Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 27 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

O negócio bem sortido

 

O perfeito negociante vende tudo.

Vende a seda mais fina de Lyon,

o áspero pano da fábrica da Pedreira,

a renda de Malines e a do Norte.

Todas as miudezas de armarinho.

Todos os gêneros do país.

Chapéus-de-sol e de cabeça.

Toda espécie de calçados,

inclusive o “Andarilho”:

não produz calos nem os oprime,

sola impermeabilizada por processo novo,

dispensa graxas e pomadas.

 

À direita uma parede inteira

ostenta licores importados,

conservas inglesas, molhos raros

para os Messers da mina, altos clientes.

(Escondo por trás dessas riquezas

a barra de chocolate sonegada

ao olho distraído do patrão,

e de longe em longe, disfarçando,

mastigo este salário extraordinário.)

 

Ao fundo, em úmida sombra,

mantas de toucinho rosa-sal,

caixotes de milho, barricas de batatas,

sacos de feijão, ferragens rudes

(enxadas: curvo destino nacional).

É provação dominical, antes da missa, (falta descobrir a semana inglesa)

tropeçar os dedos na massa trêmula do porco,

 

recortar a facão

e pesar cinco quilos de gordura.

Por que escolheste vida de caixeiro,

vida de cachorro, o trocadilho exato,

quando podias bem ficar no casarão

em ocioso bem-bom de filho de Coronel?

 

Bobagens: quem explica

as que a gente faz?

Eu sei: foi para, em longas horas estagnadas,

em que ninguém compra, mas conversa

à beira arranhada do balcão

— as horas quase todas do comércio —,

discutir a guerra de 14 que lavra lá no longe

e em que te empenhas tanto do mau lado.

 

Não é fero o patrão.

Decerto preferia

que falasses menos, trabalhasses mais.

E se perceber que o chocolate some,

sem sabor e fumaça, no papel prateado?

Se descobrir? Se te pilhar?

 

Erram pesadelos de caixeirinho

na noite gelada montanhesa.