Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 178 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Final de história

 

O quadro de formatura

foi pintado por Borsetti.

Borsetti, falsário exímio,

condenado por malfeitos,

aceita e avia encomendas

de todos os diplomandos

de academias mineiras.

Pintadas por trás de grades,

alegorias libertam-se,

vai Têmis e vai Hipócrates,

vão Mercúrio e saduceu

e vão sentenças latinas

cantando por toda parte

arte e engenho refinados

de montanhesa sapiência.

Meu Deus, formei-me deveras?

Sou eu, de beca alugada,

uma beca só de frente,

para uso fotográfico,

sou eu, ao lado de mestres

Ladeira, Laje, Roberto,

e do ínclito diretor

doutor Washington Pires?

Eu e meus nove colegas

mais essas três coleguinhas,

é tudo verdade? Vou

manipular as poções

que cortam a dor do próximo e salvam os brasileiros

do canguari e do gálico?

Não posso crer. Interrogo

o medalhão do Amorim:

Companheiro, tu me salvas

do embrulho em que me meti?

Dou-te plenários poderes:

em tuas farmácias Luz

ou Santa Cecília ou Cláudia,

faze tudo que eu devia

fazer e que não farei

por sabida incompetência:

purgas, cápsulas, xaropes,

linimentos e pomadas,

aplica, meu caro, aplica

trezentas mil injeções,

atende, ajuda, consola

sê enfermeiro, sê médico,

sê padre na hora trevosa

da morte do pobre (a roça

exige de ti bem mais

que o nosso curso te ensina).

Vai, Amorim, sê por mim

o que jurei e não cumpro.

Fico apenas na moldura

do quadro de formatura.