Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 3
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Quando voltei a Buenos Aires ainda não tinha idéia do que ia estudar. Queria tudo ou talvez não quisesse nada. Gostava de pintar, escrevia contos e poemas. Mas isso era uma profissão? Podia-se levar a sério quem quisesse se dedicar a pintar ou escrever? Não eram apenas passatempos de gente desocupada e sem responsabilidade? Os outros pareciam tão sólidos, instalados nas faculdades de medicina ou engenhria, estudando como curar uma escarlatina ou construir uma ponte, que eu mesmo me levava na brincadeira. Assim, por uma espécie de pudor, entrei para a faculdade de Direito, se bem que no mais íntimo de meu ser tivesse certeza de nunca ser capaz de trabalhar como advogado.
Estou me afastando do que lhe interessa, mas é que acho impossível falar das pessoas que para mim tiveram grande importância sem me referir a meus sentimentos na época. Pois como esses seres podiam ter importância senão, justamente, por causa de minhas próprias ansiedades e sentimentos?
Volto, pois, a Max.
Enquanto terminavam a partida observei-o com curiosidade. Era um desses judeus moles e preguiçosos, com tendência para engordar. Seu nariz era aquilino e grosso, mas seu rosto, com a testa larga, tinha uma nobreza agradável, com certa serenidade contemplativa e reflexiva que mais parecia característica de um homem maduro, que já viu muita coisa na vida. Vestia-se com desleixo, faltavam botões na roupa, o nó da gravata era muito mal dado, tudo parecia meio improvisado, como uma simples obrigação de não andar nu pela rua. Mais tarde percebi que não tinha o menor sentido prático nem a menor idéia de como administrar seu dinheiro: dias depois de receber o salário, que gastava a torto e a direito, precisava penhorar livros, roupas e até um anel — presente de sua mãe — que invariavelmente ia parar no prego. Quando conheci sua família, constatei que o pai era tão sereno mas tão desajuizado como ele. E tanto pai quanto filho eram exemplos devastadores da imagem convencional do judeu. Ambos eram privados de sentido prático, amalucados (serena, mansamente amalucados), pacíficos e bons amigos, contemplativos e preguiçosos, desprendidos e totalmente ineptos para ganhar dinheiro, líricos e absurdos. Depois, quando comecei a vê-lo em sua pensão, pude observar a desordem em que vivia: dormia a qualquer hora e comia qualquer coisa na própria cama, e para isso guardava na mesinha-de-cabeceira enormes sanduíches de salame ou queijo. Ali também tinha um fogareiro para o mate que, sem se deslocar da cama, bebia interminavelmente, alternando com cigarros. Na cama imunda, semivestido, estudava e acompanhava com seu jogo de xadrez de bolso partidas famosas, consultando a todo instante livros e revistas especializadas.
Por intermédio dele conheci Carlos, como se, após atravessar uma ponte de borracha que ameaçava desmoronar a qualquer momento, eu chegasse a um território duríssimo e mineral, um continente basáltico com formidáveis vulcões prestes a entrar em erupção. Com os anos observei como são freqüentes as criaturas que só servem de ponte transitória entre duas pessoas, as quais, em seguida, mantêm um vínculo profundo e decisivo: como essas pontes frágeis que os exércitos improvisam sobre um abismo e recolhidas uma vez que as tropas passam.
Encontrei-o uma noite no quarto de Max. Quando cheguei, calaram-se. Max o apresentou, mas só consegui entender seu nome. Creio que o sobrenome era italiano. Era um rapaz muito magro, de olhos saltados. Havia algo duro e severo em seu rosto e suas mãos, e achei-o violentamente contido e concentrado. Parecia ter sofrido muito, e além de sua pobreza visível havia em seu espírito, seguramente, outras causas de angústia e sofrimento. Pensando mais tarde sobre ele, quando seu contato com Fernando me despertou enorme interesse, achei que era puro espírito, como se sua carne tivesse sido carbonizada pela febre, como se seu corpo, atormentado e queimado, tivesse se reduzido a um mínimo de osso e pele, e uns poucos, mas duríssimos, músculos para se mexer e suportar a tensão de sua vida. Não falava, e seus olhos ardiam de repente com o fogo da indignação, enquanto seus lábios, cortados à faca no rosto rígido, comprimiam-se para trancar segredos imensos e angustiantes.
Na época, surpreendia-me a amizade entre Max e Carlos: era como cortar um pedaço de manteiga com uma faca afiada. Ainda não chegara a época em que sabemos que nada do que é humano deve nos surpreender. Agora entendo que Max reunia as condições necessárias para aquela amizade aparentemente tão curiosa: a grande bondade, que devia aplacar a tensão espiritual de Carlos como a água aplaca a sede de um homem que cruzou grandes desertos; e sua própria brandura, que permitia juntar seres tão diferentes e duros como Carlos e Fernando sem que se produzissem atritos muito fortes: um amortecedor. E, aliás, que polícia do mundo imaginaria que alguém como Max mantivesse um relacionamento com anarquistas e bandidos?
Isso, quanto a Carlos. Pois, no que se referia a Fernando, primeiro desconfiei e depois comprovei, havia um motivo muito mais sórdido: a mãe de Max. Não sei se lhe disse que tinha uma queda estranha por dois tipos de mulheres: as bem mocinhas e as maduras. E, como sua capacidade de simulação era ilimitada, podia seduzir tanto uma garotinha que gosta de andar de mãos dadas, como uma mulher que costuma ter esse vasto e geralmente amargo conhecimento dos homens. Se é verdade que um homem mostra seu rosto mais autêntico quando está na solidão, o mais autêntico rosto de Fernando devia ser impiedoso e cruel, talhado a faca. Mas, assim como o vendedor de uma loja, atingido por uma adversidade qualquer, pode (e deve), contudo, mostrar uma expressão afável diante do cliente, assim Fernando era capaz de fazer na superfície de seu rosto a mais perfeita imitação de ternura, compreensão, romantismo ou candura, dependendo do freguês. Ajudava-o seu total desprezo pela raça humana e, em particular, pela mulher, e nessa comédia sinistra acho que encontrava não só a melhor maneira de satisfazer sua lubricidade, como também uma forma de desprezar a si mesmo. Zombava das teorias simplistas sobre a mulher, que resultam em lugares-comuns, como os que afirmam que a mulher é romântica e deve ser conquistada à luz do luar e os que imaginam que deve ser maltratada. Em sua opinião, havia mulheres que precisavam de um buquê de flores, e outras, de uma bofetada, e outras (e às vezes as mesmas, dependendo das circunstâncias), das duas coisas. Mas a longo prazo acabava maltratando todas elas, às vezes cruelmente, como quando bocejava no momento culminante do ato sexual.
A mãe de Max teria na época uns quarenta anos, e, embora fosse judia, tinha um tipo totalmente eslavo, se bem que morena. Não sei se era bonita, o que sei é que era sedutora: dos olhos penetrantes, que pareciam arder num fogo de paixão, à sua própria história. Desnecessário dizer que Max em nada puxara à mãe, tendo herdado, em compensação, os atributos físicos e espirituais do pai.
Nadia era fascinante, ou talvez tenha me fascinado muito em especial por sua história. A mãe havia sido estudante de medicina em São Petersburgo e, junto com Vera Figner, uma das fundadoras do movimento “Terra e Liberdade”. Como tantos outros, largou os estudos para fazer propaganda revolucionária entre os camponeses e finalmente conseguiu fugir quando o czarismo, após uma série de atentados, preparou-se para aniquilar o movimento. Juntou-se aos grupos de Zurique, conheceu um jovem deportado chamado Isaiev, e de seu casamento nasceu Nadia. A infância e a adolescência foram agitadas, mudando-se de um país europeu para outro, até que voltaram à Suíça, onde Nadia casou com um eterno estudante de medicina chamado Steinberg. Vieram para a Argentina, ela estudou medicina e, lutando energicamente, educou e sustentou a família.
Com seu rosto meio tártaro, o cabelo preto e liso repartido ao meio e puxado para trás, num coque, Nadia parecia saída de um filme russo.
— Mas que tipo de judia é a senhora? — atrevi-me um dia a perguntar-lhe.
— Descendemos de pogroms — ela me respondeu sorrindo.
E contudo, anos depois, quando minha experiência com judeus foi mais profunda, observei como de repente Nadia encolhia os ombros ou mexia a mão num gesto que retificava, sutil mas vertiginosamente, sua máscara eslava. E então reparei que esse tipo de indício era corrente entre judeus como os Steinberg: rostos freqüentemente eslavos ou tártaros, chá servido em velhos samovares de família, adoração por Pushkin ou Gogol ou Dostoievski (que liam em russo), e, de repente, quando estávamos habituados com eles, como com a penumbra de um quarto mal iluminado, sob os traços óbvios e conhecidos começavam a brotar os indícios da raça milenar, nem sempre físicos, às vezes minúcias imperceptíveis no sorriso ou na voz, quando não no pensamento ou na ação. E assim, no meio de um rosto eslavo, insinuava-se de repente um sorriso de tristeza, como se de trás de um disfarce austero saísse uma moça frágil que tem medo de ser assaltada. Outras vezes era o gesto de Nadia encolhendo os ombros, que implicava certa desconfiança irônica pelo mundo dos gohim, certa decepção dolorosa e a reminiscência tácita de episódios trágicos. E os traços físicos ou os indícios espirituais, surgidos sutilmente do rosto eslavo, tal como essas linhas mais finas e delicadas com que o desenhista vai enriquecendo o esboço inicial, terminavam se manifestando por fim na forma peculiar de raciocínio que, contra o que a maioria das pessoas imagina, tem muito pouco a ver com um racionalismo rigoroso, pois, enquanto a lógica se baseia na afirmação de que A é A, um judeu preferirá afirmar fazendo uma pergunta — “Por que A não seria A?” —, encolhendo os ombros e descartando sua responsabilidade na história, de vez que nunca se sabe como e por que pode começar uma perseguição. E esses ombros encolhidos, essas mãos se movimentando, essa testa franzida colorem, deformam e retorcem a lei de identidade com sentimentos confusos, ironias recônditas, comentários vagos e implícitos que afastam o judeu do puro racionalismo, tanto quanto uma análise proustiana dos sentimentos se afasta de um tratado de psicologia.
Seja como for, graças a Nadia aprendi a gostar e admirar esse vasto território de bêbados e niilistas, charlatães e tuberculosos, burocratas e generais, que era a Rússia dos czares.
Max conheceu Fernando na noite de um sábado de 1928, num círculo de Avellaneda chamado “Amanhecer”, onde González Pacheco dava uma conferência sobre o tema “Anarquismo e violência”. Na época, debatia-se asperamente o problema, mais ainda por causa dos atentados e assaltos de Di Giovanni. Os debates eram perigosíssimos, pois boa parte dos ouvintes estava armada e porque o anarquismo estava dividido em facções que se odiavam mortalmente. É um erro imaginar, como costumam supor os que vêem de longe e de fora um movimento revolucionário, que todos os seus integrantes são pessoas de um determinado tipo; erro de perspectiva semelhante ao que cometemos quando atribuímos características bem definidas a quem se poderia chamar “o Inglês”, com maiúscula, pondo ingenuamente no mesmo saco pessoas tão diferentes como o belo Brummell e um estivador do porto de Liverpool, ou quando afirmamos que todos os japoneses são iguais, ignorando ou não notando suas diferenças individuais, em razão desse mecanismo psicológico que, de fora, nos leva a perceber sobretudo os traços em comum (pois é o que primeiro salta aos olhos, superficialmente), mas que se inverte para nos mostrar as diferenças quando estamos dentro dessa comunidade (pois aí o importante são os traços distintivos).
Mas a gama era infinita. Havia o tolstoiano que se negava a comer carne por ser inimigo de qualquer morte violenta, e que com muita freqüência era esperantista e teosofista; e o partidário da violência até em suas formas mais indiscriminadas, fosse porque afirmasse que só se pode combater o Estado mediante a força, fosse porque, como no caso de Podestá, dava assim vazão a seus instintos sádicos. Havia o intelectual ou o estudante que chegavam ao movimento por meio de Stirner e Nietzsche, como Fernando, em geral individualistas furiosos e a-sociais, que no mais das vezes terminaram apoiando o fascismo; e operários quase analfabetos que se aproximavam do anarquismo em busca de uma esperança instintiva. Havia ressentidos que, assim, despejavam seu ódio contra o patrão ou a sociedade, e volta e meia acabavam se tornando patrões implacáveis quando conseguiam alguma fortuna, ou integrantes da polícia; e seres puríssimos cheios de bondade e grandeza, e que mesmo sendo bondosos e puros eram capazes de cometer atentados e matar, como Simón Radovitsky, levados, por certo espírito justiceiro, a destruir o homem que julgavam culpado da morte de mulheres e crianças inocentes. Havia o boa-vida que, com essa história de anarquismo, comia e dormia de graça na casa de companheiros, de quem ocasionalmente acabava roubando alguma coisa, ou pegando sua mulher, e que, ao receber uma tímida repreensão do dono da casa pelos excessos cometidos, respondia com desprezo “mas que tipo de anarquista é você, camarada”. E havia o vagabundo, partidário da vida livre do pássaro, do contato com o sol e o campo, que saía com sua sacola nas costas a percorrer terras e pregar a boa-nova, trabalhando numa colheita, consertando um moinho ou um arado, e de noite, no galpão dos peões, ensinava os analfabetos a ler e escrever, ou explicava-lhes em palavras simples, mas cheias de fervor, o advento da nova sociedade em que não haverá humilhação nem dor nem miséria para os pobres, ou lia-lhes páginas de um livro que levava em sua trouxa: páginas de Malatesta para os camponeses italianos, e de Bakunin, enquanto seus interlocutores calados, bebendo mate de cócoras ou sentados sobre uma lata de querosene, cansados com a jornada de sol a sol, talvez rememorando uma longínqua aldeia italiana ou polonesa, entregavam-se parcialmente àquele sonho maravilhoso, querendo acreditar, mas (instigados pela dura realidade de todos os dias) imaginando sua impossibilidade, tal como aqueles que, esmagados por desgraças, ainda assim sonham ocasionalmente com o paraíso final; e, talvez entre os peões, um gaúcho pensasse que Deus tinha feito o campo e o céu com suas estrelas para todos e em absoluta igualdade, esse tipo de gaúcho que sentia saudades da velha e altiva liberdade do pampa, sem os alambrados, esse homem do campo individualista e estóico, e que finalmente fazia sua a boa-nova trazida por apóstolos de nomes estranhos e que abraçava ardorosamente, e para sempre, a doutrina da esperança.
E quando naquela noite de 1928 um sapateiro tolstoiano afirmou que ninguém tinha o direito de matar ninguém, e muito menos em nome do anarquismo, e que até a vida dos animais era sagrada, razão pela qual ele se alimentava de vegetais, um jovem desconhecido, talvez de dezessete anos, alto e moreno, de olhos esverdeados e expressão irônica e dura, respondeu:
— É provável que comendo alface o senhor melhore o funcionamento de seus intestinos, mas acho muito difícil que consiga derrubar a sociedade burguesa.
Todos olharam para o jovem desconhecido.
E outro tolstoiano saiu em defesa do sapateiro, lembrando a lenda de Buda, que se deixou devorar por um tigre para aplacar sua fome. Mas um partidário da violência justa perguntou o que Buda teria feito se tivesse visto que o tigre não se jogava sobre ele, mas sobre uma criança indefesa. Depois disso, a discussão ficou tumultuada, sarcástica, lírica, insultante, boba, ingênua ou brutal, dependendo dos temperamentos, demonstrando mais uma vez que uma sociedade sem classes e sem problemas sociais talvez seja tão violenta e desarmônica como a atual. Desencavaram mais uma vez os mesmos argumentos e as mesmas recordações: não justificavam que Radovitsky tivesse matado o chefe de polícia culpado pelo massacre de 1o de maio de 1909? Não exigiam vingança para os oito proletários mortos e os quarenta feridos? Não havia mulheres entre os sacrificados? Sim, talvez. O Estado Burguês defendia implacavelmente seus privilégios, armado até os dentes, não perdoava a vida nem a liberdade; a justiça e a honra não existiam para esses déspotas que só perseguiam a manutenção dos próprios privilégios. Mas e os inocentes que às vezes eram mortos pelas bombas anarquistas? E, além disso, poderia se criar uma sociedade melhor mediante a violência e a vingança? Não seriam os anarquistas os verdadeiros depositários dos melhores valores humanos, como a justiça e a liberdade, a fraternidade e o respeito aos seres vivos? E seria admissível que em nome desses elevados princípios se assaltassem simples funcionários que atendiam nas caixas de bancos ou de estabelecimentos comerciais, e no final das contas eram inocentes? E que eles fossem massacrados para se conseguir dinheiro utilizado — o que era o cúmulo — em objetivos duvidosos? Foi então que o debate terminou no meio de um imenso tumulto de insultos, gritos e, finalmente, armas. Tumulto que González Pacheco só conseguiu acalmar recorrendo a seu talento oratório e lembrando aos anarquistas presentes que assim se justificavam as piores acusações da burguesia.
Foi nessas circunstâncias, contou-me Max, que ele conheceu Fernando. Chamaram-lhe a atenção sua frase sarcástica e seu rosto. Saíram juntos, com um tal de Podestá, a quem depois conheci. Assim se deu o primeiro passo para a formação do bando que, certamente, esse Podestá queria organizar e chefiar, mas que inevitavelmente seria chefiado por Fernando. Osvaldo R. Podestá era um sujeito que, quando conheci, me causou imediata repulsa: havia nele algo equívoco e tortuoso. De maneiras suaves, quase efeminadas, era relativamente culto, pois praticamente completara os estudos secundários antes de se juntar ao bando de Di Giovanni. Olhava meio de banda, de um jeito desagradável, com os olhos semicerrados. Com o tempo, sabendo de sua trajetória, confirmei a primeira impressão: quando Di Giovanni foi fuzilado e o movimento se viu perseguido por toda a força da lei marcial, após o assalto que, junto com o bando de Fernando, fizeram ao caixa da casa Braceras, ele fugiu para o Uruguai numa lancha de contrabandistas e depois foi para a Espanha. Ali começou a atuar no banditismo sindical, que se lançara numa luta de morte contra o empresariado (houve trezentos mortos nesses anos anteriores à guerra civil), mas, por algum motivo que desconheço, desconfiaram de que ele estava agindo em conluio com a polícia. Como prova de sua lealdade, ofereceu-se para matar a pessoa que lhe fosse designada. Indicaram-lhe o próprio chefe de polícia de Barcelona, e Podestá matou-o a tiros, e com isso, parece, renovou seu crédito. Mas, quando houve a guerra civil, cometeu tamanhas atrocidades, junto com seu bando, que a Federação Anarquista Ibérica decretou sua morte. Sabendo da decisão, Podestá e dois amigos tentaram fugir, saindo do porto de Tarragona numa lancha a motor carregada de objetos e dinheiro, mas foram metralhados a tempo.
Que alguém como Fernando tivesse um sujeito como Podestá em seu bando era explicável. O surpreendente é que um rapaz como Carlos tenha trabalhado com um companheiro desses, e só mesmo sua pureza é capaz de explicar o fenômeno. Além disso, convém não esquecer que o poder de convencimento de Fernando era ilimitado, e não deve ter sido muito difícil provar que esse era o único meio de luta contra a sociedade burguesa. Ainda assim, Carlos acabou se afastando deles, enojado, quando percebeu enfim que o dinheiro de seus assaltos não ia engordar os fundos de nenhum sindicato nem ajudar famílias ou órfãos de companheiros presos ou deportados. Pois seu afastamento ocorreu, justamente, quando soube que Gatti não tinha recebido a quantia prometida por Fernando para a sua fuga da prisão de Montevidéu, que, já não podendo ser postergada, foi organizada com dinheiro conseguido às pressas de outra forma. Carlos estimava muito Gatti (eu mesmo comprovei), e esse episódio foi para ele definitivamente revelador. Talvez o senhor se lembre da famosa fuga da cadeia de Montevidéu, quando catorze condenados escaparam por um túnel de mais de trinta metros escavado sob o comando de Gatti, conhecido como “O Engenheiro”, a partir de uma falsa carvoaria que ficava em frente à prisão. Gatti trabalhava cientificamente, utilizava bússola, mapas, uma pequena escavadora elétrica e um vagonete arrastado sobre trilhos com cordas, evitando o barulho; a terra era amontoada em sacos aparentemente de carvão, que depois eram retirados por caminhões. Essas complicadas e longas operações exigiam muitíssimo dinheiro, que vinha quase todo dos assaltos. Mas, como o senhor há de compreender, e como Fernando costumava dizer debochando, tudo acabava sendo, no final, uma espécie de autofagia: assaltava-se para tirar da cadeia anarquistas presos por assaltos anteriores.
Os anarquistas tinham dois grandes recursos para a obtenção de fundos: o assalto e a falsificação. E ambos justificados filosoficamente, pois, como alguns de seus teóricos dizem que a propriedade é um roubo, graças ao assalto se restituía à comunidade algo de que um indivíduo se apropriara indevidamente; e com a emissão de papel-moeda falso tentava-se não só obter dinheiro para as evasões e as greves, como, de certa maneira, sobretudo quando atuavam em grande escala, de arruinar o fisco e desmantelar a nação. Seguindo o famoso exemplo histórico da Inglaterra, que no século xviii falsificou o papel-moeda da França revolucionária e o despachou em barcos de pesca, numa tentativa de sabotar o governo da Revolução, os anarquistas fizeram várias vezes falsificações em grande escala. Era uma tarefa subterrânea que os seduzia e que, por outro lado, não era difícil, dada a vocação de muitos militantes para as artes gráficas. Di Giovanni organizou uma grande oficina de gravura onde se imprimiram notas de dez pesos e onde trabalhou um tipógrafo espanhol chamado Celestino Iglesias, homem puro e generoso, que Fernando conheceu então e que nos seus últimos anos de vida ele voltou a procurar para uma falsificação, antes do acidente que custou a vista a Iglesias.
Mas voltemos ao nosso reencontro.
Foi em janeiro de 1930. Eu tinha ido ao cinema com Max ver Alta traição, e quando chegamos ao bar, ainda discutindo sobre Emil Jannings e as vantagens e desvantagens do cinema falado (Max, como René Clair e Chaplin, se horrorizava com as perspectivas do cinema sonoro), vimos que Fernando o esperava sentado perto da mesinha habitual ocupada pelo tabuleiro de Max. Agora era um homem feito, mas logo o reconheci; suas feições estavam mais marcadas, mas não mudadas, pois era o tipo de pessoa que desde muito jovem já tem traços fortes que os anos só modificam para acentuar. Seria capaz de reconhecê-lo no meio de uma multidão caótica, de tão marcadas e inesquecíveis eram as feições de seu rosto.
Não sei se ele realmente não me reconheceu ou fingiu não reconhecer. Estendi-lhe a mão.
— Ah, Bruno — disse, dando-me a mão como que distraído.
Afastaram-se, e Fernando disse a Max umas coisas em voz baixa. Eu o olhava sem sair de meu espanto, espanto que me deixara quase sem fala. Pois, se bem que mais tarde tenha encontrado uma série de explicações para o reencontro, como já disse, quando ele apareceu foi uma espécie de milagre. De milagre negro.
Quando Max se afastou, ele se virou ligeiramente para mim e fez um gesto com a mão, despedindo-se. Perguntei a Max se Fernando tinha falado de mim, se tinha lhe dito de onde nos conhecíamos.
— Não, não me disse nada — Max comentou.
Claro, para ele o reencontro não era tão surpreendente: conhece-se tanta gente numa cidade!
Assim tornei a entrar na órbita de Fernando, e, embora o tenha visto em raras ocasiões, suas frases, teorias e ironias tiveram enorme importância naquele período crítico de minha vida. Na verdade, nunca participei das atividades secretas de seu bando, mas segui ansiosamente, de longe, e por Max ou Carlos, os vestígios daquela vida tumultuada. Em que medida e de que forma um rapaz como Max podia participar da organização, até hoje para mim é um mistério insondável. É provável que desempenhasse um papel secundário ou de contato, pois nem por temperamento nem por suas idéias era feito para a ação, e muito menos para ações daquele tipo. E ainda hoje me pergunto por que Max estava próximo daquele bando. Por curiosidade? Por certa herança ou por influência, embora remota, da história familiar? De vez em quando ainda rio sozinho lembrando-me da presença incongruente de Max. Era tão contemporizador que teria razões para ser amigo até do próprio chefe de polícia de Buenos Aires, e sem a menor dúvida jogaria com ele uma boa partida de xadrez se a ocasião se apresentasse. E encontrá-lo no meio daquela gente era tão absurdo como alguém que, em pleno terremoto, lesse placidamente o jornal numa poltrona. Entre assaltantes e terroristas que falavam de falsificações, dinamite e túneis, Max conversava comigo sobre Le Roi David, que nessas alturas Honegger dirigia no teatro Colón, ou sobre Tairoff, que estava no teatro Odeón, ou analisava longamente a melhor partida de Capablanca e Alekhine. Ou saía de repente com suas tiradas de humor, tão inconvenientes naquele ambiente como um copinho de vinho do Porto numa reunião de fanáticos bebedores de gim.
A partir de 2 de setembro os acontecimentos se precipitaram: manifestações de estudantes, tiroteios, depois a morte do estudante Aguilar, greves e, por fim, a revolução do dia 6 e a queda do presidente Yrigoyen. E, com ela (agora sabemos), o fim de toda uma época do país. Nunca mais voltaríamos a ser o que tínhamos sido.
Com a junta militar e o estado de sítio, todo o movimento sofreu um golpe terrível: invadiram locais de reuniões de operários e estudantes, deportaram os operários estrangeiros, torturaram e dizimaram o movimento revolucionário.
Em pleno caos, perdi de vista Carlos, mas desconfiei de que devia andar metido em algo muito perigoso. E quando no dia 1o de dezembro li nos jornais o assalto à caixa da casa Braceras, na rua Catamarca, lembrei-me na mesma hora de um longo e suspeito percurso que, dois meses antes, Carlos fizera em minha companhia, com a desculpa de procurar um local para uma gráfica clandestina. Não tive dúvidas de que o assalto era obra da gangue de Fernando, e mais tarde tive a prova. Foi justamente o último assalto de que Carlos participou, pois já nessa época se convenceu, finalmente, de que os objetivos perseguidos por Fernando não tinham nada em comum com os seus. E se bem que Fernando tivesse se encarregado de minar suas simpatias pelo comunismo, com argumentos cínicos mas demolidores, Carlos entrou para uma célula do Partido Comunista, em Avellaneda. Eu tinha escutado em algumas ocasiões os argumentos e as ironias de Fernando, que Carlos ouvia olhando para o chão, com os maxilares apertados. Já nessa altura Carlos tinha sido trabalhado por muitos comunistas e começava a encontrar vantagens consideráveis no outro movimento: pareciam lutar por algo sólido e preciso, demonstravam que o terrorismo individual era inútil, quando não pernicioso, criticavam com fundamentos sérios um movimento que permitira o surgimento de bandos como os de Di Giovanni, e, por fim, demonstravam que contra a força organizada do Estado Burguês só era eficaz a força organizada do proletariado. Mas Fernando não criticava, como outros anarquistas, a formação de um novo Estado, mais duro talvez que o anterior, nem a instauração de uma ditadura que suprimisse a liberdade individual em benefício da comunidade futura; o que ele criticava era sua mediocridade e sua aspiração a resolver os problemas últimos do homem por meio da siderurgia, das hidrelétricas, dos sapatos e da boa alimentação.
A meu ver, horrível não era Fernando tentar destruir com argumentos sofísticos a fé nascente de Carlos; o grave era que, para ele, o comunismo e o anarquismo não tinham a menor importância, e só disparava suas armas dialéticas na pura finalidade de destruir uma criatura tão desamparada como Carlos.
Mas, como disse, isso foi antes do assalto à casa Braceras. A partir daí não vi mais Carlos, até 1934. E, quanto a Fernando, o perdi de vista durante vinte anos.
Em janeiro de 1931, após uma delação, a polícia flagrou Di Giovanni numa gráfica clandestina. Perseguido pelas ruas do centro e pelos terraços de várias casas, no meio de um tiroteio, foi finalmente encurralado e preso. Na madrugada de 1o de fevereiro foi fuzilado, com seu companheiro Scarfó. Morreram gritando “Viva a Anarquia!”, mas na verdade os gritos pareciam anunciar sua morte definitiva nesta região do mundo.
E, com ela, o fim de muitas coisas.
O reencontro com Fernando e a crise que eu atravessava, sentindo-me mais só que durante os últimos anos de colégio, levou a um grau quase intolerável meu desejo de voltar “aos Vidal”.
Sempre fui um contemplativo, e de repente me vi arrastado por uma torrente, assim como a enchente de um rio de montanha arrasta muitas coisas que até minutos antes estavam placidamente contemplando o mundo. Por isso mesmo, talvez todo aquele tempo me pareça, agora que se passaram os anos, tão irreal quanto um sonho, tão sedutor (mas tão alheio) quanto o mundo de um romance.
Como tive, repentinamente, complicações com a polícia por causa dos acontecimentos e de minha relação com Carlos, e como a pensão onde eu morava foi invadida pela polícia, precisei me refugiar na de Ortega, um estudante de engenharia que na época tentara me atrair para o comunismo. Ele morava perto de Constitución, na rua Brasil, na pensão de uma viúva espanhola que o adorava. Assim, não foi difícil que me arrumasse um canto por algum tempo. Instalou um colchão para mim num quartinho que dava para a rua Lima.
Naquela noite tive um sonho agitado. Ao acordar de madrugada, fiquei assustado, não me lembrei de imediato dos acontecimentos da véspera, e até ter plena consciência olhei surpreso a confusa realidade que me cercava. Pois não acordamos de repente, mas num processo paulatino e complexo em que vamos reconhecendo o mundo originário, como quem vem de uma longuíssima viagem por continentes distantes e imprecisos, e depois de séculos de existência obscura perdemos a memória de nossa existência anterior, da qual só nos lembramos de fragmentos incoerentes. E após um tempo incomensurável, a tênue luz do dia começa a iluminar as saídas desses labirintos angustiantes e então corremos ansiosos para o mundo diurno. E chegamos à beira do sonho como náufragos exaustos que conseguem chegar à praia após uma longa luta contra a tempestade. E ali, ainda semi-inconscientes, mas já nos acalmando, começamos a reconhecer, agradecidos, certos atributos do mundo cotidiano, o sereno e confortável universo da civilização. Antoine de Saint-Exupéry conta como depois de uma angustiada luta contra os elementos, perdido no Atlântico, quando ele e seu mecânico já quase não tinham esperanças de chegar a terra, conseguiram avistar uma luzinha fraca na costa africana, e com o último litro de combustível chegaram enfim ao ansiado litoral; e como, então, o café com leite que tomaram numa cabana foi o contato humilde, mas transcendental, com a vida inteira, pequeno e maravilhoso reencontro com a vida. Assim, quando retornamos do universo do sono, uma mesinha qualquer, um par de sapatos gastos, um simples abajur familiar são comoventes luzes da costa que almejamos alcançar: a segurança. Por isso nos afligimos quando um desses fragmentos da realidade que começamos a distinguir não é o que esperávamos: a mesinha conhecida, o par de sapatos gastos, o abajur familiar. É o que costuma acontecer quando acordamos de repente num lugar desconhecido, num quarto frio e despojado de um hotel anônimo, ou no quarto em que o acaso das circunstâncias nos atirou na noite anterior.
Pouco a pouco fui entendendo que aquele quarto não era o meu e assim fui me lembrando do dia de invasões domiciliares e da polícia. Agora, na luz da manhã, tudo me parecia absurdo e totalmente alheio a meu espírito. De novo eu percebia que os fatos mais violentos e irracionais podem atingir os seres mais despreparados. Por uma série de curiosos imprevistos, eu, que creio ter nascido para a contemplação e a reflexão passiva, me vi no meio de episódios confusos e até perigosíssimos.
Levantei-me, abri a janela e olhei lá embaixo a cidade indiferente.
Senti-me só e acabrunhado. A vida se apresentava complicada e agressiva.
Ortega apareceu com seu saudável otimismo de sempre, fazendo piadas com os anarquistas. E, antes de ir para a faculdade, deixou-me uma obra de Lenin que me pediu para ler, pois ali fazia uma crítica definitiva ao terrorismo. Eu, que por influência de Nadia tinha lido as memórias de Vera Figner, enterrada em vida nas prisões do czar devido ao atentado, fui incapaz de ler com simpatia essa análise implacável e irônica. “Desespero pequeno-burguês.” Como esses românticos pareciam grotescos à luz inclemente do teórico marxista! Com os anos fui compreendendo que a realidade estava mais perto de Lenin do que de Vera Figner, mas meu coração permaneceu para sempre fiel àqueles heróis ingênuos e meio desvairados.
Tive a impressão de que o tempo parou de repente. Ortega me recomendara não sair da pensão por uns dias, até ver como as coisas estavam evoluindo. Mas depois de três dias não agüentei mais e comecei a sair, imaginando ser impossível que a polícia identificasse um rapaz sem antecedentes.
Ao meio-dia comprei um sanduíche num distribuidor automático da estação de Constitución. Causava-me estranheza encontrar nas ruas e nos cafés tanta gente despreocupada e sem problemas. No quartinho eu lia obras revolucionárias e achava que o mundo podia explodir a qualquer momento; depois, ao sair, achava que tudo seguia seu curso pacífico: os empregados iam para seus empregos, os comerciantes vendiam, e havia até mesmo gente sentada preguiçosamente nos bancos das praças, vendo as horas passar: iguais e monótonas. Mais uma vez, e não seria a última, sentia-me meio estranho no mundo, como se tivesse acordado de repente e desconhecesse suas leis e seu significado. Caminhava ao léu pelas ruas de Buenos Aires, olhava seus moradores, sentava num banco da praça Constitución e pensava. Depois voltava ao meu quartinho e me sentia mais só do que nunca. E apenas mergulhando nos livros parecia reencontrar a realidade, como se a vida nas ruas fosse uma espécie de grande sonho de gente hipnotizada. Faltavam muitos anos para entender que nas ruas, praças e até nas lojas e escritórios de Buenos Aires havia milhares de pessoas que sentiam ou pensavam mais ou menos o que eu sentia naquele momento: gente angustiada e solitária, gente que pensava no sentido e na falta de sentido da vida, gente que tinha a impressão de ver um mundo adormecido ao redor, um mundo de pessoas hipnotizadas ou transformadas em autômatos.
E naquele reduto solitário eu me punha a escrever contos. Agora percebo que escrevia toda vez que era infeliz, sentia-me só ou em descompasso com o mundo onde me coubera nascer. E pergunto-me se não é sempre assim, se a arte de nosso tempo, essa arte tensa e dilacerada, não nasce invariavelmente de nosso desajuste, de nossa ansiedade e de nosso descontentamento. Uma espécie de tentativa de reconciliação com o universo dessas criaturas frágeis, inquietas e aflitas que são os seres humanos. Os animais não precisam disso: basta-lhes viver, pois sua existência esvai-se harmoniosamente nas necessidades atávicas. E para o pássaro bastam poucas sementinhas ou poucos vermes, uma árvore onde construir seu ninho, grandes espaços para voar; e do nascimento à morte sua vida transcorre num ritmo venturoso jamais quebrado pelo desespero metafísico nem pela loucura. Ao passo que o homem, ao levantar-se sobre as duas patas traseiras e transformar em machado a primeira pedra lascada, institui as bases de sua grandeza mas também as origens de sua angústia, pois com as mãos e com os instrumentos feitos por essas mãos erigirá a construção tão poderosa e estranha que se chama cultura e iniciará, assim, seu grande tormento, já que terá deixado de ser um simples animal, mas não terá chegado a ser o deus que seu espírito lhe sugere. Será esse ser dual e desgraçado que se desloca e vive entre a terra dos animais e o céu de seus deuses, que terá perdido o paraíso terrestre de sua inocência e não terá conquistado o paraíso celeste de sua redenção. Esse ser dolorido e espiritualmente enfermo que indagará, pela primeira vez, o porquê de sua existência. E, assim, as mãos, e depois o machado, o fogo, e em seguida a ciência e a técnica irão cavar cada dia mais o abismo que o separa de sua raça original e de sua felicidade zoológica. E a cidade será finalmente a última etapa de sua corrida alucinada, a expressão máxima de seu orgulho e a forma última de sua alienação. E então seres descontentes, meio cegos e meio enlouquecidos, tentam recuperar, tateando, a harmonia perdida, com o mistério e o sangue, pintando ou escrevendo uma realidade diferente da que, infelizmente, os cerca, uma realidade muitas vezes de aparência fantástica e demencial, mas que, coisa curiosa, acaba sendo mais profunda e verdadeira que a cotidiana. E assim, como se sonhassem por todos, esses seres frágeis conseguem superar a desventura individual e se transformam em intérpretes e até em salvadores (trágicos) do destino coletivo.
Mas minha infelicidade sempre foi dupla, pois minha fraqueza, meu espírito contemplativo, minha indecisão, minha abulia sempre me impediram de alcançar essa nova ordem, esse novo cosmos que é a obra de arte, e terminei sempre caindo dos andaimes da desejada construção que me salvaria. E, ao cair, ferido e duplamente triste, saí em busca dos simples seres humanos.
Foi assim também naquele momento: tudo o que construía eram tentativas falhas e canhestras, e a cada fracasso, como sempre que me senti só e confuso, no meio de minha solidão ouvia calado, lá no fundo de meu espírito, misturado à voz difusa da mãe fantasmática que eu mal recordava, a voz de Ana María, única aproximação que tive com a mãe carnal. Era como o eco daqueles sinos da catedral submersa da lenda, abalados pela tempestade e pelo vento. E, como sempre que minha vida escurecia, eu começava a ouvir mais intensamente o tilintar distante, qual um chamado, como se me dissesse “não se esqueça de que estou sempre aqui, e que você sempre poderá ficar ao meu lado”. E de repente, um dia, o chamado cresceu tanto que ficou irresistível. E então pulei da cama, onde passava longas horas de inútil reflexão, e corri, com a idéia repentina e ansiosa de que devia ter ido antes, muito antes, a fim de recuperar o que restava da infância, do rio, das tardes distantes na fazenda, de Ana María. De Ana María.
Enganava-me, pois nem sempre nossas ansiedades nos levam à verdade. O reencontro com Georgina foi, antes, um desencontro e o começo de uma nova desventura que de certa forma perdurou até hoje e certamente prosseguirá até minha morte. Mas esta já não é a história que lhe interessa.
Sim, claro: pude vê-la em inúmeras ocasiões, caminhei com ela por estas ruas, foi bondosa comigo. Mas quem disse que só os malvados podem nos fazer sofrer?
Não só era calada, mas suas palavras eram reticentes, como se vivesse num eterno temor. Não foram suas palavras que me explicaram o que era Georgina naquele instante de sua vida, nem seus sofrimentos. Foram suas pinturas. Disse-lhe que ela pintava desde criança? Não vá pensar que seus quadros me revelaram segredos, pois neles não havia nem sequer figuras humanas, e muito menos informações. Eram naturezas-mortas: uma cadeira ao lado de uma janela, um vaso de flores. Mas, milagre: dizemos “cadeira”, ou “janela” ou “relógio”, palavras que designam meros objetos deste mundo frio e indiferente que nos cerca, e contudo transmitimos de repente algo misterioso e indefinível, algo como uma chave, como uma mensagem patética vinda de uma região profunda de nosso ser. Dizemos “cadeira”, mas não queremos dizer “cadeira”, e os outros nos entendem. Ou pelo menos nos entendem aqueles a quem secretamente está destinada a mensagem, cifrada, que passa incólume pelas multidões indiferentes e hostis. Assim, este par de tamancos, esta vela, esta cadeira não querem dizer estes tamancos, nem esta vela macilenta, nem aquela cadeira de palha, mas Van Gogh, Vincent (sobretudo Vincent): sua angústia, sua solidão, e portanto esses objetos são muito mais seu auto-retrato, a descrição de suas ansiedades mais profundas e dolorosas. Servindo-se daqueles objetos externos e indiferentes, objetos deste mundo rígido e frio que está fora de nós, que talvez existisse antes de nós e muito provavelmente continuará a existir, indiferente e gélido, quando tivermos morrido, como se esses objetos não fossem mais do que pontes trêmulas e transitórias (nas palavras do poeta) para salvar o abismo que sempre se abre entre nós e o universo; como se fossem símbolos do universo profundo e secreto que eles refletem, indiferentes e objetivos e cinzentos para quem não é capaz de encontrar a chave, mas quentes e vibrantes e cheios de intenções secretas para quem os conhece. Pois na verdade os objetos pintados não são os objetos do universo indiferente, mas objetos criados pelo ser solitário e desesperado, ansioso para se comunicar, que faz com os objetos o mesmo que a alma realiza com o corpo: ela o impregna de seus desejos e sentimentos, manifesta-se nas rugas carnais, no brilho dos olhos, dos sorrisos e das comissuras dos lábios, qual um espírito que tenta se manifestar (desesperadamente) no corpo alheio, e às vezes grosseiramente alheio, de uma histérica ou de um médium profissional e frio.
Assim eu também consegui saber alguma coisa do que se passava na parte mais oculta, e por mim mais desejada, da alma de Georgina.
Para quê, meu Deus? Para quê?