Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 89 de 93 · parte 2/3

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 3

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Levou-o até uma cadeira, sentou-o e disse:

— Agora fique aí e toque, hein?

Em seguida, como uma dona-de-casa que se prepara para atender as visitas após tomar providências domésticas, mostrou-me suas coisas: um bastidor em que estava bordando um lenço para o pai, uma grande boneca preta chamada Elvira, que de noite dormia na sua cama, e uma coleção de fotografias de atores e atrizes de cinema, presas na parede com tachinhas: Valentino vestido de xeque, Pola Negri, Gloria Swanson em Os dez mandamentos, William Duncan, Perla White. Conversamos sobre as qualidades e os defeitos de cada um e dos filmes em que trabalharam, enquanto Bebe repetia a mesma frase no clarinete. O preferido dela era Rodolfo Valentino; eu me inclinava mais para Eddie Polo, embora admitisse que Valentino era extraordinário. Quanto aos filmes, pronunciei-me calorosamente por O rastro do octopus, mas Georgina disse, e dei-lhe razão, que era terrível demais e que ela, nos momentos mais cruéis, olhava para o outro lado.

Bebe parou de tocar e nos olhava, com seus olhos febris.

— Toque, Bebe — ela disse mecanicamente, enquanto começava a bordar no bastidor.

Mas Bebe continuava me olhando, calado.

— Bem, então mostre a Bruno a sua coleção de figurinhas — admitiu.

Bebe ficou radiante e, largando o clarinete, entusiasmado, puxou uma caixa de sapatos que havia debaixo da cama.

— Mostre para ele, Bebe — ela repetiu, séria, sem tirar os olhos do bastidor, desse jeito mecânico que as mães têm para dar ordens aos filhos quando estão absortas em tarefas importantes do lar.

Bebe se pôs ao meu lado e me mostrou seu tesouro.

— Você tem o Onzari? — perguntei.

Davam-se até seis ou sete Bidoglio por um Onzari.

— Claro que tenho — disse-me, e procurou-o.

Depois de mostrá-lo, me surpreendeu ao espalhar pelo chão times completos muito difíceis, como o dos escoceses.

De repente teve um acesso de tosse. Georgina largou o bastidor, foi até um armário e pegou um vidro de xarope Guyot. Congestionado e com os olhos lacrimejando, Bebe fez um gesto negativo com a mão, mas suavemente firme Georgina o fez engolir uma boa colherada.

— Se você não ficar bom, não vai poder tocar clarinete — disse-lhe.

Este foi meu primeiro encontro com Georgina, em sua casa. Eu ficaria espantado nos dois ou três encontros posteriores, quando, em presença de Fernando, ela se transformou num ser indefeso. O curioso é que nunca fui além daqueles dois quartos quase periféricos da casa (sem falar da experiência aterradora do Mirante, que já contarei) e do contato com aqueles três jovens, três criaturas tão diferentes e estranhas: uma menina deliciosa, muito delicada e feminina, mas subjugada por um ser infernal, um retardado mental ou algo do gênero, e um demônio. Dos outros moradores da casa tive informações incertas e esporádicas, mas nas poucas vezes em que lá estive não foi possível ver nada do que se passava entre as paredes da casa principal, e minha timidez daquele tempo me impediu de indagar de Georgina (a única a quem poderia perguntar) como eram e viviam seus pais, sua tia María Teresa e seu avô Pancho. Pelo visto, os adolescentes viviam com independência nas duas peças do fundo, sob o domínio de Fernando.

Anos mais tarde, por volta de 1930, conheci os outros moradores da casa e agora compreendo que, com personagens assim, tudo o que acontecesse ou deixasse de acontecer na casa da rua Río Cuarto era perfeitamente plausível. Creio ter lhe dito que todos os Olmos (com exceção, é claro, de Fernando e de sua filha, e pelos motivos que já mencionei) sofriam de uma espécie de irrealismo, davam a impressão de não participar da realidade brutal do mundo que os cercava: cada vez mais pobres, sem conseguir fazer nada de sensato para ganhar dinheiro ou, pelo menos, para manter os restos do patrimônio, sem senso de medida nem de política, vivendo num lugar que era foco de comentários irônicos e maledicentes dos parentes distantes, cada dia mais afastados de sua classe, os Olmos davam a impressão de ser o fim de uma velha família no meio do caos furioso de uma cidade cosmopolita e mercantilizada, dura e implacável. E conservavam, obviamente sem perceber, as velhas virtudes dos primeiros colonos europeus — rejeitadas pelas outras famílias —, como quem joga um lastro para não afundar: eram hospitaleiros, generosos, ingenuamente patriarcais, modestamente aristocráticos. E talvez a raiva dos parentes distantes e ricos decorresse em parte de não terem sabido conservar essas virtudes e entrado no processo de mercantilização e materialismo que o país começou a sofrer desde o fim do século xix. E, assim como certos culpados ficam com ódio dos inocentes, assim os pobres Olmos, ingênua e até comicamente isolados na velha quinta de Barracas, eram o destinatário da raiva dos parentes, por continuarem a viver num bairro agora plebeu, em vez de terem emigrado para o Barrio Norte ou para San Isidro, por continuarem tomando mate em vez de chá, por serem pobres e não terem onde cair mortos e por conviverem com gente modesta e sem berço. Se acrescentarmos que nos Olmos nada disso era deliberado e que todas essas virtudes — para os outros, taras revoltantes — eram praticadas com inocente simplicidade, é fácil compreender que a família foi para mim, como para outras pessoas, um símbolo comovente e melancólico de algo que ia desaparecendo do país para nunca mais voltar.

Naquela noite, ao sair da casa, quando estava prestes a cruzar o portão, meus olhos se viraram, não sei por quê, para o Mirante. A janela estava levemente iluminada e tive a impressão de entrever a figura de uma mulher espiando.

Hesitei muito em voltar: a presença de Fernando me detinha, mas a de Georgina me fazia sonhar e eu ansiava por revê-la. Meu espírito parecia dividido entre as duas forças contrárias, e não me decidia a retornar. Até que finalmente a vontade de rever Georgina foi mais forte. Nesse meio tempo, eu tinha refletido e voltava disposto a averiguar coisas, e, se possível, a conhecer os pais dela. “Talvez”, pensava para me animar, “Fernando não esteja.” Imaginava que teria amigos ou conhecidos, pois me lembrava da busca do exemplar de Tit-bits e de sua saída, que só podia atribuir a um encontro com outros garotos; e embora já o conhecesse o suficiente para intuir, mesmo na minha idade, que não podia ter amigos, era provável, em contrapartida, que mantivesse outro tipo de relação com os rapazes: mais tarde confirmaria essa suposição e, embora com reticência, Georgina me confessaria que seu primo chefiava um grupo de rapazes inspirado em certos seriados de cinema, como Os mistérios de Nova York e A moeda quebrada, grupo que tinha seus juramentos secretos, seus punhos de ferro e seus obscuros objetivos. Visto agora, a distância, aquele grupo me parece o ensaio geral do que houve mais tarde, por volta de 1930, quando organizou uma gangue de bandidos.

Ao meio-dia instalei-me na esquina da Río Cuarto com a Isabel, la Católica. Pensei: depois do almoço pode ser que ele saia, e se sair, mesmo sendo tarde, entrarei.

O senhor pode imaginar meu interesse em rever Georgina se lhe digo que esperei naquela esquina de uma da tarde às sete da noite, quando vi Fernando saindo e então corri pela Isabel, la Católica até quase a outra esquina, a uma distância suficientemente grande para poder me esgueirar caso ele pegasse a mesma rua, ou poder voltar para casa se o visse pegando direto por Río Cuarto. Assim foi: pegou direto. Então me precipitei para a casa.

Tenho certeza de que Georgina se alegrou em me ver. Aliás, tinha insistido para que eu voltasse.

Perguntei-lhe sobre sua família. Falou-me da mãe e do pai. Também da tia María Teresa, que vivia sempre anunciando doenças e catástrofes. E do avô Pancho.

— O que vive lá em cima — disse eu, mentindo, porque intuía que “lá em cima” se escondia um segredo.

Georgina me olhou com uma expressão de surpresa.

— Lá em cima?

— É, no Mirante.

— Não, o avô não vive ali — respondeu evasiva.

— Mas vive alguém — disse-lhe.

Tive a impressão de que se constrangia em responder.

— Acho que vi alguém lá, na outra noite.

— É Escolástica que vive lá — respondeu enfim, de má vontade.

— Escolástica? — perguntei espantado.

— É, antigamente punham nomes assim.

— Mas ela não desce nunca.

— Não.

— Por quê?

Encolheu os ombros.

Olhei-a atentamente.

— Acho que ouvi Fernando dizer alguma coisa.

— Alguma coisa? Sobre o quê? Quando?

— Sobre uma louca. Lá em Capitán Olmos.

Enrubesceu e baixou a cabeça.

— Ele lhe disse isso? Disse que Escolástica era louca?

— Não, disse alguma coisa sobre uma louca. É ela?

— Não sei se é louca. Nunca falei com ela.

— Nunca falou com ela? — perguntei, estranhando.

— Não, nunca.

— E por quê?

— Não lhe disse que ela não desce nunca?

— Mas e você nunca subiu?

— Não, nunca.

Fiquei olhando-a.

— Quantos anos tem?

— Oitenta e quatro anos.

— É sua avó?

— Não.

— Bisavó?

— Não.

— Então, quem é?

— É tia-avó do meu avô. Filha do comandante Acevedo.

— E desde quando vive lá em cima?

Georgina me olhou: sabia que eu não acreditava nela.

— Desde 1853.

— Sem nunca descer?

— Sem descer.

— Por quê?

Voltou a encolher os ombros.

— Acho que por causa da cabeça.

— Cabeça? Que cabeça?

— A do pai, a cabeça do comandante Acevedo. Jogaram-na pela janela.

— Pela janela? Quem?

— A Mazorca. Então ela fugiu com a cabeça.

— Fugiu com a cabeça? Para onde?

— Para lá, para o Mirante. E nunca mais desceu.

— E por isso é louca?

— Eu não sei. Não sei se é louca. Nunca subi.

— E Fernando também não subiu?

— Fernando, sim.

Nesse momento vi, com temor e desânimo, que Fernando voltava. Evidentemente, só dera uma saidinha rápida.

— Ah, você voltou! — limitou-se a me dizer, examinando-me com seus olhos penetrantes, como se tentasse averiguar quais teriam sido os motivos de minha nova visita.

Desde o instante em que seu primo entrou, Georgina se transformou. É possível que na outra vez meu nervosismo tivesse me impedido de perceber a influência que a presença de Fernando exercia sobre seu comportamento. Ficava muito tímida, não falava, seus movimentos eram mais pesados e, quando era obrigada a responder a uma pergunta minha, falava olhando de soslaio para o primo. Fernando, de seu lado, instalara-se na cama e de lá, deitado, roendo as unhas furiosamente, nos olhava. A situação ficou muito constrangedora, até que de repente ele sugeriu que, já que eu estava ali, inventássemos uma brincadeira, pois, disse, estava se aborrecendo. Mas seu olhar não mostrava aborrecimento, e sim algo que eu não conseguia identificar.

Georgina o olhou temerosa, mas logo baixou a cabeça, como esperando seu veredicto.

Fernando sentou-se na cama e parecia matutar, sempre olhando-nos e roendo as unhas.

— Onde está o Bebe? — perguntou afinal.

— Está com mamãe.

— Traga-o.

Georgina foi cumprir a ordem. Ficamos calados até que Bebe chegou com seu clarinete.

Fernando explicou a coisa: os três se esconderiam em lugares diferentes dos dois quartos, do depósito de lenha ou do jardim (já era noite). Eu teria de procurá-los e reconhecê-los, sem falar nem perguntar nada, só tateando os rostos.

— Para quê? — perguntei estupefacto.

— Depois eu explico. Se acertar, ganhará um prêmio — disse com um risinho seco.

Eu temia que estivesse caçoando de mim, como antigamente, em Capitán Olmos. Mas também temia me negar, pois nesses casos ele sempre deduzia que era por pura covardia, já que sabia que suas brincadeiras eram invariavelmente terríveis. Mas eu me perguntava o que poderia haver de terrível nesse caso. Mais parecia uma brincadeira cretina, algo para me expor grosseiramente ao ridículo. Olhei Georgina como que procurando em seu rosto uma indicação, um conselho. Mas Georgina já não era a mesma: o rosto lívido e os olhos arregalados demonstravam uma espécie de fascínio ou medo, ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Fernando mandou apagar as luzes, esconderam-se, e eu, aos tropeções, comecei a procurá-los. Logo, inocentemente sentado na cama, reconheci o Bebe. Mas Fernando já tinha estabelecido que deveria encontrar e reconhecer pelo menos duas pessoas.

Não tinha mais ninguém naquele quarto. Restava-me explorar o outro e o depósito. Cuidadosamente, tropeçando aqui e ali, percorri o quarto de Fernando, até que tive a impressão de ouvir, no silêncio, a respiração de um deles. Pedi a Deus que não fosse Fernando, pois, não sei por quê, achava abominável encontrá-lo assim no escuro. Com cautela, o ouvido apurado, continuei avançando para o lugar de onde parecia vir aquele sussurro apagado. Bati numa cadeira. Com os braços esticados para a frente, sempre tateando à esquerda e à direita, cheguei a uma parede: úmida, empoeirada, com o papel descolando. Toquei na parede, desviei à direita, para o lado de onde achei que vinha o eco apagado de uma respiração. Minhas mãos esbarraram primeiro num armário, depois meus joelhos bateram na cama de Fernando. Agachei-me e, apalpando, verifiquei se havia alguém deitado ou sentado, mas não encontrei ninguém. Continuando agora pela beira da cama, sempre para a direita, encontrei primeiro a mesa-de-cabeceira e novamente a parede descascada. Agora tinha certeza: a respiração se fazia mais nítida, transformava-se num arquejo levíssimo mas nervoso, certamente porque eu estava me aproximando. Uma emoção absurda agitava meu coração como se eu estivesse à beira de um segredo terrível. Fui avançando de forma quase insensível, muito lenta. Até que de repente minha mão direita tocou num corpo. Retirei-a como se tivesse encostado num ferro em brasa, pois percebi na mesma hora que era o corpo de Georgina.

— Fernando — disse em voz baixa, mentindo como que envergonhado.

Mas não tive resposta.

Estendi minha mão temerosa e ávida, mas levando-a à altura de seu rosto. Encontrei sua face e depois sua boca, que senti apertada e trêmula.

— Fernando — menti novamente, enrubescendo, como se pudessem me ver.

Não tive resposta e ainda hoje me pergunto por quê. Mas no momento achei que era como se ela me autorizasse a prosseguir a investigação, pois, se respeitasse as regras estipuladas por Fernando, já devia ter dito que eu estava enganado. Era como estar cometendo um roubo, mas um roubo autorizado pela vítima, o que até hoje me assusta.

Minha mão, lentamente, com trêmula hesitação, parou em sua face, percorreu seus lábios e olhos, num sinal de reconhecimento, como uma carícia envergonhada (já lhe disse que nesses dois anos Georgina tinha dado um pulo, e a adolescente começava a se parecer com Ana María?). Sua respiração ficou muito intensa, como se estivesse fazendo um grande esforço, agitada. A certa altura quase gritei “Georgina!”, para depois sair correndo, desesperado. Mas me contive e continuei com a mão em seu rosto, sem que ela nada fizesse para se afastar, numa atitude que talvez tenha originado minha esperança alucinada ao longo de tantos anos, até os dias de hoje.

— Georgina — disse enfim, rouco, num tom apenas audível.

E então, prestes a cair em prantos, ela exclamou em voz baixa:

— Chega! Deixe-me!

E fugiu para a porta.

Saí atrás dela, devagar, sentindo que algo muito estranho e contraditório tinha acontecido, mas sem saber como interpretá-lo. Minhas pernas bambeavam como se eu estivesse diante de um grande perigo. Quando entrei no outro quarto, já iluminado, só estava Bebe: Georgina tinha desaparecido. Quase em seguida Fernando chegou, escrutando-me com olhar sombrio, como se aquele fogo perverso que ardia dentro dele agora incendiasse as trevas.

— Você ganhou — comentou com voz dominadora e seca. — Como prêmio, amanhã poderá fazer uma prova mais importante.

Compreendi que devia ir embora e que Georgina não reapareceria. Bebe, com o clarinete na mão, a boca entreaberta, me olhava com seus olhos perdidos e brilhantes.

— Bem — disse eu, saindo.

— Amanhã de noite, depois do jantar, às onze — disse-me.

Durante a noite toda pensei no que tinha me acontecido e no que poderia acontecer no dia seguinte. Aterrorizava-me a idéia de que Fernando fosse mais longe, pelo mesmo caminho, embora não visse claramente por quê, e compreendesse que, no meio de tudo, estava Georgina. Por que ela evitara dizer “não” quando eu disse o nome de Fernando? Por que continuara calada, autorizando o gesto de minha mão? No dia seguinte, às onze em ponto eu estava no quarto de Fernando. Georgina e ele já me esperavam. Notei nos olhos de Georgina uma expressão de pavorosa expectativa, acentuada pela palidez marmórea de seu rosto. Como um chefe que dá instruções à patrulha, com uma fria precisão, Fernando me disse:

— No Mirante, lá em cima, mora a velha Escolástica. A essa altura ela está dormindo. Você vai entrar com esta lanterna, vai até uma cômoda que há do lado oposto da cama, vai abrir a segunda gaveta de cima para baixo, vai pegar uma caixa de chapéus e vai trazê-la para mim.

Com voz de fantasma, olhando para o chão, Georgina disse:

— A cabeça, não, Fernando! Qualquer outra coisa, menos a cabeça!

Fernando respondeu com expressão de desprezo:

— Qualquer outra coisa não teria importância. A cabeça.

Eu, quase desmaiando, me lembrei da história que Georgina me contara. Não era possível, essas coisas jamais aconteciam na vida real. E, além disso, por que teria de fazê-lo? Quem me obrigava?

— Por que tenho de fazer isso? Quem me obriga? — aleguei com voz sumida.

— Como, por quê? Por que se sobe o Aconcágua? Não há nenhuma utilidade em subir o Aconcágua, Bruno. Ou você é um covarde?

Compreendi que não podia escapar.

— Muito bem, me dê a lanterna e me diga como se sobe.

Fernando me entregou a lanterna e começou a me indicar como subir ao Mirante.

— Espere — disse eu. — E se a velha acordar? Pode acordar, pode gritar; e o que eu devo fazer?

— A velha quase não enxerga e quase não escuta, e quase não pode se mexer. Não se preocupe. O pior que pode acontecer é você ter de descer sem a cabeça, mas espero que tenha a coragem suficiente para trazê-la.

Já lhe expliquei que debaixo do Mirante havia um depósito de velharias, de onde se podia subir por uma antiga escada de madeira. Fernando me levou até o depósito, que nem sequer tinha luz elétrica, e me disse:

— Ao chegar lá em cima você vai encontrar uma porta que não tem chave. Abra-a e entre no Mirante. Nós o esperamos em meu quarto.

Foi embora e fiquei com a lanterna no meio do depósito escuro, ouvindo os batimentos aflitos de meu coração. Um pouco depois pensei mais uma vez que tipo de loucura era aquela e quem me obrigava a subir, senão meu próprio orgulho; pus o pé no primeiro degrau. Subi com temor crescente e numa lentidão que achei vergonhosa. Mas subi.

De fato, no final da escada havia um pequeno patamar e uma porta dando para o quarto da anciã louca. Eu sabia que era quase uma inválida, mas mesmo assim meu medo era tão grande que eu suava em bicas e receava ter uma diarréia. Para completar, percebi que meu corpo ou meu suor soltavam um cheiro insuportável e muito forte. Mas já não podia recuar e, assim, o melhor era agir o quanto antes.

Virei a maçaneta com cuidado, tentando não fazer o menor barulho, pois, evidentemente, tudo seria menos horrível se a louca não acordasse. A porta abriu com um chiado que achei terrível. A escuridão do quarto era total. Por um instante hesitei entre iluminar com a lanterna a cama onde a velha repousava, para ver se dormia, e o temor de, justamente, acordá-la com a luz. Mas como poderia entrar num quarto desconhecido, com uma louca trancada ali, sem verificar, pelo menos, se a velha estava dormindo ou acordada, observando-me? Com um misto de repulsa e pavor, levantei a lanterna e varri o quarto, circularmente, à procura da cama.

Quase desmaiei: a anciã não estava dormindo, e sim de pé, ao lado da cama, fitando-me de olhos abertos e espavoridos. Era uma velhinha quase mumificada, muito pequena, muito magra, quase um esqueleto vivo. De seus lábios ressecados saiu algo que imaginei se referir à Mazorca, mas não garanto, pois assim que vi sua figura nas trevas fugi para a porta e despenquei pela escada. Ao chegar ao quarto de Fernando, desmaiei.

Quando recobrei os sentidos, Georgina segurava minha cabeça entre os braços e de seus olhos rolavam lágrimas enormes. Levei bastante tempo para me lembrar do que ocorrera antes e então senti uma vergonha infinita. Estava só, com Georgina. Fernando tinha se retirado, dizendo uma venenosa ironia sobre minha coragem.

— Ela estava de pé — balbuciei.

Georgina não dizia nada: limitava-se a chorar em silêncio.

Aqueles primos começaram a ser para mim um mistério indecifrável, que ao mesmo tempo me atraía e me assustava. Eram como dois oficiantes de um rito desconhecido, cujo significado eu não conseguia entender e do qual se podiam esperar atrocidades. De repente eu comecei a imaginar que Fernando estaria caçoando de mim, e temia que estivesse preparando uma cilada funesta. Os dois primos viviam isolados do resto da casa, solitários, e Fernando, como um rei de um único súdito, embora fosse mais apropriado dizer como um sumo sacerdote de um único crente, e como se eu tivesse me transformado na única vítima do culto tenebroso. Fernando desprezava o resto do mundo, ou o ignorava soberbamente, enquanto que de mim exigia uma coisa que eu não conseguia perceber direito, e que, creio, se referia a sentimentos estranhos, a emoções sombrias e volúpias, as mesmas que deviam sentir os sacerdotes astecas quando, no alto das pirâmides sagradas, extraíam o coração latejante e quente de seus sacrificados. E, ainda mais inexplicável, eu também me submetia com certa obscura sensualidade ao sacrifício em que Georgina oficiava como uma aterrorizada hierofante.

Pois esses episódios foram apenas o começo. Muitos rituais estranhos e perversos se seguiram até eu fugir, até entender, com doloroso pavor, que a pobre criatura executava cegamente, como hipnotizada, as ordens de Fernando.

Agora, trinta anos depois, ainda tento compreender a relação exata que havia entre os dois, e não consigo. Eram dois universos opostos, e, no entanto, de certo modo estavam entranhadamente unidos por um vínculo incompreensível mas poderoso. Fernando a dominava, mas não poderia afirmar que fosse unicamente um pavor sagrado que a ligava ao primo: às vezes acho que Georgina tinha uma espécie de compaixão. Compaixão por um monstro como Fernando? Sim. Ela fugia de repente de seus atos demoníacos, e a vi chorar horrorizada num canto escuro da casa de Barracas. Mas também me lembro de ela defendendo-o com energia maternal quando eu o atacava. “Você nem imagina como ele sofre”, dizia-me. Agora, considerando serenamente sua personalidade e muitos de seus atos, admito que, realmente, Fernando não tinha essa indiferença fria que, dizem, é típica dos criminosos natos; já lhe disse antes que a sensação era mais de uma luta interior caótica e desesperada. Mas devo lhe confessar que não tenho a suficiente grandeza de alma para me compadecer de criaturas como Fernando. Georgina, em compensação, tinha essa grandeza.

Que tipo de sofrimentos?, o senhor me perguntará. Muitos e de toda natureza: físicos, mentais e até espirituais. Os físicos e mentais eram visíveis. Sofria alucinações, tinha sonhos alucinantes, de repente perdia a consciência. Cheguei a vê-lo, mesmo sem desmaiar, como se estivesse ausente, sem falar nem ouvir nem ver quem estava na sua frente. “Já vai passar”, Georgina me dizia então, seguindo-o com angústia. Outras vezes (Georgina me contava) ele lhe dizia: “Eu a estou vendo, sei que estou aqui, ao seu lado, mas também sei que estou em outro lugar, muito longe, num quarto escuro e fechado. Estão me perseguindo para arrancar meus olhos e me matar”. Passava da exaltação mais violenta à passividade e à melancolia mais absolutas: então se transformava, segundo Georgina, na criatura mais indefesa e desamparada deste mundo, e, como um menino pequenininho, ia se aninhar no colo da prima.

Evidentemente, nunca o vi em nenhum desses extremos humilhantes, e creio que, se tivesse visto, Fernando seria capaz de me assassinar. Mas Georgina me contou, e ela jamais pregou mentira, e imagino que Fernando nunca tenha simulado na frente dela, mesmo sendo um mestre da simulação, como era de fato.

O que vi dele sempre foi desagradável. Considerava-se acima da sociedade e da lei. “A lei é feita para os pobres-diabos”, afirmava. Por alguma razão que não consigo entender, era apaixonado por dinheiro, e creio que o enxergava como algo mais do que o simples dinheiro das pessoas normais. Enxergava-o como algo mágico e demoníaco, e gostava de se referir a ele como o “ouro”. Talvez essa estranha tendência decorresse de sua paixão pela alquimia e pela magia. Mas sua morbidez era mais visível em tudo o que, direta ou indiretamente, se referisse aos cegos. A primeira vez que percebi isso pessoalmente foi ainda em Capitán Olmos, quando íamos andando para casa pela rua Mitre, e de repente veio em nossa direção o cego que tocava tambor na banda do povoado. Fernando quase desvaneceu e fui obrigado a segurar seu braço, e então senti que tremia como quem tem malária e seu rosto ficava branco e rígido como o de um morto. Levou tempo para se refazer, precisou sentar na beira da calçada e depois teve um acesso de raiva contra mim, xingando-me histericamente, porque eu segurara seu braço para que não caísse.

Num dia do inverno de 1925 terminou essa fase alucinante de minha vida. Quando entrei no quarto de Georgina, encontrei-a chorando na cama. Fui logo acariciá-la, perguntar-lhe, mas ela só conseguia me repetir “Quero que você vá embora, Bruno, e que não venha nunca mais. Pelo amor de Deus!”. Eu tinha conhecido duas Georginas: uma, doce e feminina como a mãe, e outra, possuída pelos poderes de Fernando. Agora via a Georgina arrasada e indefesa, aterrorizada e alquebrada, que me pedia para ir embora e nunca mais voltar. Por quê? Qual era a verdade assustadora que queria esconder de mim? Nunca me disse, se bem que depois, com os anos e a experiência, desconfiei e a confirmei. Mas o que era desanimador em tudo isso não era o terror de Georgina nem a destruição de uma alma delicada e carinhosa pelo espírito satânico de Fernando: o desanimador era que ela o amava.

Insisti estupidamente, mas acabei entendendo que já nada podia nem devia fazer naquele cantinho do mundo que parecia esconder um segredo ominoso.

Só voltei a ver Fernando em 1930.

É sempre fácil prever o passado, ele dizia, mordaz. Agora, depois de quase trinta anos, pequenos acontecimentos da época, aparentemente casuais e sem importância, revelam o significado de tudo. Assim como, para um leitor que acaba um longo romance e vê os destinos se cumprirem (como a morte na vida real), frases tão triviais como “Alexis Karamazov era o terceiro filho de um proprietário rural de nosso distrito” adquirem de repente um sentido profundo e muitas vezes trágico. Nunca se sabe, até o final, se o que um dia nos acontece é história ou simples contingência, se é tudo (por mais trivial que pareça) ou se é nada (por mais doloroso que seja). Fatos minúsculos me puseram de novo no caminho de Fernando, após vários anos de distanciamento, como se fosse meu inelutável destino e como se os esforços para me afastar dele tivessem sido inúteis.

Penso na época tão distante e nas palavras que chegam à minha mente: xadrez, Capablanca e Alekhine, Al Jolson, Cantando na chuva, Sacco e Vanzetti, Sandino e Nicarágua. Mistura estranha e melancólica! Mas que conjunto de palavras ligadas às recordações de nossa juventude não é estranho e melancólico? Tudo o que essas palavras sugerem culminaria com o duro mas fascinante período em que a vida do país e nossa própria existência sofreriam uma mudança radical, momento ligado justamente à presença de Fernando, como se ele fosse um símbolo obscuro daquela época de minha vida e ao mesmo tempo o motivo mais forte de minhas transformações. Pois no ano de 1930 minha vida entrou num de seus momentos de crise, quer dizer, de julgamento, e tudo começou a vacilar sob meus pés: o sentido de minha vida, o sentido de meu país e o sentido da raça humana em geral, porquanto ao julgarmos nossa própria existência inevitavelmente fazemos um juízo sobre a humanidade inteira. Embora também se possa dizer que quando começamos a julgar a humanidade inteira é porque na verdade estamos examinando o fundo de nossa própria consciência.

Foram anos dramáticos e exaltados.

Penso, por exemplo, em Carlos, cujo nome verdadeiro eu nunca soube. Ainda o estou vendo, ainda me comovo, debruçado furiosamente sobre aquelas edições baratas de trinta ou quarenta centavos, mexendo os lábios com enorme esforço, apertando os punhos nas têmporas, como um rapaz desesperado que, suando, penosamente, procura e afinal desenterra um cofre no qual lhe disseram que está a chave de sua existência infeliz, o significado críptico de seus sofrimentos de jovem operário. A Pátria! A Pátria de quem? Eles tinham chegado aos milhões das grutas da Espanha, das aldeias miseráveis da Itália, dos Pirineus. Párias de todos os confins do mundo, amontoados nos porões mas sonhando: lá nos aguarda a liberdade, agora não seriam mais bestas de carga. América! A terra mítica onde se achava dinheiro jogado nas ruas. E, depois, o trabalho duro, os salários miseráveis, as jornadas de doze a catorze horas. Esta tinha sido afinal a verdadeira América para a imensa maioria: miséria e lágrimas, humilhação e dor, saudades e nostalgia. Como meninos iludidos com os contos de fadas e levados à escravidão. E então, eles, ou seus filhos, dirigiam seus olhares para outras utopias, para terras futuras comentadas em livros violentos mas ao mesmo tempo cheios de ternura por eles, pelos miseráveis; livros que lhes falavam de terra e liberdade e os impeliam à revolta. E então muito sangue correu nas ruas de Buenos Aires, e muitos homens e mulheres e até as crianças, filhos desses infelizes, morreram em 1905, em 1908, em 1910. O Centenário da Pátria! Da pátria de quem?, perguntava-se Carlos com um muxoxo irônico e doloroso. Não havia pátria, será que eu não sabia? Havia o mundo dos senhores e o mundo dos escravos. Pão e liberdade!, gritavam os operários vindos de toda parte, enquanto os senhores, aterrorizados e furiosos, lançavam a polícia e o exército sobre aquela turba. E, assim, mais sangue, e, então, mais greves e manifestações, e novamente atentados e bombas. E, enquanto o filho do patrão estudava num colégio na Suíça ou na Inglaterra ou na França, o filho do operário sem nome trabalhava nos frigoríficos por cinqüenta centavos ao dia, ficava tuberculoso nas câmaras frias e finalmente agonizava, anônimo, em hospitais imundos. E, enquanto aquele outro rapaz lia Keats e Baudelaire, este aqui decifrava com dificuldade, como Carlos naquele momento, um texto de Malatesta ou Bakunin, e um garoto chamado Roberto Arlt aprendia nas ruas o sentido geral da existência humana. Até que eclodiu a Grande Revolução! A Idade de Ouro estava próxima! De pé os Pobres do Mundo! O Apocalipse dos Poderosos! E novas gerações de rapazes pobres e estudantes irrequietos ou revoltados leram Marx e Lenin, Gorki e Kropotkin. E um deles era Carlos, que agora volto a ver, como se estivesse na minha frente, como se não tivessem se passado trinta anos, soletrando aqueles livros, obstinado e ansioso. Agora ele me aparece como um símbolo do colapso de 1930, quando, com a derrubada de seus templos em Wall Street, a religião do Progresso Infinito começou a chegar ao fim. Bancos imponentes quebravam, grandes indústrias se afundavam, dezenas de milhões se suicidavam. E a crise da metrópole da arrogante religião laica estendia-se em violentos maremotos às regiões mais longínquas do planeta. E aqui caiu Yrigoyen, em Puerto Nuevo começou a se erguer um mundo de ex-homens, longas filas se formavam nos restaurantes populares, pequenos empregados sem emprego ouviam extáticos, no Marzotto, tangos amargos e pessimistas de Discépolo, Scalabrini escrevia um manual do portenho solitário, a rua Barceló dominava Avellaneda com seus prostíbulos e suas casas de jogo. A hora das máquinas distribuidoras de bebidas e dos rufiões.

A miséria e a descrença se apoderavam atrozmente da cidade babilônica. Rufiões, assaltantes solitários, salões espelhados de jogos e tiro ao alvo, bêbados e vagabundos, desempregados, mendigos, putas a dois pesos. E, como enviados fulgurantes do Castigo e da Esperança, aqueles homens e rapazes reunidos em casebres para preparar a Revolução Social.

Carlos, então.

Foi um dos elos que me levou novamente a Fernando, embora depois tenha se afastado dele, como um santo do Diabo. Talvez o senhor o tenha conhecido, pois ele mantinha relações com o grupo de anarquistas de La Plata, e agora creio me lembrar que em certa ocasião o senhor também falou disso. Acho que a amarga experiência dele com Fernando foi o que o afastou do anarquismo e o levou ao movimento comunista; se bem que, como o senhor pode imaginar, esse simples fato não pudesse mudar sua mentalidade, a mesma de sempre, mentalidade que, aliás, explica sua expulsão do movimento comunista sob a acusação de terrorismo. Não soube mais dele até 1938, até aquele inverno de 1938, quando começaram a chegar a Paris, ilegalmente, os homens e as mulheres que conseguiram atravessar os Pirineus após a derrota na Espanha. Paulina (pobre Paulina), que escondi várias vezes em meu quarto da rua Des Écoles, me contou a morte de Carlos dentro do mesmo tanque em que morreu Etchebehere, outro argentino. O quê? Tinha virado trotskista? Paulina não sabia: só o tinha visto uma vez, arisco e solitário como sempre, estóico, impenetrável.

Carlos era um espírito religioso e puro. Como podia aceitar e compreender comunistas iguais a Cramer? Como podia aceitar e compreender os homens em geral? A encarnação, o mal original, a queda, como aquele ser puríssimo podia admitir essa condição aviltada do homem? Mas é extremamente curioso que seres de certo modo não-humanos exerçam influência tão grande sobre os meramente humanos. Eu mesmo fui arrastado ao comunismo unicamente pela força de sua presença e de sua pureza, e o afastamento dele também produziu o meu, talvez porque eu fosse um adolescente que não conseguia aceitar a dura realidade. Duvido que hoje eu julgasse com a mesma severidade militantes como Cramer, suas lutas pelo poder pessoal, suas mesquinharias, suas hipocrisias e sordidez. Pois quantos homens teriam direito a fazê-lo? E onde, meu Deus, seria possível encontrar seres humanos isentos dessa sordidez senão em situações, quase alheias à condição humana, de adolescência, santidade ou loucura?

Como um mensageiro que ignora o conteúdo da carta, aquele rapaz desconhecido é que haveria de me pôr mais uma vez no caminho de Fernando.

Nos últimos dias de janeiro de 1930, quando, terminadas minhas férias em Capitán Olmos, voltei a Buenos Aires para ir morar na pensão da rua Cangallo, quase mecanicamente, pela força do hábito, dirigi-me ao café La Academia. Ia ver Castellanos, ia ver Alonso, ia acompanhar as eternas partidas de xadrez. Ia ver o de sempre. Pois ainda não chegara o momento de entender que o hábito é uma ilusão e que nossos passos mecânicos nem sempre nos levam à mesma realidade; eu ainda ignorava que a realidade é surpreendente e, dada a natureza dos homens, trágica a longo prazo.

Alonso tinha um novo parceiro no jogo de xadrez, parecido com Emil Ludwig. Chamava-se Max Steinberg. Pode parecer estranho que gente desconhecida e, pelo visto, encontrada ao acaso me levasse a alguém nascido em minha aldeia e membro de uma família tão intimamente ligada à nossa. Aqui deveríamos admitir um dos axiomas preferidos de Fernando: não há acasos, e sim destinos. Só encontramos o que procuramos, e procuramos o que de certo modo está escondido no mais obscuro e profundo de nosso coração. Do contrário, por que o encontro com uma mesma pessoa não produz em dois seres os mesmos resultados? Por que para um o encontro com um revolucionário leva-o à revolução, enquanto deixa o outro indiferente? Por isso, no final terminamos encontrando as pessoas que devemos encontrar, ficando assim o acaso reduzido a limites muito modestos. De modo que esses encontros estranhos da vida de cada um, como o meu reencontro com Fernando, nada mais são do que a conseqüência dessas forças desconhecidas que nos aproximam no meio da multidão indiferente, assim como as limalhas de ferro se orientam a distância para os pólos de um poderoso ímã, em movimentos que constituiriam motivo de espanto para as limalhas se tivessem consciência de seus atos, sem porém um conhecimento pleno e total da realidade. Assim, caminhamos meio como sonâmbulos, mas com a mesma segurança dos sonâmbulos, para os seres que de alguma maneira são desde o início nossos destinatários. E mergulhei nesses pensamentos porque estava prestes a lhe dizer, há pouco, que minha vida, até o encontro com Carlos, tinha sido a de um estudante qualquer com seus típicos problemas e ilusões, com suas brincadeiras nas aulas ou na pensão, com seus primeiros amores, e sua audácia e sua timidez. E já antes de começar a escrever estas palavras compreendi que não era totalmente exato, pois ia dar uma idéia equivocada de minha vida anterior ao encontro, e essa idéia equivocada ia turvar o significado real de meu reencontro com Fernando. A estranheza se reduz e geralmente desaparece quando olhamos mais a fundo as circunstâncias que cercaram o fato aparentemente insólito. E assim, em última análise, parece ficar relegada ao simples mundo das aparências, como filha da miopia, do acanhamento e da distração. Naqueles cinco anos, na verdade, eu tinha vivido obcecado pela família e não conseguia afastar de minha lembrança Ana María, nem Georgina nem Fernando: eles pulsavam no mais fundo de meu ser e volta e meia apareciam em meus sonhos. Agora penso também que, já nos encontros de 1925, eu ouvira diversas vezes Fernando falar de seu plano de organizar, mais adiante, um grupo de assaltantes e terroristas. E agora creio que essa sua idéia, que na hora achei absurda, ficou gravada dentro de mim, e talvez minha aproximação inicial com os grupos anarquistas tenha sido determinada, sem eu mesmo saber, como tantos outros movimentos de meu espírito, por idéias e obsessões de Fernando. Já lhe expliquei que esse homem exerceu sobre uma profusão de rapazes e moças uma influência invencível e freqüentemente perniciosa, pois suas idéias e até suas manias se propagaram a inúmeras criaturas que acabaram sendo a caricatura grosseira e ordinária daquele demônio. Assim o senhor poderá entender o que antes lhe expliquei: não foi tão surpreendente meu reencontro com ele, já que, de todas as pessoas que fui conhecendo, afastei, sem saber, as que não me aproximavam de Fernando, e, quando percebi que Max e Carlos pertenciam a grupos anarquistas, imediatamente me juntei a eles; e como esses grupos, aqui e em qualquer lugar do mundo, são minoritários e sempre unidos (mesmo sendo, como nesse caso, por incompatibilidades e desaprovação mútua), fatalmente eu teria de encontrar Fernando. O senhor me dirá por que, se esse era meu objetivo final, não procurei Fernando na própria casa de Barracas; mas então terei de responder que encontrar Fernando não era de jeito nenhum um objetivo consciente, e sim uma obsessão quase inconfessável, já que, ao contrário, nunca minha razão e minha consciência tinham aprovado e muito menos recomendado ir em busca do indivíduo que só podia me trazer, como trouxe, transtorno e dor.

Houve, porém, outros fatores que facilitaram esse gesto inconsciente. Creio ter lhe dito que perdi minha mãe muito cedo e que, além do mais, mandaram-me estudar numa cidade muito longe de minha casa. Vivia sozinho, era tímido e, infelizmente, tinha uma sensibilidade exacerbada. O que o mundo podia parecer, senão um caos repleto de maldade, injustiça e sofrimento? Como não iria me refugiar na solidão e nesses universos distantes da fantasia e do romance? Desnecessário dizer que eu adorava Schiller e seus bandidos, Chateaubriand e seus heróis americanos, o Götz von Berlichingen. Estava preparado para ler os russos e talvez tivesse lido já na época se, em vez de ser filho de burgueses, fosse, como tantos outros rapazes que conheci depois, filho de operários ou de família pobre, pois para esses rapazes a Revolução Russa era o grande acontecimento de nosso tempo, a grande esperança, e era mais fácil encontrar jovens lendo Gorki do que Mansilla ou Cané. Aí está uma das grandes contradições de nossa formação e um dos fatos que por tanto tempo criou abismos entre nós e nossa pátria: ao tomar contato com uma realidade fomos afastados de outra. Mas o que é nossa pátria senão uma série de afastamentos? Seja como for, em 1929 terminei o segundo grau. Ainda me lembro, dias depois de concluídos os exames, da solidão melancólica do colégio, tão característica dos colégios quando seus alunos se dispersam para as férias de verão. Senti então a necessidade de ver pela última vez o lugar onde haviam transcorrido cinco anos que não voltariam mais. Nos jardins, fiquei muito tempo sentado, pensativo, na beira de um canteiro. Depois me levantei e me aproximei da árvore em que vários anos antes tinha gravado minhas iniciais, quando ainda era uma criança: B. B. 1924. Como me sentia sozinho! Como era indefeso e triste, um garoto do interior, numa cidade estranha e monstruosa!

Dias depois iria para Capitán Olmos. Seriam as últimas férias passadas na minha aldeia. Meu pai já estava velho, mas continuava sendo duro e intratável. Eu me sentia longe dele e de meus irmãos, vagos impulsos agitavam minha alma, mas todos os meus desejos eram incertos e imprecisos. Intuía que algo se aproximava, mas não conseguia entender o quê, embora meus sonhos e minhas voltas obsessivas em torno da casa dos Vidal pudessem ter me prevenido. De toda maneira, passei as férias olhando minha aldeia sem vê-la. Muitos anos se passariam, eu sofreria muitos golpes, perderia grandes ilusões e conheceria uma profusão de gente até recuperar, de certo modo, meu pai e minha aldeia natal, pois o caminho que leva ao mais íntimo é sempre um longo périplo que passa por seres e universos. Assim, recuperei meu pai, mas, como quase sempre acontece, quando era tarde demais. Se na época eu tivesse intuído que o via saudável pela última vez, se tivesse adivinhado que vinte e cinco anos depois o veria transformado num monte sujo de ossos e vísceras podres, olhando-me tristemente do fundo dos olhos já quase alheios a este mundo, então teria tentado compreender aquele homem intratável mas bom, enérgico mas ingênuo, violento mas puro. Todavia, sempre entendemos tarde demais as criaturas que estão mais perto de nós, e quando começamos a aprender o difícil ofício de viver já temos de morrer, e sobretudo já morreram aqueles a quem teria sido mais importante aplicar nossa sabedoria.

Continuar: parte 3 de 3