Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 132 de 193

Páginas do PDF

Boitempo: Esquecer para Lembrar

Mocidade solta

A CASA SEM RAIZ

 

A casa não é mais de guarda-mor ou coronel.

Não é mais o Sobrado. E já não é azul.

É uma casa, entre outras. O diminuto alpendre

onde oleoso pintor pintou o pescador

pescando peixes improváveis. A casa tem degraus de mármore,

mas lhe falta aquele som dos tabuões pisados de botas,

que repercute no Pará. Os tambores do clã.

A casa é em outra cidade,

em diverso planeta, onde somos o quê? numerais moradores.

 

Tem todo o conforto, sim. Não o altivo desconforto

do banho de bacia e da latrina de madeira.

Aqui ninguém bate palmas. Toca-se campainha.

As mãos batiam palmas diferentes.

A batida era alegre ou dramática ou suplicante ou serena.

A campainha emite um timbre sem história.

A casa não é mais a casa itabirana.

 

Tenho que me adaptar? Tenho que viver a casa

ao jeito da outra casa, a que era eterna.

Mobiliá-la de lembranças, de cheiros, de sabores,

de esconderijos, de pecados, de signos,

só de mim sabidos. E de José, de mais ninguém.

 

Transporto para o quarto badulaques-diamante

de um século. Transporto umidade, calor,

margaridas esmaltadas fervendo

no bule. E mais sustos, pavores, maldições

que habitavam certos cômodos — era tudo sagrado.

Aqui ninguém morreu, é amplamente

o vazio biográfico. Nem veio de noite a parteira

(vinha sempre de noite, à hora de nascer),

enquanto a gente era levada para cômodos distantes,

e tanta distância havia dentro, infinito, da casa,

que ninguém escutava gemido e choro de alumbramento,

e de manhã o sol era menino novo.

 

Faltam os quadros dos quatro (eram quatro continentes:

América Europa Ásia África), mulheres

voluptuosamente reclinadas

em coxins de pressentidas safadezas.

A fabulosa copa onde ânforas

dormiam desde a festa de 1898

guardando seus tinidos subentendidos,

guardando a própria cor enclausurada.

O forno abobadal, o picumã

rendilhando barrotes na cozinha.

E o que era sigilo nos armários.

E o que era romance no sigilo.

Falta…

Falto, menino eu, peça da casa.

 

Tão estranho crescer, adolescer

com alma antiga, carregar as coisas

que não se deixam carregar.

A indelével casa me habitando, impondo

sua lei de defesa contra o tempo.

Sou o corredor, sou o telhado

sobre a estrebaria sem cavalos mas nitrindo

à espera de embornal. Casa-cavalo,

casa de fazenda na cidade,

o pasto, ao Norte; ao Sul, quarto de arreios,

e esse mar de café rolando em grão

na palma de sua mão — o pai é a casa e a casa não é mais, nem sou a casa térrea,

terrestre, contingente,

suposta habitação de um eu moderno.

 

Rua Silva Jardim, ou silvo em mim?