Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 80 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Primeiro colégio

FIM DA CASA PATERNA

 

I

 

E chega a hora negra de estudar.

Hora de viajar

rumo à sabedoria do colégio.

 

Além, muito além de mato e serra,

fica o internato sem doçura.

Risos perguntando, maliciosos

no pátio de recreio, imprevisível.

O colchão diferente.

 

O despertar em série (nunca mais

acordo individualmente, soberano).

A fisionomia indecifrável

dos padres professores.

Até o céu diferente: céu de exílio.

Eu sei, que nunca vi, e tenho medo.

 

Vou dobrar-me

à regra nova de viver.

Ser outro que não eu, até agora

musicalmente agasalhado

na voz de minha mãe, que cura doenças,

escorado

no bronze de meu pai, que afasta os raios.

 

Ou vou ser — talvez isso — apenas eu

unicamente eu, a revelar-me

na sozinha aventura em terra estranha?

Agora me retalha o canivete desta descoberta:

eu não quero ser eu, prefiro continuar

objeto de família.

 

II

 

A “condução” me espera:

o cavalo arreado, o alforje

da matalotagem,

o burrinho de carga,

o camarada-escudeiro, que irá

na retaguarda,

meu pai-imperador, o Abre-Caminho.

 

Os olhos se despedem da paisagem

que não me retribui.

A casa, a própria casa me ignora.

Nenhuma xícara ou porta me deseja

boa viagem.

Só o lenço de minha mãe fala comigo

e já se recolheu.

 

III

 

São oito léguas compridas

no universo sem estradas.

São morros de não acaba

e trilhas de tropa lenta

a nos barrar a passagem.

Pequenos rios de barro

sem iaras, sem canoas

e uns solitários coqueiros

vigiando mortas casas

de falecidas fazendas.

Ou são mergulhos na lama

de patas que não têm pressa

de chegar a Santa Bárbara.

Quando termina a viagem,

se por acaso termina,

pois vai sempre se adiando

o pouso que o pai promete

a consolar o menino?

Que imenso país é este

das Minas fora do mapa

contido no meu caderno?

Que Minas sem fim nem traço

de resmungo entre raríssimos

roceiros que apenas roçam

mão na aba do chapéu

em saudação de passante?

O cavalgar inexperto

martiriza o corpo exausto.

Se bem que macia a seda,

deixa o traseiro esfolado.

Até que afinal, hosana!

apeando em São Gonçalo

diante da suspirada

venda de Augusto Pessoa,

meu pai, descansando, estende-me

o copo quente e divino

de uma cerveja Fidalga.

Bebi. Bebemos. Avante.

 

IV

 

Tenho que assimilar a singularidade

do trem de ferro.

Sua bufante locomotiva, seus estertores,

seus rangidos, a angustiante

ou festiva mensagem do seu apito.

 

Ah, seus assentos conjugados de palhinha

sobre o estofo.

Nunca viajei em bloco, a vida

começa a complicar-se.

Novidade intrigante, o sabonete

preso na corrente.

 

Minha terra era livre, e meu quarto infinito.