Destinada ao Grego: a babá e o viúvo proibido

Capítulo 3

porque uma vez que ele descubra tudo, eu não

terei uma segunda chance.

Faço um aceno de cabeça para o segurança em uma espécie de despedida. Ele foi a pessoa mais simpática que conheci em Nova Iorque desde que cheguei. Ou melhor seria dizer, a menos grosseira.

Puxo algumas respirações profundas e, aos poucos, meus batimentos cardíacos começam a voltar ao normal, mas a falsa sensação de paz não dura nada porque assim que chego na parte traseira do prédio, onde fica

a entrada da garagem, vejo o carro que

apanha o doutor Kostanidis todos os dias.

É agora ou nunca.

Vou precisar de uma das seis vidas restantes, Deus.

Não me desampare.

 

Capítulo 3

— Estamos indo direto para casa, doutor Kostanidis? — meu motorista pergunta assim que entro no carro.

— Sim, Anderson. Eu preciso entrevistar a candidata a babá da noite.

Ou seria melhor dizer:

mais uma babá, de tantas que já falharam

na função.

Vejo pelo espelho retrovisor quando ele contrai os lábios e sei a

razão: Anderson é praticamente da família

e tanto quanto os meus

irmãos, ficou

louco por a minha ex-funcionária

ter abandonado meu

filho

sozinho, chorando no berço, enquanto fazia sexo no andar de baixo.

As outras que a substituíram desde então, não pararam no emprego.

Aperto os olhos por um instante, sentindo uma dor de cabeça se aproximar e me perguntando se não deveria aceitar a sugestão de Zeus e colocar Joseph em uma creche diurna, trocando a babá que fica até as duas para a parte da noite.

O problema é que a senhora Nuttle já avisou que não poderá ficar todas as noites, porque o marido não aceita que ela se ausente por dias seguidos.

— Para o bem do nosso Joseph, espero que essa dê certo, doutor. Aceno com a cabeça concordando, embora tenha as minhas dúvidas.

Enquanto ele arranca com o carro, olho pela janela escurecida, mas com a cabeça a quilômetros de distância.

Eu sei que terei que contratar a senhorita Pain

[7].

Jesus, só o nome da mulher já está errado. Como uma babá pode ter como sobrenome a palavra “dor”?

Sei também que não durará na função e não tem nada a ver com seu sobrenome excêntrico, mas com o fato de que ela não tentou tocar meu filho durante a entrevista.

Na verdade, nem dirigiu um olhar para ele.

Propositadamente, eu deixei o carrinho com meu menino por perto, mas a mulher parecia muito mais concentrada em me provar suas qualificações

profissionais

— que são muitas, não nego — do

que entender que o elemento principal

dessa equação é seu bom

relacionamento com meu filho.

Ao contrário do que a maioria dos sites

para pais solo indica

como requisitos,

eu não dou a mínima se ela fez faculdade

ou fala

mais línguas além do inglês

. Se não tiver uma interação real com

Joseph, para mim não servirá.

— Eu não gostei dela, se me permite falar

. — Anderson expõe

meus pensamentos.

— Eu também não, mas ela tem um currículo impressionante.

— Crianças precisam de muito mais do que educação primordial.

Sim, eu e meus irmãos sabemos disso. Apesar de termos tido uma inf

ância feliz, o que se seguiu no fim da adolescência, com a morte de nossa mãe em um acidente e depois, o suicíd io do meu

pai[8], foi um pesadelo.

Em um piscar de olhos, nós passamos de uma família

unida para

quatro órfãos cujo o patriarca — nosso avô — não foi exatamente um exemplo de amor, apesar de ter se esforçado para equilibrar a

carreira com a dedicação aos netos. Mal nos recuperamos da perda dos nossos pais, no entanto, vovô caiu doente e não durou seis meses.

Zeus fez o seu melhor para nos manter como uma unidade, mas dentro de cada um dos Kostanidis há um buraco emocional que nada consegue preencher.

Não, isso não é verdade. Eu tenho meu filho.

A criança que

entrou no meu caminho por acaso, mas que eu amo como se fosse uma parte de mim.

— Talvez devesse repensar essa contratação então, senhor —

ele diz e apesar de não ser o tipo de homem que aceite opiniões no

que concerne às minhas decisões, sei que só está pensando no bem-estar de Joseph. — Não acho que faça bem ao menino essa mudança constante de pessoas cuidando dele.

— Eu vou analisá-la

com calma nessa última entrevista. Ainda

não decidi nada.

— Graças a Deus! — diz e o que vejo dos olhos através do retrovisor transmite alívio.

— Tem algo de estranho com aquela…

Jesus!

Ele frei

a de repente e eu que já estava distraído enviando uma mensagem para Hades, se não estivesse com o cinto de segurança

teria sido arremessado no banco da frente.

Nem tenho tempo de perguntar o que houve porque Anderson já está do lado de fora do carro.

O que no inferno está acontecendo?

Mesmo quebrando todos os protocolos de segurança e com certeza deixando o chefe dos meus guarda-costas no veículo de trás com cabelos brancos, eu desço também.

Parece a porra de uma realidade paralela quando vejo uma mulher caída na frente do carro.

— Nós a atingimos? — pergunto, sem acreditar e já discando para chamar uma ambulância.

— Não foi culpa minha, doutor Kostanidis.

Ela se jogou na frente

do automóvel ou atravessou sem olhar. Eu não tenho certeza. De qualquer modo, a luz da garagem que avisa a saída dos veículos estava acesa.

Ele parece prestes a desmaiar e mesmo que eu não tenha testemunhado todo o ocorrido, sei que está falando a verdade.

Anderson, assim como Larry, o motorista de Zeus, trabalha com nossa família desde quando meu avô era vivo.

— Eu chamei uma ambulância — falo com ele, enquanto me aproximo para tentar verificar os sinais vitais da mulher

.

Sei que não devo movê-la porque posso piorar sua condição.

Apesar disso, me abaixo para ver se está consciente. Não é da minha natureza ficar parado esperando as coisas acontecerem.

Escuto vozes ao nosso redor. As pessoas se aglomeram, mas estou absolutamente concentrado nela.

Eu não consigo ver seu rosto e sim uma massa de cabelos ruivos que o encobre. Não do tipo fabricado em salões, mas uma juba cheia e ondulada que oscila entre tons de laranja e vermelho.

Ela parece frágil,

membros delicados,

muito branca e tem sardas

pelos braços e pescoço. Está tão imóvel que por um instante eu penso o pior.

Não há sangue, mas eu sei que hemorragias internas são muito mais preocupantes e mesmo que Anderson não estivesse correndo, a garota — sim, acho que é uma garota se for levar em conta o tipo físico

e a maneira como se veste — parece delicada

demais para

suportar o impacto de um automóvel.

Movo os dedos até seu pescoço, rezando para que esteja viva, e volto a respirar quando sinto sua pulsação.

A pele da moça é quente e lisa como seda e eu me sinto meio pervertido por ter esse tipo de percepção.

— Ela está viva — falo para tranquilizar Anderson porque caso

contrário, teremos duas pessoas precisando de socorro ao invés de uma.

Eu nunca o vi tão nervoso.

Ao mesmo tempo, não consigo me afastar dela, sentindo-me ligado à criatura frágil de uma maneira que não consigo entender

.