Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 58 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

A separação das casas

 

Os deste lado brigaram

com os do lado de lá.

Não foi briga de xingar,

não foi rixa de bater

nem de sacar o revólver.

É briga de não falar

e de cerrar a janela

devagar e sem ranger,

se passa alguém do outro lado.

Briga de não conhecer

quem antes se conhecia,

se estimava, se tratava

com a maior civilidade,

quem antes se convidava

pra festa de batizado

e primeira comunhão,

casamento, aniversário

ou pra simples assustado,

a quem, se acaso surgisse

gente demais no jantar,

emprestado se pedia

meia dúzia de cadeiras

e meia dúzia de copos,

e que também recorria

com toda sem-cerimônia

à vizinhança amistosa

em noite de dor na perna

e de farmácia fechada com vistas ao milagroso

vidrinho de Pronto Alívio

ou em outro qualquer aperto

que costuma suceder

nos lares mais bem providos.

Troca-troca se fazia

de doces, frutas, temperos,

receitas de forno e bilro,

mimos de mil qualidades

no vai e volta de cestas,

terrinas e tabuleiros.

Crianças das duas casas

unidas num só brinquedo

de chicotinho queimado,

carniça, gata-parida

e manja, roda, cantigas

lusamente brasileiras,

ou melhor, universais.

Té se faz de mentirinha

casamento de meninos

que talvez se torne um dia

matrimônio de verdade

em gorda concentração

de fortunas e de afetos.

(O mundo, calmo, autoriza

esperar dez, quinze anos.)

Eis de súbito alterado

o panorama gentil

de tão grata convivência.

Não se tira mais chapéu

nem mais se exibem risonhos

dentes de cordialidade,

já se finge não haver,

dos dois lados desta rua, ninguém morando por perto.

Há um vazio de cem léguas

na estreiteza das calçadas.

Pequenos brinquem no quarto,

o velocípede novo

rode da sala à cozinha,

muito embora atropelando

grandes de todo respeito,

e quem fizer um aceno

para vulto de outro lado

entra feio na chinela

de ramagem verde hostil.

No grupo escolar, cuidado:

ninguém vá se misturar.

Que foi que houve, que não

houve, se nada sabemos?

Quem por acaso decifra

o que pode haver no ar

ou na cabeça dos grandes

reticentes, sigilosos?

Do lado de lá não sabem;

do lado de cá, também.

Não se filtra explicação.

Cala a boca! é a resposta

a quem demais especule.

E todo o mundo virou

cofre estranho de mistério

exemplarmente fechado

a mãos, olhares, perguntas…

Mas a velha cozinheira,

peça antiga da família,

que tudo sabe e resmunga

seu misto de língua longe

e de estalar de panela, cospe de lado e define:

— Candonga, gente. Candonga.