Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 182 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

O príncipe dos poetas

 

Fazer.

É preciso fazer alguma coisa

que pelo menos risque um círculo

efêmero na água morta da cidade.

Vamos eleger o Príncipe dos Poetas Mineiros?

Na redação, em mesas próximas,

João Alphonsus emite

seu sorriso enigmático,

Emílio, recém-chegado de galáxia,

aprova com doçura.

 

Mãos à obra!

O eleitorado é quem quiser

ser eleitor, principalmente nós,

inelegíveis de nascença.

Pingam votos esparsos. Desconfiança.

Isso é brincadeira

de irresponsáveis futuristas?

É sério, gente. Votos

para Belmiro Braga, o velho Augusto

de Lima e Noraldino e Mário Matos.

Poeta nenhum deixa de ter o seu votinho,

menos nós, questão de ética ou de tática?

Abgar, nosso amigo, cresce em números,

mas se for escolhido vão dizer

que a eleição, como as outras, nada vale.

Em apuros estamos. Afinal,

qual será, dos poetas, o mais nobre,

aquele que a Bilac se compare?

Um não serve por isso ou por aquilo.

Outro passou de moda. Outro é feroz

contemptor de experiências modernistas.

E um Príncipe hostil não apetece

à nossa moderada veia lúdica.

O estalo nos salva: Honório Armond

em sua Barbacena roseiral

é altivo, discreto, bom poeta,

dará ao fraco título grandeza.

Votação carregada

elege-o com destaque. Muito bem.

Mas Honório, mineiro cem por cento,

sem recusar redondamente a láurea,

responde: “Eu, Príncipe? De quê?

Só se for, por distinção latina,

Princeps Promptorum”… E continua

sereno, silencioso,

em seu rosa-lar de Barbacena.