Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 144 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Doidinhos

 

Também não alcancei os Jardineiros do Ideal,

mocidade morta de Belo Horizonte.

Não conheci os Raros,

os Magnificentes,

— oh que delícia: os Malditos,

do tempo em que o autor falava a leitores hipotéticos:

“Este é um livro de estreia. Caluniai-o”.

Resta, de tantas brumas, o velho Horácio

e seu ceticismo sorridente

na cartorária redação do Diário de Minas.

Não me conta do Barão do Sete-Estrelo

nem do Cavaleiro da Rosa-Cruz.

Os tempos já não são os tempos. Ou nunca foram?

Governa, de pince-nez, Raul Soares,

vem aí Melo Viana, e Bernardes domina,

do alto dos altos, de pince-nez redondo,

o céu nacional.

Horácio? Sorri apenas,

diz alguma coisa que não entendo bem,

nem é para entender: suave cortesia

de quem pressente em mim um novo Raro,

novo Maldito, novo Magnificente,

ocupando na promíscua Pensão Alves um castelo de nuvens.

Não, meu, nosso castelo, a Confeitaria Estrela

é bem terrestre, com sua vitrina de salgadinhos,

e já não somos nem Raros nem Malditos,

mas simples Doidinhos de nova espécie,

arrancadores de placas de advogados e dentistas em noites de pouca ronda,

pequenos incendiários sem tutano

de atear completas labaredas.

Somos o que somos, mestre Horácio.