Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 157 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Três no café

 

No café semideserto

a mosca tenta

pousar no torrão de açúcar sobre o mármore.

Enxoto-a. Insiste. Enxoto-a.

A luz é triste, amarela, desanimada.

Somos dois à espera

de que o garçom, mecânico, nos sirva.

Olho para o companheiro até a altura da gravata.

Não ouso subir ao rosto marcado.

Fixo-me na corrente do relógio

presa ao colete; velhos tempos.

Pouco falamos. O som das xícaras,

quase uma conversa. Tão raro

assim nos encontrarmos frente a frente

mais que por minutos.

Mais raro ainda,

na banalidade do café.

A mosca volta.

Já não a espanto. Queda entre nós,

partícipe de mútuo entendimento.

Então, é este o mesmo homem

de antes de eu nascer

e de amanhã e sempre?

Curvado.

Seu olhar é cansaço de existência,

ou sinto já (nem pensar) a sua morte?

Este estar juntos no café,

não hei de esquecê-lo nunca, de tão seco e desolado — os três

eu, ele, a mosca —:

imagens de mera circunstância

 

ou do obscuro

irreparável sentido de viver.