Destinada ao Grego: a babá e o viúvo proibido
Capítulo 6
mente não
ter visto o carro.
Ai, cacete. Por que, com três irmãos, Deus não me deu pelo menos um que não seja um bastardo desconfiado?
Porque essa é uma caracterí
stica
familiar
— uma voz ironiza.
— Não seriam Kostanidis se não duvidassem da própria sombra.
Capítulo 6
Eu ouvi o médico dizendo que me daria um calmante para dormir. Se deu, não adiantou. Passei a noite em claro tentando entender que aquilo aconteceu mesmo, não foi um sonho.
Eu vim para Manhattan e fiz a loucura de entrar na frente do carro do doutor Dionysus. Mais do que isso, consegui que ele se aproximasse de mim. Na verdade, ele me tocou.
É a última coisa da qual me lembro antes de desmaiar.
Depois, recordo-me dos médicos me examinando no hospital,
perguntando se eu estava com dor e me fazendo repetir o número de dedos na frente do meu rosto.
Nada em mim parece realmente ferido e estou começando a acreditar naquela história de ter mesmo sete vidas.
Eles colheram meu sangue e fizeram exames de imagem.
Lembro também de terem me colocado em uma espécie de tubo para fazer uma tomografia e que eu entrei em pânico porque tenho claustrofobia.
Talvez tenha sido por isso que o médico pensou que precisaria me dar um calmante.
Eu gostaria de um neste exato momento. Não, na verdade, eu queria um vidro inteiro, porque estou nervosa de verdade agora.
A enfermeira entrou há pouco para me avisar que o doutor Dionysus está vindo me fazer uma visita.
Em todas as vezes que imaginei
nosso encontro, certamente
não foi vestida em uma camisola que deixa meu bumbum de fora e muito menos estando deitada em um leito de hospital.
Passo as mãos molhadas de suor frio pelo lençol,
dizendo a
mim mesma que não estou com medo. Eles não podem ter
percebido que me joguei na frente do carro, podem?
Não, Cici, eles não sabem de nada.
Então, por que quando o médico veio me examinar hoje cedo, disse que apesar de eu estar bem, terei que esperar o doutor Kostanidis vir me ver?
Era isso mesmo que eu queria:
conseguir um jeito
de chamar
a atenção dele para que pudéssemos conversar. Claro, nunca pensei em ter que tentar me matar de quebra, mas não vi outra saída.
Eu nunca vou conseguir fazer com que ele me ouça.
Meu Deus do céu, não vai dar certo.
Calma. Não precisa ficar com medo. Mesmo que ele descubra que você se jogou na frente
do carro, ele não vai te matar,
afinal, é um homem civilizado e com muito a perder
.
Então por que quer me ver?
Jesus, eu vou passar mal. A ansiedade está me pondo louca.
— Posso entrar? — um homem pergunta ao girar a maçaneta da porta, mas sem me deixar vê-lo ainda.
Respiro, imediatamente aliv
iada. Não é o todo poderoso grego. A voz que acaba de falar comigo, além do tom parecer pertencer a alguém mais velho, soa insegura. Eu poderia apostar a minha vida que não há um osso no corpo de Dionysus Kostanidis que não seja autoconfiante, então não é ele quem está aqui.
— Pode, sim. Quem é?
Um senhor aparece no meu campo de visão. Ele deve ter por volta de uns sessenta anos e seu rosto apesar de parecer simpático, demonstra apreensão.
— Meu nome é Anderson Colt, senhorita Bradley, e eu sou o motorista do doutor Dionysus Kostanidis.
— Bom dia. Como sabe meu nome? — pergunto, nervosa, ainda que eu tenha certeza de que mesmo tendo conhecimento dele, nunca descobrirão quem sou.
— A ficha do hospital. Tiveram que fazer porque o doutor Kostanidis quis garantir que a senhorita gozasse de todo o necessário. — Ele pausa e parece ainda mais ansioso do que eu. —
Queria me desculpar
, senhorita Bradley
.
— Pode me chamar de Cecily
, senhor Colt.
— Não de Harper?
— Não. Eu odeio esse nome. Foi minha madrasta quem escolheu. Era o nome da avó dela, que nunca conheci.
Ele me olha, confuso e eu sei a razão: como minha madrasta pode ter me dado um nome?
— Minha mãe morreu no parto e meu pai não sabia o que fazer com um bebê, então, apenas quinze dias depois, já estava morando com uma mulher.
Ele parece chocado, mas como o homem educado que presumo que seja, não fala nada.
— Mas ninguém me chama assim — continuo, fazendo de conta que não percebo o quanto está desconcertado. Qual homem colocaria
outra mulher dentro de casa apenas duas semanas após perder a esposa? A resposta é simples:
um que tivesse uma
amante. Afasto os pensamentos tristes porque mais do que nunca, preciso ser forte. — De qualquer modo, para todos, sou Cici.
Ele acena com a cabeça, concordando e em seguida, limpa a
garganta.
— Eu vim para pedir perdão. Não consegui dormir à noite imaginando-a ferida e sozinha no hospital.
Pela primeira
vez, eu entendo as consequências do que fiz
e
o remorso me atinge tão forte que sinto um nó no estômago.
— Eu me distraí — falo depressa. — É um defeito meu.
Essa parte não é mentira. Vivo sonhando acordada, apesar de que, no caso específi
co, foi proposital. Um ato de puro
desespero.
— Tem certeza? — ele pergunta, já parecendo um pouco mais aliviado.
— Tenho sim, senhor Colt. Sou do Kansas, de uma cidade de apenas cinco mil habitantes. Não há trânsito e praticamente só temos uma rua, a principal. Eu fico meio perdida em Manhattan.
Isso é verdade também. Nova Iorque como um todo é assustadora para caramba. Mas quanto ao resto, quando eu explicar a razão de eu estar aqui, será basicamente uma grande encenação.
Não sinto orgulho de estar enganando-o, entretanto, não há outro caminho. Eu e o poderoso grego vivemos em galáxias
diferentes e se não fizess
e o que fiz, nunca conseguiria me
aproximar dele.
— Quero fazer uma pergunta, mas me avise se eu for indiscreto
porque não é minha intenção e sim ajudá-la porque me sinto responsável por você…
Antes que termine de falar
, o celular dele toca e com um
gesto de mão, me pede licença para poder atender
.
Faço que sim com a cabeça e ele se afasta do meu leito, mas
não sai do quarto.
— Sim, senhora Nuttle, eu já soube que a babá da noite não será mais contratada. Tenho certeza de que o doutor Kostanidis está providenciando alguém para colocar no lugar dela.
A mulher parece falar
sem parar porque ele afasta o telefone
e as feições agora demonstram impaciência.
— Sim, ele já está sabendo que a senhora não pode trabalhar dois turnos todos os dias. Daremos um jeito.
Aguarde que
nosso patrão entre em contato — ele finaliza, não dando mais
margem para que a mulher aparentemente continue reclamando.
Em seguida, desliga.
— Desculpe-me por isso — ele pede, mas fingindo que não
estava ouvindo a conversa, olho pela janela.
Apenas quando ele me chama pelo nome, volto a encará-lo com um sorriso quando, na verdade, estou quase vomitando de tanto nervoso.
Babá.
Eles estão precisando de uma babá e agora eu já sei o que fazer.
— Como eu ia dizendo, você contou que veio de uma cidade pequena no Kansas e que Nova Iorque a assusta. Parece muito jovem também.
— Tenho vinte.
— É uma criança praticamente. Quer um conselho, minha filha? Volte para sua cidade. Metrópoles podem engolir
você em um
piscar de olhos.
— Não há nada que eu gostaria mais, no entanto, não posso.
— Por que não?
— Eu prometi a alguém que tentaria a sorte em uma cidade grande e pretendo cumprir a promessa.
Só estou mentindo parcialmente.
Essa era a promessa
original,
antes da tragédia
acontecer
. Agora, eu continuarei
aqui
porque preciso manter a palavra dada.
— E estava dando certo? Pelo que vi, carregava uma mala consigo.
Penso nos dias infernais
que passei desde que cheguei e
suspiro desanimada.
— Não estava, mas não pretendo desistir
— minto, porque na verdade eu já estava quase desistindo
mesmo. — Estou procurando
um emprego.
Dessa vez, quando meus olhos se enchem de lágrimas, não
é fingimento,
é angústia por nada ter funcionado
desde que pisei
no
estado de Nova Iorque, a começar, minha estúpida ingenuidade em
acreditar que eu poderia simplesmente me aproximar do grego, contar minha história e tudo ficaria bem.
— Emprego de quê?
Respiro fundo. É agora ou nunca. Vou precisar ser a melhor atriz do mundo.
— Babá. Li em uma reportagem que Nova Iorque é um dos estados que paga melhor por hora. Eu adoro criança e já cuidei de
muitas na minha cidade. Seria perfeito.
Por um instante, ele me olha com tanta seriedade que quase me remexo na cama, agoniada por pensar que posso ter posto tudo a perder.
Fui com muita sede ao pote?
— Crianças de que idade? — pergunta e meu coração volta a bater.
— Bebês, basicamente, ou até uns três anos, eu me garanto — falo, forçando um sorriso.