Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 146 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

O grande filme

 

Vejo Intolerância, de Griffith,

no Cinema Pathé.

Estudante já não vale nada.

Pago entrada comum, preço incomum:

2 mil-réis e mais 100 réis de imposto.

Os habitués foram preparados

por anúncios maiores no Minas Gerais:

“Procurem compreender, não somos gananciosos.

O filme tem 50 mil comparsas,

15 mil cavalos, 30 artistas

famosos, quatro romances, 14 partes.

Construiu-se um templo colossal

(1500 metros de fundo),

a orquestra executa partitura

escrita especialmente…”.

 

Intolerância

ou a luta do amor através das idades,

Cristo, Babilônia, São Bartolomeu noturno…

É grandioso demais para a minúscula

visão minha da História, e tudo aquilo

se passa num mundo estranho a Minas

e à nossa ordem sacramental, sob a tutela

do nosso bom Governo, iluminado

por Deus.

 

Esmaga-se esse monstro de mil patas.

Saio em fragmentos, respiro o ar

puríssimo de todas as montanhas.

Intolerância? Aqui no alto, não,

desde que se vote no Governo.