, livros, óculos e uma garrafa marrom contendo só Deus sabia que tipo de medicamento. Havia uma televisão, embora Su-sannah não pudesse imaginar o que o velho Joe poderia ver nela (Eddie e Jake teriam reconhecido o videocassete na prateleira de baixo). Mas o que captou toda a atenção de Susannah — e também a de Roland — foi a foto numa das paredes. Fora afixada ali por um percevejo, ligeiramente de lado, uma maneira descuidada que parecia (pelo menos aos olhos de Susannah) quase sacrílega.

Era uma foto da Torre Negra.

O fôlego a desertou. Ela se fez chegar perto, mal sentindo os nós e fios do tapete sob as palmas das mãos. Ergueu os braços.

— Roland, me levanta!

Ele obedeceu e Susannah reparou que o rosto dele ficara tremenda-mente pálido, exceto por dois severos círculos de cor queimando nas finas bochechas. Seus olhos estavam em brasa. A Torre se destacava contra o céu que escurecia, o pôr-do-sol pintando de alaranjado as colinas ao fundo, as janelas muito estreitas subindo em sua eterna espiral. De algumas daque-las janelas derramava-se um clarão mortiço e feérico. Ela podia ver as saca-das se projetando das pedras negras dos muros a cada dois ou três andares e também as portas atarracadas que se abriam para elas, todas fechadas. Trancadas, ela não tinha dúvidas. Diante da Torre havia o campo de rosas, Can’-Ka No Rey, já pouco iluminado mas ainda lindo nas sombras. A mai-oria das rosas estavam fechadas contra a chegada da noite, mas algumas ainda espreitavam como olhos sonolentos.

— Joe! — disse ela. A voz foi pouco mais que um sussurro. Ela expe-rimentou uma sensação de fraqueza e teve a impressão de poder ouvir vo-zes que cantavam, longe e baixo. — Oh, Joe! Esta imagem...!

— Ié, dona — disse ele, claramente satisfeito com a reação de Susan-nah. — É uma boa foto, não é? Foi por isso que a pendurei aí. Tenho ou-tras, mas esta é a melhor. Bem no pôr-do-sol, por isso a sombra parece se estender ao longo do Caminho do Feixe Luminoso. O que de certo modo acontece, como tenho certeza que vocês dois devem saber.

A respiração de Roland junto ao ouvido direito de Susannah era rápi-da e irregular, como se ele tivesse acabado de disputar uma corrida, mas Susannah mal reparava. Porque não era apenas o tema da fotografia que a enchera de assombro.

— Foi batida com uma Polaroid.

— Bem... ié — disse ele, parecendo tão confuso quanto ela empolga-da. — Acho que o Gago Bill podia ter me trazido uma Kodak se eu pedis-se uma, mas como eu ia revelar o filme? E quando pensei numa câmera de vídeo... pois a traquitana embaixo da TV toca o que essas câmeras filmam... eu já estava velho demais para voltar e aquela égua também já está velha demais para me carregar. Mas eu ia mais uma vez se pudesse, pruquê lá é fascinante, um lugar de fantasmas generosos. Ouvi cantar as vozes de ami-gos há muito desaparecidos; inclusive as de minha mãe e meu pai. Eu sem...

Uma paralisia tinha tomado conta de Roland. Susannah percebera is-so pela imobilidade de seus músculos. Então a coisa se rompeu e ele se desviou tão depressa da foto que atordoou Susannah.

— Esteve lá? — ele perguntou. — Esteve na Torre Negra?

— De fato estive — disse o velho. — Pois quem você acha que tirou esta fotografia? O porra de Angel Adams?∗

— Quando tirou a foto?

— Esta foi na minha última viagem — disse ele. — Há dois anos, no verão... É terra baixa, como você deve saber. Nunca tive notícia de que a neve tivesse chegado lá.

— Qual a distância daqui?

Joe fechou o olho ruim e calculou. Não demorou muito tempo, mas para Roland e Susannah pareceu demorar, demorar demais. Lá fora o vento soprava com força. A velha égua relinchou como se reclamasse do som. Atrás da janela de beiradas com gelo, a neve que caía começou a rodopiar, a dançar.

— Bem — disse ele —, vocês já estão na decida agora e o Gago Bill conserva limpa a estrada da Torre até onde vocês precisam ir; com o que mais, afinal, o velho motor daquela geringonça ia passar o tempo? Claro que vão querer esperar por aqui até que este bafo soprando do nordeste se cansar de vez...

— Quanto tempo depois que nos pusermos a caminho? — Roland perguntou.

— Nervoso pra ir, num é? Ié, quente e nervoso, e por que não, pois se vieram do Mundo Interior devem ter levado muitos e muitos anos para chegar aqui. Nem quero pensar quantos, eu não. Vamos dizer que podem levar seis dias para sair das Terras Brancas, talvez sete...

— Chama essas terras de Empática? — Susannah perguntou.

Ele piscou, depois dispensou-lhe uma olhadela confusa.

— Ora não, madame... Nunca ouvi chamarem esta parte da criação de outra coisa a não ser de Terras Brancas.

O olhar de confusão era falso. Susannah tinha quase certeza. O velho Joe Collins, simpático como um Papai Noel num playground, simplesmen-te estava mentindo. Não sabia muito bem por que e, antes que pudesse pensar melhor, Roland pediu asperamente:

 

* Fotógrafo norte-americano, especialista em fotos da natureza. (N. da E.)

— Não pode adiar provisoriamente este assunto? Não pode, pelo amor de seu pai?

— Sim, Roland — ela respondeu docilmente. —É claro.

Roland tornou a se virar para Joe, ainda segurando Susannah em seu quadril.

— Podem levar até uns nove dias, eu acho — disse Joe, coçando o queixo —, pois às vezes essa estrada é bastante escorregadia, especialmente depois das passadas de Bill pela neve, mas você não consegue fazê-lo parar. Ele tem ordens a cumprir. Seu programa, como diz. — O velho viu Roland se preparando para falar e levantou a mão. — Naum, naum, não estou pu-xando isto para desanimá-lo, senhor, sai ou como preferir ser chamado... Entenda que não estou muito acostumado a ter a companhia de outras pessoas.

E ele continuou:

— Assim que ultrapassar o limite da neve deverá ter ainda de dez a 12 dias de caminhada, mas de jeito nenhum vai ser preciso andar, a não ser que vocês queiram. Existe outro daqueles galpões da Positronics ali embai-xo e dentro dele há alguns veículos com rodas. Parecidos com carrinhos de golfe, é. As baterias estão todas descarregadas, naturalmente... claro como neve... mas no galpão existe também um gerador, Honda como o meu, e estava funcionando da última vez que estive lá, pois Bill se esforça ao má-ximo para manter as coisas em ordem. Se conseguirem carregar um carri-nho, ele poderia encurtar até em quatro dias a jornada. Aqui está o que eu acho: se tivessem de andar a pé todo o caminho, acabariam levando 19 di-as. Se puderem fazer o último trecho numa daquelas rons-rons... é como eu as chamo, rons-rons, pois é o barulho que fazem quando estão andan-do... vão levar uns dez dias. Talvez 11.

A sala ficou em silêncio. O vento soprava com força, atirando neve contra a parede do chalé, e Susannah mais uma vez reparou que a rajadas estavam quase soando como um grito humano. Um truque dos ângulos dos beirais, sem dúvida.

— Menos de três semanas, mesmo se tivéssemos de caminhar — dis-se Roland. Ele estendeu a mão para a foto Polaroid da sombria torre de pedra contra o céu do crepúsculo, mas não chegou a tocá-la. Susannah a-chou que era como se tivesse medo de encostar a mão. — Após todos a-queles anos e todos aqueles quilômetros.

Para não mencionar os galões de sangue derramado, Susannah pensou, mas não teria dito isso mesmo se os dois estivessem sozinhos. Não era preciso; Roland sabia como ela quanto sangue fora derramado. Ali, no entanto, ha-via algo fora de tom. Fora de tom ou frontalmente errado. E o pistoleiro não parecia dar-se conta disto!

Simpatia era respeitar as sensações do outro. Empatia era de fato com-partilhar essas sensações. Por que as pessoas chamariam uma terra de Em-pática?

E por que aquele agradável senhor mentiria a respeito de Empática?

— Me diga uma coisa, Joe Collins... — Roland começou.

— Ié, pistoleiro, se eu puder.

— Esteve mesmo lá, pertinho? Já pousou a mão na pedra dela?

O velho se virou para ver se Roland estava caçoando dele. Quando teve certeza de que não era esse o caso, pareceu chocado.

— Não — disse, e pela primeira vez pareceu tão americano quanto a própria Susannah. — Não tive coragem de ultrapassar o ponto onde bati esta foto. O começo do campo de rosas. Acho que estive a 200 ou 250 me-tros de distância. O que o robô chamaria quinhentos arcos de roda.

Roland abanou a cabeça.

— E por que não? — perguntou.

— Porque achei que poderia morrer se chegasse mais perto, mas não conseguiria parar. As vozes iam me obrigar a seguir. Foi o que pensei na-quele momento e é o que continuo pensando hoje.

 

SETE

Após o jantar — certamente a mais fina refeição que Susannah já tivera desde que fora seqüestrada e levada para aquele outro mundo; talvez a me-lhor que já tivera em toda a sua vida — a ferida em seu rosto estourou. Em certo sentido, fora culpa de Joe Collins, mas inclusive mais tarde, quando já tinham muitas acusações contra o único habitante de Odd's Lane, ela não o censurou por isso. Era a última coisa que ele ia querer, sem dúvida.

Ele serviu galinha assada até o ponto certo, especialmente saborosa após tanta carne de cervo. Juntamente com ela, Joe levou para a mesa purê de batatas com molho, geléia de ovicoco cortada em grossos discos verme-lhos, ervilhas (“só em lata, e eu digo perdão”, ele disse) e uma travessa de pequenas cebolas cozidas num molho de creme de leite. Havia também gemada. Roland e Susannah beberam com avidez infantil, embora recusas-sem a “mijadinha de rum”. Oi teve seu próprio jantar; Joe arranjara para ele um prato de galinha e batatas, que pousou no chão, ao lado do fogão. Oi deu conta rapidamente da comida e se esticou na passagem entre a co-zinha e o combinado living/sala de jantar, lambendo os beiços. Queria a-proveitar o gosto de cada migalha de frango retida no molho que ensopava seus bigodes enquanto, de orelhas em pé, observava os humos.

— Eu não conseguiria comer a sobremesa, portanto não me ofereça — disse Susannah quando acabou de limpar o prato pela segunda vez, ab-sorvendo os restos do molho com um pedaço de pão. — Nem sei se vou conseguir sair desta cadeira.

— Tudo bem com a sobremesa — disse Joe, parecendo desapontado —, quem sabe mais tarde... Tenho um pudim de chocolate e um de cara-melo.

Roland levantou o guardanapo para abafar um arroto.

— Consigo comer uma gotinha de cada, eu acho.

— Bem, vamos lá, talvez eu também consiga — Susannah concedeu. Quantas eras tinham transcorrido desde a última vez que sentira o gosto de caramelo?

Quando acabaram com o pudim, Susannah se ofereceu para ajudar a lavar a louça, mas Joe dispensou-a com um aceno de mão, dizendo que iria colocar as panelas e os pratos num lava-louças para tirar o gosto e, mais tarde, ele ia lavar “a turma toda”. Susannah achou-o mais ágil de movimen-tos ao vê-lo entrar e sair da cozinha com Roland, menos dependente da bengala. Achou que a mijadinha de rum (ou talvez várias delas, coroadas por uma grande mijada no final da refeição) pudesse ter tido algo a ver com isso.

O homem serviu café e os três (quatro, contando Oi) se sentaram na sala. Ficava cada vez mais escuro e o vento gritava mais alto que nunca. Mordred está em algum lugar lá fora, acampado numa fenda entre montes de neve ou no meio de um pequeno bosque, ela pensou e, mais uma vez, teve de sufocar um sentimento de pena. Seria mais fácil se não soubesse que, assassino ou não, ele ainda devia ser uma criança.

— Conte-nos como chegou aqui, Joe — Roland pediu.

Joe riu.

— É uma história de arrepiar os cabelos — disse ele —, mas se quiser mesmo ouvir, acho que não me importo em contar. — O riso se abrandou num sorriso pensativo. — É bom ter pessoas com quem conversar um pouco. Lippy é boa ouvinte, mas nunca diz absolutamente nada.

Começara tentando ser professor, disse Joe, mas logo descobriu que aquela vida não era para ele. Gostava das crianças — na realidade as adora-va —, mas detestava toda a porcaria burocrática e o modo como o sistema era posto em movimento para garantir que nada quadrado escapasse do implacável processo de arredondamento. Bastaram três anos para que pa-rasse de lecionar e entrasse no show business.

— Você cantava ou dançava? — Roland quis saber.

— Nem uma coisa nem outra — Joe respondeu. — Mas levei para eles o velho bufão.

— Bufão?

— Está querendo dizer que era comediante — disse Susannah. — Contava piadas.

— Exato! — disse Joe animadamente. — Algumas pessoas achavam mesmo que eram engraçadas. Claro que eram a minoria.

Conseguira um agente cuja empresa anterior, uma loja de desconto de roupas masculinas, tinha ido à falência. Uma coisa levou a outra, ele disse, e uma apresentação também levou a outra. Finalmente ele se viu trabalhando em boates de segunda e terceira classes de costa a costa, dirigindo uma ve-lha, mas confiável picape Ford e indo para onde Shantz, seu agente, o mandava. Quase nunca trabalhava nos finais de semana; nos fins de sema-na, mesmo as boates de terceira classe preferiam contratar bandas de rock-and-roll.

Isto foi no final dos anos 60 e início dos 70 e não havia falta do que Joe chamou “material de noticiário”: hippies, contestadores, queimadoras de sutiãs e Panteras Negras, astros de cinema e, como sempre, a política — mas ele disse que fora mais um humorista tradicional voltado para as pia-das. Que Mort Sahl e George Carlin cuidassem, se quisessem, do noticiá-rio; Collins se manteria fiel a falando de minha sogra e dizem que nossos amigos poloneses são tolos mas deixe que eu lhe conte sobre a moça irlandesa que conheci.

Durante sua narrativa, uma coisa estranha (e — ao menos para Su-sannah — um tanto comovente) aconteceu. O sotaque do Mundo Médio de Joe Collins, com seus iés e iás, começou a se fundir num sotaque que ela só podia identificar como do Americano Esperto. Ficou esperando ouvir a pronúncia nova-iorquina, tipo boid em vez de bird, hoid em vez de heard, mas achou que isso acontecia porque havia passado muito tempo com Eddie. Imaginava Joe Collins como um daqueles papagaios naturais cujas vozes são a versão auditiva de Silly Putty, captando impressões e deixando que elas se dissipassem com a mesma rapidez com que subiam à superfície. Bird numa boate do Brooklyn provavelmente ia soar como boid e heard como hoid; em Pittsburgh seria burrd e hurrd; o supermercado Giant Eagle, Águia Gigante, se tornaria djont iguil.

Roland interrompeu-o pouco depois para perguntar se um comedian-te era como um bobo da corte e o velho riu com vontade.

— Acertou. Basta imaginar um punhado de gente sentada num salão enfumaçado com bebidas na mão em vez do rei e seus cortesãos.

Roland abanou a cabeça, sorrindo.

— Mas há vantagens em ser um sujeito engraçado fazendo shows em boates do Meio-Oeste — disse ele. — Se você fracassar em Dubuque, o mínimo que pode acontecer é se apresentar por vinte minutos em vez de 45 e depois sair para a próxima cidade. Há provavelmente lugares no Mundo Médio onde cortariam a porra da sua cabeça se você contaminasse demais a espelunca!

Nisto o pistoleiro explodiu numa risada, um som que ainda tinha o poder de sobressaltar Susannah (embora ela também estivesse rindo).

— Você diz a verdade, Joe.

No verão de 1972, Joe estivera se apresentando numa boate chamada Jango’s, em Cleveland, não longe do gueto. Roland tornou a interrompê-lo, desta vez querendo saber o que era o gueto.

— No caso de Hauck — disse Susannah —, se refere a uma parte da cidade onde a maior parte das pessoas são negras e pobres e os policiais têm o hábito de sacudir primeiro os cacetetes e perguntar depois.

— Bingo! — Joe exclamou, batendo com os nós dos dedos no alto da cabeça. — Nem eu poderia ter dito melhor!

De novo aquele estranho som de choro de bebê na frente da casa, mas agora o vento estava em relativa calma. Susannah olhou de relance para Roland, mas se o pistoleiro ouviu não deixou transparecer.

Foi o vento, Susannah disse a si mesma. O que mais poderia ser?

Mordred, a cabeça dela sussurrou a resposta. Mordred lá fora, congelando. Mordred morrendo lá fora enquanto estamos sentados aqui, tomando café quente.

Mas ela não disse nada.

Há duas semanas estava havendo problemas em Hauck, disse Joe, mas ele andara bebendo demais (“enchendo a cara” foi como colocou a coisa) e quase nem percebeu que o público, em sua segunda apresentação, tinha cerca de um quinto do tamanho da platéia no primeiro show.

— Diabo, estava mandando muito bem — disse ele. — Não posso dizer sobre os outros, mas estava me achando o máximo, rolando de rir.

Porque haviam atirado um coquetel Molotov pela janela da frente da boate (coquetel Molotov era um termo que Roland entendia) e, antes que al-guém tivesse tempo de dizer peguem minha sogra... por favor, o lugar estava tomado pelas chamas. Joe se mandara pelos fundos. Tinha quase conse-guido chegar à rua quando três homens (“todos muito negros, todos mais ou menos do tamanho dos atacantes da NBA”) o agarraram. Dois segura-ram; o terceiro deu os socos. Então alguém empunhou uma garrafa. E pam-pam, ele apagou! Ele havia acordado numa encosta verde, perto de uma cidade abandonada chamada Stone’s Warp, segundo as placas nos prédios vazios ao longo da rua Central. Para Joe Collins, lembrava o cená-rio de um faroeste depois de todos os atores terem ido para casa.

Foi mais ou menos nessa altura que Susannah concluiu que não esta-va acreditando muito na história de sai Collins. Era, sem a menor dúvida, divertida e, considerando que Jake fizera sua primeira entrada no Mundo Médio após ter sido atropelado e morto quando estava a caminho da esco-la, não era de todo implausível. Mesmo assim ela não estava acreditando muito. Bem, mas será que isso tinha importância?

— Eu não podia chamar aquilo de céu porque não havia nuvens nem coro de anjos — disse Joe —, mas continuei achando que fosse algum tipo de vida após a morte.

Então havia perambulado sem destino. Encontrara comida, encontra-ra um cavalo (Lippy) e seguira adiante. Encontrara vários bandos errantes de pessoas, alguns amigáveis, outros não, alguns de boa estirpe, outros compostos de mutantes. Sem a menor dúvida ele havia absorvido alguns jargões e um pouco da história do Mundo Médio; certamente sabia sobre os Feixes e a Torre. A certa altura, tentara atravessar as Terras Áridas, mas ficara assustado e dera meia-volta quando sua pele começou a mostrar to-do tipo de ferida e mancha estranha.

— Peguei um furúnculo na bunda e essa foi a gota d’água — disse e-le. — Acho que aconteceu há uns seis ou oito anos. Eu e Lippy mandamos para o inferno a idéia de ir mais longe. Foi quando encontrei este lugar, que é chamado Volta do Oeste, e foi quando o Gago Bill me encontrou. Ele sabe alguma coisa de medicina e garfou o furúnculo que eu tinha na bunda.

Roland quis saber se Joe havia visto o Rei Rubro passar por ali na úl-tima peregrinação do maluco à Torre Negra. Joe disse que não, mas que seis meses atrás tinha havido uma terrível tempestade (“um tremendo pé d’água”) e ele achou melhor ir para o porão. Enquanto estava lá, acabara a luz, independentemente da geradora, e Joe, encolhido no escuro, tivera a sensação de que havia alguma terrível criatura por perto e que, a qualquer momento, ela poderia tocar sua mente e seguir cada um de seus pensamen-tos para descobrir seu esconderijo.

— Sabem como me senti? — perguntou.

Roland e Susannah balançaram negativamente as cabeças. Oi fez a mesma coisa, numa imitação perfeita.

— Salgadinho — disse Joe. — Me senti como um salgadinho em po-tencial.

Esta parte da história é verdadeira, Susannah pensou. Ele pode ter alterado alguns detalhes, mas no geral é verdadeira. E se Susannah teve razão para pensar assim foi meramente porque a idéia do Rei Rubro viajando com sua pró-pria tempestade portátil parecia terrivelmente plausível.

— O que você fez? — Roland perguntou.

— Fui dormir — disse Joe. — É um talento que sempre tive, como o de fazer imitações... embora eu não imite vozes famosas nos meus shows, porque isso não dá certo com os caipiras. A não ser que você seja Rich Lit-tle, ∗ pelo menos. Estranho, mas é verdade. Sei muito bem me obrigar a dormir e foi o que eu fiz lá embaixo no porão. Quando acordei de novo, a luz havia voltado e o... o seja-lá-o-que-fosse tinha ido embora. Já ouvi falar do Rei Rubro, é claro. De vez em quando ainda encontro gente... geral-mente nômades como vocês três... e as pessoas falam dele. Geralmente quando fazem isso juntam o indicador e o polegar fazendo o sinal contra o mau-olhado, e cospem entre os dedos. Acham que foi ele, hum? Acham que o Rei Rubro realmente passou por Odd’s Lane a caminho da Torre. — E então, antes que um dos dois tivesse a chance de responder: — Bem, por que não? A estrada da Torre é, afinal, a estrada principal. E vai direto para lá.

* Comediante canadense que fez carreira nos EUA, conhecido por suas imitações de perso-nalidades. (N. da E.)

Você sabe que era ele, Susannah pensou. Qual é o jogo, Joe?

O choro baixo, que sem a menor dúvida não era o barulho do vento, foi ouvido de novo. Mas ela também já não achou que fosse Mordred. A-chou que podia estar vindo do porão onde Joe se escondera do Rei Ru-bro... ou pelo menos fora o que ele contara. Quem estava lá embaixo ago-ra? E esse alguém estava se escondendo, como Joe se escondera, ou seria um prisioneiro?

— Não tem sido uma vida ruim — Joe estava dizendo. — Não foi, de nenhum modo ou tamanho, a vida que eu esperava, mas tenho uma te-oria... As pessoas que de fato conseguem viver as vidas que esperavam ter em geral são as mesmas que vão acabar tomando soníferos ou enfiando o cano de um revólver na boca e puxando o gatilho.

Roland parecia estar ainda algumas voltas atrás.

— Você era o bobo e os fregueses dessas estalagens eram a corte — disse ele.

Joe sorriu, mostrando um monte de dentes brancos. Susannah franziu a testa. Era a primeira vez que estava vendo os dentes dele? Deram muita risada, e já os devia ter visto, mas não conseguia se lembrar se vira ou não. Certamente Joe não tinha a fala de mingau de quem já tivesse perdido a maioria dos dentes (pessoas assim tinham freqüentemente se consultado com o pai dela, a maioria querendo colocar dentes postiços). Se lhe pedis-sem para adivinhar ela teria dito que Joe tinha dentes, mas reduzidos a pe-quenos espetos, tocos e...

E qual é o problema com você, garota? Ele pode estar mentindo sobre algumas coisas, mas certamente não ganhou uma arcada de dentes novos desde que você se sentou para jantar! Está deixando se levar pela imaginação.

Estava? Bem, era possível. E aquele choro baixo, afinal, talvez não passasse do barulho do vento nos beirais da frente da casa.

— Eu ouviria algumas de suas piadas e histórias — disse Roland. — Como você contava na estrada, se não se importa.

Susannah olhou atentamente para o pistoleiro, se perguntando se não haveria alguma motivação oculta naquele pedido, mas ele parecia genuina-mente interessado. Mesmo antes de ver a foto da Torre Negra afixada na parede do living (seus olhos voltavam constantemente a ela enquanto Joe contava sua história), Roland fora tomado por uma espécie de vibrante jovialidade que, sem a menor dúvida, não era muito típica dele. Era quase como se tivesse ficado doente, entrando e saindo de um estado de delírio.

Joe Collins pareceu surpreso com o pedido do pistoleiro, mas de mo-do algum contrariado.

— Bom Deus — disse ele. — Tenho impressão de ter feito minha úl-tima apresentação há mil anos... e considerando o modo como o tempo se esticou por aqui, lá atrás, talvez tenha sido mesmo há mil anos. Não tenho certeza se saberia como começar.

Susannah se surpreendeu dizendo:

— Tente.

 

OITO

Joe pensou um pouco e se levantou sacudindo algumas migalhas que ti-nham sobrado em sua camisa. Cambaleou para o centro da sala, deixando a bengala encostada na cadeira. Oi ergueu os olhos para ele com as orelhas empinadas e o velho sorriso largo no focinho, como se na expectativa da diversão que viria. Por um momento Joe pareceu em dúvida. Então respi-rou fundo, deixou sair o ar e mostrou a eles um sorriso.

— Prometam que não vão me atirar tomates se eu contaminar a espe-lunca — disse ele. — Lembrem-se de que já foi há muito tempo.

— Não vamos lhe atirar nada depois que nos deu abrigo e alimento — disse Susannah. — Jamais faríamos isso.

Roland, sempre literal, completou:

— Além disso não temos tomates.

— Certo, certo. Mesmo que haja alguns tomates enlatados na despen-sa... Esqueçam o que eu disse!

Susannah sorriu. Roland também.

Encorajado, Joe começou:

— Tudo bem, vamos voltar àquele lugar mágico chamado de Jango’s, àquela cidade mágica que alguns habitantes locais chamavam de “burrada à beira do lago”. Cleveland, Ohio, em outras palavras. Segundo show. Aque-le que não consegui acabar e eu estava mandando muito bem, acreditem. Me dêem só um segundo...

Fechou os olhos. Parecendo se concentrar. Quando tornou a abri-los, pareceu de alguma forma dez anos mais novo. Foi assombroso. E quando começou a falar não apenas soava como americano; também parecia ameri-cano. Susannah não poderia ter colocado isso em palavras, mas sabia que era verdade: ali estava um Joe Collins made in EUA.

— Olá, senhoras e senhores, bem-vindos a Jango’s! Eu sou Joe Col-lins e vocês não são!

Roland deu uma risadinha e Susannah sorriu, principalmente para se mostrar agradável — era uma entrada das mais batidas.

— O gerente daqui me pediu para lembrar a vocês que hoje é uma noite de duas cervejas por um dólar. Sacaram? Bom. Pra ele o lucro é o motor da coisa e comigo é interesse próprio. Porque quanto mais vocês beberem, mais graça vou ter.

Susannah deu um largo sorriso. Havia um ritmo para o humor, até ela sabia disso, mesmo sendo que ela jamais teria conseguido ficar sequer cin-co minutos na frente da barulhenta multidão de uma casa noturna, nem que sua vida dependesse disso. Havia um ritmo e, após um começo meio incerto, Joe encontrava o dele. Seus olhos estavam semicerrados; Susannah achava que ele via as cores misturadas das luzes no palco (assim como as cores do Arco-íris do Mago, pensando bem) e sentia o cheiro da fumaça de cinqüenta cigarros. Uma das mãos segurando o cabo cromado do microfo-ne; a outra livre para fazer uma infinidade de gestos. Joe Collins se apre-sentando no Jango’s numa noite de sexta-feira...

Não, não uma sexta-feira. Ele disse que todos os clubes contratavam bandas de rock-and-roll nos finais de semana.

— E apesar de toda aquela coisa da burrada-à-beira-do-lago, Cleve-land é uma bela cidade — disse Joe. Agora ele estava acelerando. Come-çando a embalar, Eddie poderia ter dito. — Meus pais são de Cleveland, mas quando fizeram 70 se mudaram para a Flórida. Não queriam, mas por-ra, é a lei. Bingo! — Joe bateu de leve com os nós dos dedos na cabeça e fez olhar de vesgo. Roland tornou a rir, embora não pudesse ter a menor idéia de onde ficava (ou sequer do que era) a Flórida. O sorriso de Susan-nah estava maior do que nunca.

— A Flórida é um lugar do outro mundo — disse Joe. — Do outro mundo. Lar dos recém-casados e dos quase mortos. Meu avô se aposentou na Flórida, que Deus fique com sua alma! Quando eu morrer, quero ir pa-cificamente, durante o sono, como Fred, meu avô. Não gritando, como as pessoas que ele levava no carro.

Com essa Roland deu uma gargalhada e Susannah também. O sorriso de Oi foi maior do que nunca.

— Minha avó, ela também era incrível. Dizia que tinha aprendido a nadar quando alguém a levou para o rio Cuyahoga e atirou-a para fora do barco. Eu disse: “Ei, vovó, eles não estavam tentando ensinar você a na-dar.”

Roland deu uma risada, limpou o nariz, depois deu outra risada. A cor tinha brotado em suas faces. O riso acelerava todo o metabolismo da pes-soa, quase a colocando do mesmo jeito que uma situação onde a pessoa tem que decidir se vai lutar ou fugir; era o que Susannah tinha lido em al-gum lugar. O que significava que o dela também devia estar se acelerando, porque também estava rindo. Era como se todo o horror e a mágoa esti-vessem jorrando de uma ferida aberta, jorrando como...

Bem, como sangue.

Ouviu um fraco sino de alarme começando a tocar, bem atrás de sua mente, e o ignorou. O que havia ali para causar alarme? Estavam rindo, pelo amor de Deus! Estavam se divertindo!

— Posso falar sério por um minuto? Não? Bem, vá tomar no olho do seu cu com o pangaré em que você montou... Amanhã quando eu acordar vou estar sóbrio, mas você vai continuar feio. E careca.

(Roland deu uma gargalhada.)

— Vou falar sério, OK? Se não gostar, enfie-o onde você mantém seu porta-moeda. Minha vovó era uma grande dama. Em geral as mulheres são incríveis, não é? Mas elas têm suas imperfeições, exatamente como os homens. Se uma mulher tem de escolher entre pegar uma bola de beisebol e salvar a vida de um bebê, por exemplo, ela vai salvar o bebê, pouco se importando em saber quantos pontos o time vai deixar de marcar. Bingo! — Bateu na cabeça com os nós dos dedos e arregalou os olhos de um mo-do que fez os dois rirem. Roland tentou pousar a xícara, mas acabou der-ramando o café. Estava segurando a barriga. Ouvi-lo rir daquele jeito (ren-der-se tão completamente ao riso) era em si mesmo engraçado, e Susannah também teve outra explosão de riso.

— Homens são uma coisa, mulheres outra. Coloque-os juntos e vo-cês terão um sabor inteiramente novo. Como biscoitos Negresco. Como manteiga de amendoim. Como bolo com passas com caldo de meleca. Dê-em-me um homem e uma mulher e mostrarei a vocês aquela instituição perversa... não a escravidão, o casamento. Mas eu me repito. Bingo! — Ba-teu na cabeça. Arregalou os olhos. Desta vez eles pareceram que iam mes-mo saltar das órbitas

(mas como ele faz isso)

e Susannah teve de agarrar o estômago, que estava começando a doer com a força do riso. E as têmporas estavam começando a martelar. Doía, mas era uma dor gostosa.

— Casamento é ter uma esposa ou um marido. Pois é! Verifique no Webster’s! Bigamia é ter uma esposa ou marido a mais. E bem, monogamia é a mesma coisa. Bingo!

Se Roland risse com mais força, Susannah pensou, ia escorregar da cadeira e cair na mancha do café derramado.

— Então há o divórcio, um termo latino que significa “arrancar as bolas de um homem pela carteira de dinheiro.”

“Mas eu estava falando sobre Cleveland, estão lembrados? Vocês sa-bem como Cleveland começou? Com um monte de gente em Nova York dizendo: ‘Puxa, estou começando a gostar do crime e da pobreza, mas gos-taria de um pouco mais de frio. Vamos para o oeste.’”

O riso, Susannah refletiria mais tarde, é como um furacão: assim que atinge um certo ponto, torna-se auto-suficiente, auto-alimentado. Você ri não porque as piadas sejam engraçadas mas porque sua própria condição é engraçada. Joe Collins levou-os até aquele ponto com a próxima tirada.

— Ei, se lembram da escola primária? Disseram que, em caso de fo-go, vocês deviam entrar calmamente em fila. Os mais baixos na frente e os mais altos no final da fila. Qual é a lógica disso? Será que as pessoas mais altas queimam mais devagar?

Susannah soltou uma risada estridente e deu um tapa na própria face. Isto produziu um súbito e inesperado surto de dor que escoou de imediato todo o riso de dentro dela. A ferida ao lado da boca estava crescendo de novo, mas há dois ou três dias não sangrava. Quando, inadvertidamente, Susannah a atingiu com o movimento da mão, a ferida perdeu a crosta vermelho-escura que a cobria. A coisa, então, não apenas sangrou; ela esgui-chou.

Por um momento Susannah não teve consciência do que acabara de acontecer. Só sabia que o tapa do lado do rosto doera muito mais do que devia ter doído. Joe também parecia inconsciente (seus olhos estavam de novo quase inteiramente fechados), tinha de estar inconsciente, pois falava mais depressa que nunca.

— Ei, e sobre aquele restaurante de frutos do mar que abriram no Sea World? Quando eu já tinha acabado metade do meu hambúrguer de peixe me perguntei se não estava comendo um mau aluno! Bingo! E por falar de peixe...

Oi latiu alarmado. Susannah sentiu um calor súbito e úmido descendo pelo lado do pescoço e entrando no ombro.

— Pare, Joe — disse Roland parecendo sem fôlego. Sem forças. De tanto rir, Susannah apostava. Ah, mas o lado de seu rosto doía e...

Joe abriu os olhos, parecendo irritado.

— Por quê? Jesus Cristo, você pediu e estou dando o que você pediu!

— Susannah se feriu. — O pistoleiro estava de pé olhando para ela, o riso cedendo à preocupação.

— Não estou ferida, Roland, só me esbofeteei no lado do rosto com um pouco mais de força do que... — Então Susannah olhou para a mão e ficou consternada ao ver que ela estava usando uma luva vermelha.

 

NOVE

Oi tornou a latir. Roland pegou o guardanapo que estava ao lado da xícara virada. Uma ponta estava marrom, ensopada com café, mas a outra estava seca. Ele a apertou contra a ferida jorrando sangue e Susannah se esquivou do toque, os olhos se enchendo de lágrimas.

— Não! Deixe que pelo menos eu faça parar de sangrar — Roland murmurou agarrando a cabeça dela, introduzindo suavemente os dedos na apertada camada de seus caracóis de cabelo. — Fique quieta. — Para não contrariá-lo, ela conseguiu ficar parada.

Através dos olhos lacrimejantes Susannah achou que Joe ainda pare-cia irritado por ela ter interrompido seu número de comediante de forma tão drástica (para não dizer grosseira) e, em certo sentido, Susannah enten-dia sua reação. Joe estava realmente fazendo um bom trabalho; ela estraga-ra tudo. Fora a dor, que agora estava diminuindo um pouco, sentia-se ter-rivelmente sem graça. Lembrou-se do tempo em que tivera a primeira menstruação durante uma aula de educação física e um filete de sangue escorrera pela sua coxa diante de todo mundo — pelo menos diante da turma com quem compartilhava a aula do terceiro período. Algumas garo-tas tinham começando a entoar: TAMPE-SE!, como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.

Misturado a essa memória, havia medo com relação à ferida. E se fos-se câncer? Até então Susannah conseguira sempre repelir a idéia antes que ela chegasse a se articular em sua mente. Desta vez não conseguira. E se tivesse se dado um câncer de presente durante aquela jornada pelas Terras Áridas?

Seu estômago deu um nó, depois teve ânsias. O ótimo jantar continu-ava lá dentro, mas talvez não por muito tempo.

De repente ela quis ficar sozinha, precisou ficar sozinha. Se ia vomitar, não queria fazê-lo na frente de Roland e daquele estranho. Mesmo se não fosse vomitar, queria algum tempo para voltar a se sentir sob controle. Uma rajada de vento forte o bastante para sacudir todo o chalé passou roncando como avião em pleno vôo; as luzes oscilaram e o estômago de Susannah deu novamente um nó ante o enjoativo movimento das sombras na parede.

— Tenho de ir... ao banheiro... — ela conseguiu dizer. Por um mo-mento o mundo oscilou, mas logo tornou a se firmar. Na lareira uma tora de madeira explodiu, atirando uma rajada de centelhas rubras na chaminé.

— Tem certeza? — Joe perguntou. Não estava mais zangado (se é que de fato estivera), mas a contemplava com um ar de dúvida.

— Deixe que vá — disse Roland. — Ela precisa se recompor um pouco, eu acho.

Susannah começou a lhe dispensar um sorriso de gratidão, mas isso mexeu com a ferida, que começou novamente a sangrar. Ela não sabia o que poderia mudar no seu futuro imediato graças àquela estúpida ferida que não cicatrizava, mas sabia que, durante algum tempo, não deveria mais ouvir piadas. Iria precisar de uma transfusão se continuasse a rir.

— Volto logo — disse. — E vocês, rapazes, deixem um pouco da-quela calda de baunilha para mim. — A própria idéia de comida a deixava nauseada, mas tinha de dizer alguma coisa.

— Com relação à calda não prometo nada — disse Roland. Então, quando ela começou a se virar: — Se sentir alguma tonteira pode me cha-mar.

— Chamo — disse ela. — Obrigada, Roland.