Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 136 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Dois fantasmas

 

O fantasma da Serra,

natural de Ouro Preto,

ninguém mais fala nele.

Desistiu; apagou.

Nos lentos, velhos tempos

cumpria seu destino

com toda a sisudez.

Era grave, pontual,

a ninguém assustava.

Surgia à meia-noite

e trinta, ponderado,

no nevoeiro de junho,

a pessoas seletas

que voltavam de festa.

Deixava-se ficar

junto a portões de chácaras

e lembrava sem gesto

a convivial presença

das almas do outro mundo

no coração mineiro.

Há muito ninguém volta

de festa na Floresta

ou qualquer outro bairro.

A rua embalsamada

permanece vestida

de solidão-magnólia.

Por falta de assistentes,

retira-se o fantasma rumo ao País do Tédio.

Chega a vez do avantesma

da popular Lagoinha,

noutro extremo da vida.

Sinal de coisas novas.

É excêntrico, forja

diabruras cruéis.

Espanta motorneiros

sentando-se entre os trilhos

sem mover uma palha

se o bonde tilintante

desce a rampa. Conserva-se

em calmo desafio

à potência rangente.

O motorneiro, morto

de pavor, pula fora,

o condutor imita-o,

os raros passageiros

dessa hora glacial

aos gritos se levantam,

e, no tremendo instante

de esmagar o duende

ou de morrermos todos,

ele, o senhor de preto,

sem rosto, mas sarcástico

na postura insolente,

dissolve-se qual sonho

que não quer ser sonhado.

Em estrondar de rodas

de súbito freadas,

o pesadelo extingue-se.

Apenas se distingue

no interior do bonde

o convulsivo choro, e na rua teatro

ao sol da lua cheia,

vago cheiro de enxofre.