Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 20 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Correio

 

A grande hora da chegada

do Correio.

Ninguém te escreve, mas que importa?

Correio é belo de chegar.

Surge no alto da ladeira

a mula portadora de malas,

trazendo o mundo inteiro no jornal.

O Agente do Correio está a postos

com os filhos funcionários a seu lado.

É família postal há muitos anos

consagrada a esse ofício religioso.

As malas borradas de lama

com registrados e impressos

que a chuva penetrante amoleceu

abrem-se perante os destinatários

como flores de lona

vindas de muito longe.

Cada família ou firma tem sua caixa aberta

onde se deposita a correspondência,

mas bom é recebê-la fresquinha das mãos

de Sô Fernando, que negaceia,

brinca de sonegar a carta urgente:

— Hoje não tem nada pra você.

— Mas eu vi, eu vi na sua mão.

— Engano seu. Quer um conselho?

Vai apanhar tiziu que está voando

lá fora.

 

Ver abrir a mala é coisa prima.

Traz as revistas de sábado

com três dias de viagem morro acima

abaixo acima, e o cheiro liso do papel

invadindo gravuras: Duque dança,

as barbas de Irineu bolem na brisa

do Senado, e na Rússia

o czar Nicolau tem o olhar vago

de quem vai ser fuzilado e ainda não sabe.

 

Tudo chega na hora

do Correio. A mula é mensageira

do Fato, e sabe

antes de nós toda a terrestre

aventura. Mal comeu

sua cota de milho, já prossegue

rumo do Itambé, levando o mundo.