Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 129 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

O colegial e a cidade

 

Fizeram bem os suíços

fundando Nova Friburgo,

pois um século depois

esta semana de festas

celebra o acontecimento.

Menos aulas; mais saídas.

Vamos cantar pelas ruas

louvores a Deus e à Pátria,

mas vamos principalmente

ver as doces friburguenses

com quem sonhamos à noite

e, mesmo durante o dia,

sonhamos… sem esperança.

Barcos no Rio Bengalas

despertam admiração

e mitos venezianos.

Pudéssemos nós levar

essas meninas nos barcos

e de rio em rio até

às ondas do mar infindo

para cruzeiros bem longe

dos padres que nos vigiam…

Carlos, não pense mais nisso,

contente-se em ver as flores

desabrochadas adrede

para exaltar os suíços.

Entre os alunos, cantores

de bela voz empostada na missa campal entoam

motetes bem ensaiados.

Têm seu minuto de glória.

Você não sabe cantar.

Pegou então a espingarda,

saiu fardado e chibante

(não muito, é claro), formando

no batalhão escolar,

Tenente Brasil à frente,

nessa rude caminhada

ao ritmo da Pátria Amada.

Dor nas costas! A que vieram

esses suíços? Fundaram

sua colônia, e um colégio

depois se plantou aqui?

Estava bem descansado

em meu sobrado mineiro,

era rei da minha vida,

imperador de mim mesmo,

e agora essa confusão.

Friburgo Futebol Clube

acolhe nossos dois times.

Por 4 a 1 os vermelhos

ganham folgado dos pretos.

Você nem é dos vencidos.

Que faz aí, de boboca?

Já vem a sombra caindo

sobre o musgo das encostas

e os alados movimentos

e os bigarrados vestidos

das moças perturbadoras

em grupos pelos canteiros.

E quando a tarde falece

fica tudo mais difícil no peito de aluno interno.

Adeus, cidade, adeus, vida

cá fora rumorejante.

Pior ainda na tarde,

pois já se acendem os fogos

da noite festejadora.

Toda Friburgo relumbra

de luzes especiais

e nós só podemos vê-las

do interior do chatô

como os cativos de Antero,

lidos em livro escondido,

contemplam o firmamento.

É nisso que dão leituras

de poesias sombrias.

A noite do centenário

da chegada dos suíços

é noite maior na gente.

Sentir que lá fora estão

se divertindo fagueiros,

que há risos, beijos, cerveja

e não sei mais que delícias,

e eu aqui me torturando

com tábua de logaritmos…

Vão pro inferno os centenários!