Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 100 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Estreia literária

 

Desde antes de Homero

a aurora de dedos róseos

pousava todas as manhãs

por obrigação.

Não assim tão róseos.

Nossa aurora particular baixa num vapor

de frio do alto da serra, e mal nos vemos,

errantes, no recreio, em meio a rolos

de névoa.

Outra aurora eu namoro: a Colegial.

Quatro páginas. Quinzenal. 300 réis.

 

“Periódico da Divisão dos Maiores.”

Quero escrever, quero emitir clarões

de astro-rei literário em suas edições.

Dão-me, que esplendor, primeira página,

primeira, soberbíssima coluna.

É a glória, entre muros, mas a glória.

Contemplo, extasiado,

o meu próprio talento em letras públicas.

Ler? Não leio não.

Quero é sentir meu nome, com a notinha:

“Aluno do segundo ginasial”.

 

Já são quatro da tarde.

Até agora ninguém

veio gabar-me a nobre criação.

Ninguém gastou 300 réis para me ler?

Será que meu escrito não é lá uma peça tão sublime?

Decido-me a encará-lo mais a fundo.

Vou me ler a mim mesmo. Decepção.

O padre-redator introduziu

certas mimosas flores estilísticas

no meu jardim de verbos e adjetivos.

Aquilo não é meu. Antes assim,

ninguém me admirar.