Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 163 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Plataforma política

 

O noturno mineiro

congrega na estação

da Central do Brasil

a fina flor política.

Dez horas da manhã,

desembarcam sublimes

estadistas do Rio.

Quatro e vinte da tarde,

despedem-se conspícuos

estadistas locais.

A plataforma zumbe

de abraços e cochichos.

Lá vai o deputado

amigo do Palácio-

-em-flor da Liberdade

e chega o senador

comensal do Catete.

Coronel ajudante

de ordens, rutilante

na farda feita lírio

de imácula brancura,

mostra o grau de prestígio

de quem sai ou quem vem:

o Senhor Presidente

faz-se representar.

Sensação: desta vez

o próprio Presidente

do valoroso Estado calca seus borzeguins

no ladrilho vulgar.

A música festeira

extravasa da banda

militar requintada

e leva a toda Minas

o som do alto poder

que domina montanhas

e elege candidatos

mesmo à falta de votos.

Que emérita figura

de altíssimo coturno

tira Sua Excelência

da torre oficial?

O Chefe da Nação?

O Papa? O Imperador

de algum remoto Império?

O banqueiro londrino

que veio ver de perto

as arras prometidas

ao desejado empréstimo?

Tento em vão acercar-me

do círculo dileto

que usufrui a presença

do egrégio titular

emanador de eflúvios

benignos. Em muralha,

casimiras escuras

e notórios secretas

em seu redor me barram

o horizonte visual.

Sei que perto de mim,

contudo inatingível,

astro do empíreo cívico, o Presidente espera

outro deus, outro astro,

na estação convertida

em sacro belvedere.

Somem carregadores,

jornaleiros, cambistas

de palpites lotéricos.

Viajantes banais

esgueiram-se, dissolvem-se

na pompa do espetáculo.

A Central do Brasil

é ara, catedral

do mineiro mistério

do Poder com pê grande,

o Poder Triunfal.