Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 29 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Tempo ao sol

 

Sentados à soleira tomam sol

velhos negociantes sem fregueses.

É um sol para eles: mitigado,

sem pressa de queimar. O sol dos velhos.

 

Não entra mais ninguém na loja escura

ou se entra não compra. É tudo caro

ou as mercadorias se esqueceram

de mostrar-se. Os velhos negociantes

já não querem vendê-las? Uma aranha

começa a tecelar sobre o relógio

de parede. E o sagrado pó nas prateleiras.

 

O sol vem visitá-los. De chapéu

na cabeça o recebem. Se surgisse

um comprador incostumeiro, que maçada.

Ter de levantar, pegar o metro,

a tesoura, mostrar a peça de morim,

responder, informar, gabar o pano…

 

Sentados à soleira, estátuas simples,

de chinelos e barba por fazer,

a alva cabeça movem lentamente

se passa um conhecido. Que não pare

a conversar coisas do tempo. O tempo

é uma cadeira ao sol, e nada mais.