Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 49 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Coqueiro de Batistinha

 

Ausente de meu querido torrão natal, havia muitos anos, quis rever os sítios amenos… Revoltou-me não rever mais o encantador

e quase secular coqueiro do saudoso também Batistinha.

Do volante assinado “Um itabirano”, remetido ao autor em 1955

 

Já não vejo onde se via

aquele esbelto coqueiro

de Batistinha.

 

Batistinha não nascera,

o coqueiro ali pousava

a esperá-lo.

 

Queria ser seu amigo.

Com lentidão de coqueiro

espiava ele crescer.

 

Amizade que não fala,

mas se irradia por tudo

que é silêncio de verdura.

 

Até que alguém lhe decifra

esse bem-querer de palmas

e chama-lhe:

Coqueiro de Batistinha.

 

Batistinha vai à Europa,

vê Paris de antes da guerra,

vê o mundo

e a luz que o mundo tinha.

 

O coqueiro, mui sisudo, jamais saiu a passeio.

Tomava conta da loja

de Batistinha.

 

Vem Batistinha contando

as maravilhas da terra.

Maravilha outra, a escutá-lo,

o coqueiro

era coqueiro-viajante

nos passos de Batistinha.

 

O dia se repetindo

dez mil dias, Batistinha

tem esse amigo a seu lado.

 

Já se finou Batistinha

com tudo que tinha visto

em giros de mocidade.

 

Sua loja está fechada.

E resta ao coqueiro? Nada.

 

De manhã cedo, pois cedo

começa a rodar mineiro,

passando por lá não vejo

nem retrato de coqueiro.

 

A Prefeitura o cortou?

Ou o raio o siderou,

o caterpilar levou?

 

No perguntar-se geral,

sabe menos cada qual

do que saberia um coco.

 

Tão simples,

e ninguém viu:

sem razão de estar ali, privado de Batistinha,

o seu coqueiro

sumiu.