Boitempo: Esquecer para Lembrar
Posfácio
“NO CÉU LIVRE POR VEZES UM DESENHO”
John Gledson
Boitempo não é um livro difícil, e os poemas, em geral, não precisam de
muito comentário. São, assumidamente, fragmentos. Sua ordem é simples
— cronológica, com frequência agrupados por temas — e foi mudada sem
cerimônia entre as coletâneas originais e o volume final. O posfácio a este
segundo volume visa apenas apresentar algumas sugestões e ideias: o
leitor ou a leitora saberá encontrar seu próprio caminho, seus poemas
prediletos.
Um elemento desse novo mundo poético — e o comentário vale também
para os outros poemas contemporâneos, até Farewell — é a variedade e a
mestria da versificação, e em geral da construção dos poemas. Entre 1924
e 1962, é claro, Drummond variara muito, dos poemas-piada e cartão-
postal de Alguma poesia à palavra-puxa-palavra mais complexa e
brincalhona de Brejo das Almas, às redondilhas aceleradas de José, ao
verso livre de A rosa do povo, os sonetos secos e irritados de Claro
enigma, os poemas longos e complexos de Fazendeiro do ar (“Elegia”,
“Escada”…), ao “concretismo” falso e à liberação das palavras de Lição
de coisas. Podia parecer que não houvesse novas opções no “largo
armazém do factível”. Em Boitempo, porém, Drummond mina toda essa
experiência, todo esse passado, para encontrar a forma certa, o “desenho”
inerente a cada poema. Por toda parte há ecos do passado.
O objetivo às vezes parece fazer com que a forma do poema fique
invisível, o simples resultado do assunto, mas as coisas não são tão
simples assim. Numa das cartas a Favita — sua sobrinha, filha do irmão
Altivo —, de 24 de outubro de 1977, Drummond fala de um poema
planejado, e diz que será em “pé quebrado”, escolha típica de um poeta
que gosta de brincar com as regras e quebrá-las.1 Quem duvide do
interesse de Drummond por esses assuntos deve ler o poema “A paixão
medida”, da coletânea de mesmo nome.
Essa capacidade de achar as palavras, sons, ritmos e formas para tudo
tem um reverso incômodo: o poeta sente saudades das lutas anteriores para
expressar-se. Num poema curto de Boitempo (1968), “Primeiro conto”,
uma tentativa primitiva de escrever fica “tão esmaecida/ que nem mancha o papel”. Agora, porém, a situação é a oposta: “Quem decifra por baixo/ a
letra do menino,/ agora que o homem sabe/ dizer o que não mais/ se oculta
no seu peito?”. Nada é escondido, não há conflito — pode ser que o poeta
suspeite, nesse processo, que sua poesia tenha perdido parte do poder.2
Eis aqui um exemplo dessa perícia e sutileza. “O ator”, da primeira
seção do livro, e do Boitempo de 1968, conta a história de um escravo
fugido — “por si mesmo libertado”. O verso é de redondilha maior, e
começa com um ritmo forte, e rimas alternadas, também fortes, em -ado.
Descreve a viagem do avô do poeta para “vender burro brabo fiado”, e
deixa espaço para um humor leve. Então, na linha 29, muda: as rimas
desaparecem, o ritmo fica menos insistente, com mais enjambement, e “o
drama tem outra face”, focalizando o escravo, que se fez ator, o ambiente
mágico da peça (A Vingança do Passado) — e, implicitamente, a própria
liberdade ameaçada. Quando o dono reconhece sua propriedade (por uma
cicatriz na testa, note-se), vêm à tona ecos da rima, típicos da assonância
da balada, do “romance” tradicional — “Fernando”, “banco”, “mostrando”
—, até que finalmente voltam à rima plena, sublinhada por uma rima
interna: “Bacalhau, ai bacalhau/ que te abrase o rabo, diabo/ Acaba com
esta papeata/ senão sou eu que te acabo”. Voltamos à realidade brutal e às
rimas em -ado, à servidão e ao distanciamento final, cômico, inesperado e
inesquecível: “A tropa vai caminhando/ pelo Segundo Reinado”. Esse
emprego da rima, tragicômico, quase melodramático, é um velho instinto,
quase um princípio do poeta. Rimas não são soluções, e “a poesia mais
rica/ é um sinal de menos”.
Os poemas longos em redondilha são muito característicos de
Drummond: começam em José (1942), com alguns poemas definitivos
(“José”, “Viagem na família”, “O lutador”).3 Esse meio-termo entre
liberdade e restrição, moto-contínuo e quietude, uso e abandono de rima,
assonância e ritmo, tudo aponta para um compromisso entre extremos. Um
exemplo contrastante é o poema titular, “Boitempo”, dos mais belos do
livro. A ação é mínima, uma simples passagem de tempo, do anoitecer à
aurora, dominada pelo gado — os humanos aparecem só implícitos, na
“luz que a vidraça/ da casa fazendeira/ derrama no curral”, e mais uma vez pelos verbos em primeira pessoa (dormimos, acordamos). As ligeiras
tensões e distensões provêm em parte da extensão das frases, que duram
entre duas e sete linhas, e culminam na “estátua de sal” que marca a
fronteira entre o nosso mundo e o deles, do gado: talvez lembre a mulher
de Lot (Gênesis 19,26) ou então Eurídice, que também cede à tentação de
olhar esse outro mundo “noturno”, tão característico de Drummond, e do
qual, em Sentimento do mundo, José e A rosa do povo, encontra tanta
dificuldade em sair para a luz.4 Aqui em Itabira, tudo é simples, natural e
onomatopaico:
A luz chega no leite,
morno esguicho das tetas
e o dia é um pasto azul
que o gado reconquista.
O núcleo original de Boitempo (1968), e até certo ponto dos poemas da
seção “Memória”, de Lição de coisas — por exemplo em seu primeiro
poema, “Terras” —, contém um elemento utópico, subvertido talvez,
porém presente:
Serro Verde Serro Azul
As duas fazendas de meu pai
aonde nunca fui
Miragens tão próximas
pronunciar os nomes
era tocá-las
Nada é simples, claro, mas a ideia de que “criação e gente, em liga,/ tudo
era casto” implica uma espécie de inocência perdida. Uma expressão
perfeita da inocência edênica (e irônica) é o poema “Cisma”:
Este pé de café, um só, na tarde fina,
e a sombra que ele faz, uma sombra menina
entre pingos vermelhos.
Sentado, vejo o mundo
abrir e reabrir o seu leque de imagens.
Que riqueza, viver no tempo e fora dele.
Eis desce lentamente o tronco e me contempla,
a embeber-se no meu e no sonho geral,
extasiada escultura, uma cobra-coral.
O menino, “no tempo e fora dele”, contempla o pé de café, com seus
bagos vermelhos, extasiado. Mas não há Éden sem cobra: num equilíbrio
familiar entre quietude e movimento, a cobra-coral desliza pelo tronco; o
vermelho da pele é um eco dos bagos. Até as rimas das primeiras e últimas
linhas, exprimindo a inocência e o perigo iminente, sublinham a perfeição
desse poeminha.
Ao sair deste mundo, seguimos uma ordem mais ou menos cronológica
nos trezentos poemas situados em Itabira, divididos em seis seções: há
também um movimento do mais individual — uma das seções de
Boitempo (1968) intitulava-se “Um” — para o coletivo, do eu para a
família, e de lá para a cidade de “Repertório urbano”. Na primeira seção,
“Pretérito mais-que-perfeito” (isto é, um tempo além do passado pessoal
do poeta), começamos pelo vazio, o que não há mais: os pássaros, animais
e plantas extintos de “Chamado geral”, ou a anta do poema homônimo,
que só habita livros de história — “Que sei do tapir/ senão sua derrota?”
(“Resumo”), como diz noutro poema. Os índios também sumiram,
deixando traços indecifráveis: o “eco” do primeiro poema da segunda
seção, “Fazenda dos 12 vinténs, ou do Pontal”,5 reaparece no poema final
da mesma seção, “Inscrições rupestres do Carmo”, onde o menino, indo
para a escola com lápis e tabuada, cisma “nesses mágicos desenhos/ que
bem desenharia, fosse índio” (grifo meu).
Os escravos aparecem com alguma frequência, em poemas muito
variados. “Homem livre” forma um contraste (intencional?) com “O ator”:
aqui, vemos que o jeito de se libertar da escravidão era fazer-se
indispensável no mundo dos livres. Manuel Chassim (bem possivelmente
o mesmo que Drummond menciona na carta a Favita) tenta recuperar seu
escravo, botando anúncio até no Jequitinhonha, mas Atanásio (que
inclusive tem nome, diferente do “ator”) se fez cozinheiro num Seminário
de Diamantina, e “quem vai prender homem de tantas qualidades?”.
Outros poemas habitam um mundo quase mítico, herdeiro do
extraordinário “Canto negro”, de Claro enigma. “Barra do Corcunda”, por
exemplo, é um quilombo, lugar real e imaginado, visto numa distância
enevoada: “As mulheres não choram/ na Barra do Corcunda./ A chuva é
que lhes dá/ a feição deslizante/ de úmidas estátuas. / O mais, tudo normal”. Mas nem tudo é mito: também há a liberdade sexual e a
violência implícita de “Negra” ou “Ar livre”.
Daqui vamos, na seção “Morar nesta casa”, para a casa familiar, descrita
em detalhe no poema introdutório, “Casa”, com todas as suas
dependências, sua gente, seus ritos, até o anticlímax, aqui em forma de
poema, do fim da seção, “Liquidação”, que lembra muitos poemas
anteriores, como “Os bens e o sangue”, ou “Viagem na família”: “A casa
foi vendida com todas as lembranças/ todos os móveis todos os pesadelos/
[…] / seus imponderáveis/ por vinte, vinte contos”.
A seção “Notícias de clã” focaliza a família, que inclui os mortos, em
“Os chamados” e “O preparado”, poema que originalmente, e ainda no
sumário de Boitempo (1968), intitulava-se “Geraldo”, nome de um irmão
mais novo do poeta, que morreu com três anos, de crupe.6 “Foto de 1915”
incorpora esses mortos numa nova versão de “Retrato de família”, de A
rosa do povo, porém mais triste, como que hesitante e frágil. É a
Tradicional Família Mineira, tal qual a esperaríamos, com sua insistência
na autoridade paterna e as consequências nefandas de desafiá-la (“O
beijo”, “Revolta”). Em “Escrituras do pai”, os efeitos desse regime duram
pela vida afora, com a sensação, presente em muitos poemas, de que
“Tudo foi previsto/ e proibido/ no Antigo Testamento do Brasil”
(“Justificação”). O patriarcalismo é a regra, mas a distância quase mítica
do pai de “Infância”, de Alguma poesia, cede a uma perspectiva mais
humana:
paira alto alto alto
e não chego ao seu estribo.
Mas desce à porta de casa
em tamanho natural.
Essa família, como toda família extensa (“Os tios e os primos”,
“Romance de primas e primos”), tem seus santos (“Santo particular”) e
pecadores: Sofia “semilouca de raça ilustre”, ou Márgara, “vestida de
homem da cabeça aos pés”, que ensaiam a objetividade e simpatia do
poeta diante de tais “anomalias”. Mais uma vez, a seção termina com uma
imagem de fim, de destruição, do monolito, o “túmulo orgulhoso/ do grão
senhor de terras e da tribo” fendido por um raio (“Aquele raio”). Mas não podia faltar um lado quase cômico, em “Conversa”, por exemplo, com
seus “bois pastando na sala de visitas/ divisas disputadas, cercas a fazer”,
ou “trivial”, como o memorável “Atentado”.
A próxima seção, “O menino e os grandes”, privilegia o ponto de vista
da criança, no processo de crescer, os ritos, cortar as unhas às quintas, dar
dinheiro aos pobres aos sábados, ter de vestir uma roupa de marinheiro
(“merda moda”). Passamos também da iniciação literária — em
“Repetição”, soneto abertamente nostálgico (“É toda musgo a tarde
itabirana”), e “Biblioteca verde”, sobre os “24 volumes encadernados/ em
percalina verde” que, diante da insistência do menino, o pai encomenda do
Rio de Janeiro — para a sexual, em vários poemas sobre “o código do
amor”, das primeiras experiências malogradas com as “negrinhas”
(“Tentativa”); ou procurar espiar as partes íntimas da mulher (“Menina no
balanço”); ou esconder-se no porão para vê-las através das gretas do
assoalho (“Le voyeur”) — só que “a sola negra dos sapatos” impede a vista
e adia “a triste polução” —; ou a obsessão com “A puta”. Essa franqueza
sexual é típica do Drummond dos anos 1970, até de antes, nos poemas de
O amor natural, alguns escritos na época de Claro enigma. Antes do
colégio e da perda da fé, porém, insinua-se a religião — o menino precoce
é sempre perseguido pelo “Deus do catecismo” e pelo seu representante na
terra, o padre, que o confessa, e cuja mão sempre tem de beijar (“O padre
passa na rua”).
Em “Repertório urbano”, somos levados a conhecer a cidade, seus
logradouros, bairros, casas etc. Dois poemas dos mais curtos, contidos e
belos evocam dois cemitérios, o do Cruzeiro, calmo, resignado, mas arisco
(“não atendemos à chamada”), e o do Rosário, dos escravos e negros (“os
mais esquecidos/ inominados/ de todos os mortos antigos”). Outros
descrevem as personagens mais notáveis da vila, como os turcos, de
“bigodes pontudos, caras / de couro curtido”, Alfredo Duval, o “santeiro
anarquista”, que aparece já em “Confidência do itabirano”, e Fernando
Terceiro, o agente do correio parecido com Francisco José, imperador da
Áustria. Nessa seção, às vezes, aparecem alguns eventos históricos, por
mais distantes, irrelevantes e até cômicos que sejam ou pareçam: pouco a
pouco, surgimos para a história. Também aqui já começa o processo de “despojamento”, no sentido de perda; a riqueza da vila é desperdiçada com
artigos importados (“Império mineiro”), o suposto “velhaco” Zico
Tanajura vende sua terra a Mr. Jones, “distinto representante de Mr. Hays
Hammond/ embaixador de Tio Sam em Londres-belle-époque”,7 Mrs.
Cawley fascina todo mundo com seu sorriso e seu fox terrier, enquanto seu
marido “compra as terras, compra tudo/ fácil, no deslumbramento”.
O último poema dessa seção, e assim a última a situar-se em Itabira,
volta a um tema recorrente, e a uma imagem também recorrente (ver, por
exemplo, “Coleção de cacos”): o menino desajeitado e gauche, e os
fragmentos de uma xícara de café pelando que deixa cair. “De cacos, de
buracos”…
Os cem poemas ou pouco mais que constituem a segunda metade de
Esquecer para lembrar tratam da vida além de Itabira. Não sabemos se
formaram parte do plano original, que parece ter se desenvolvido
lentamente. Uns poucos poemas já estavam em Boitempo (1968), na seção
“Outras serras”, e estão incluídos já no começo da última seção do livro,
“Mocidade solta”: estilisticamente, porém, harmonizam mais com os
primeiros poemas escritos.8 Embora sigam o modelo dos poemas
anteriores, curtos ou compridos, de formas e ritmos variados, a tendência é
de se afastar do lirismo e aproximar-se da narrativa. Até certo ponto, são
autobiográficos: pouco a pouco, ao longo do livro inteiro, o poeta recupera
o “direito à semelhança” que no poema “Documentário” (de Menino
antigo) já se resignara a ter perdido. Mas são muito pouco íntimos: o foco
muitas vezes cai sobre outras pessoas, e vê-se a si próprio de fora, numa
das personae a que nos habituamos na poesia anterior, de “Poema de sete
faces” em diante.
A segunda seção deste livro, e a mais curta, é “Primeiro colégio”, e conta
os quatro meses que passou no Colégio Arnaldo em Belo Horizonte, em
1916 — com treze anos, portanto. Foi a primeira temporada fora de casa,
mas a dor natural é atenuada — acompanhamos o menino, com o pai, até o
colégio. O professor de francês Arduíno Bolívar é o assunto de dois
poemas, e um tipo que muitos reconhecerão — tão submerso nas belezas
da literatura francesa que quase não nota os alunos na “doce navegação de estar sozinho”, mas por isso mesmo comunica seu enlevo: dádiva
permanente no poeta, sempre “nutrido do velho leite francês”.9 Também
reconhecerão o Irmão Paulo, o sádico praticante da Arte de Dar Cascudos.
Foi aqui que Drummond encontrou alguns de seus amigos mais
importantes e permanentes: Gustavo Capanema (“Figuras”) e Abgar
Renault (“Craque”), por exemplo. Esse internato é poroso: vai-se visitar os
parentes, passeia-se no “Parque municipal” de Belo Horizonte, com seu
pederasta residente (“que faz o gesto lúbrico, sorri”), jardim também
evocado (“nem simbolista nem parnasiano”) no bonito “Apontamentos”.
A seção “Fria Friburgo”, por contraste, nos leva ao típico internato
fechado (neste caso, jesuíta — Loiola rima com gaiola — com seu sistema
de generais e coronéis, soldados de Cristo). É a instituição que habita os
pesadelos de gerações de jovens, não só brasileiros, não só católicos, do
século XIX até pelo menos os anos 1970: nessa medida, evoca um ambiente
que muitos podem compreender. Várias vezes, recorre à imagem óbvia do
cárcere. Aqui, o bom professor, padre Filippo, “cansado de obedecer, vai
dar o fora” (“Recusa”); e há o perverso Padre Rubillon, que ama mostrar
sua “superioridade” propondo quebra-cabeças supostamente sofisticados,
na verdade infantis: o tipo de injustiça trivial de que uma criança sensível
vai se lembrar. Finalmente, como se sabe, Drummond foi expulso desse
colégio noutro ato de injustiça que mudou sua vida (“Perdi a Fé. Perdi
tempo”); como nota com certo prazer vingativo na mesma “Autobiografia
para uma revista”, o padre que o “fulminou com essa sentença
condenatória morreu, alguns anos depois, num desastre de bonde na Rua
São Clemente”.10
Por fim, mudamos para Belo Horizonte, para onde Drummond foi em
1920 com a família e viveu até 1934, cidade na qual começou sua carreira
literária. O assunto, então, é a vida nessa cidade “moderna”, mas também
provinciana. O poema de abertura, “A casa sem raiz”, descreve a casa na
Floresta, para onde mudou com os pais e o irmão José. É sobretudo
notável pelo que não é — “A casa não é mais a casa itabirana”. O
adolescente perdido, já “de alma antiga”, mora numa “suposta habitação
de um eu moderno”. Já em “Dormir na Floresta”, revelam-se os alicerces
da seguridade burguesa, suas bases financeiras, políticas e até religiosas (a Equitativa, o Partido Republicano Mineiro, o Vaticano), segurança só
ameaçada por um fantasma inofensivo, o apito do trem da Oeste de Minas.
É o mesmo pano de fundo de Alguma poesia, e não deixará de interessar
os curiosos pela cidade de Belo Horizonte desses anos, social, literária e
artística — assemelha-se, nesse sentido, às memórias de Pedro Nava.
Alguns poemas, como “Ode ao Partido Republicano Mineiro”, “O senhor
diretor”, “Redator de plantão” e “Verbo e verba” lembram o importante
papel que teve o Diário de Minas, órgão oficial do P.R.M., em sua carreira
literária e burocrática; outros — “Doidinhos”, “Jornal falado”, “As letras
em jantar”, “A consciência suja”, “O príncipe dos poetas” — evocam os
grupos e tendências literários do tempo, dele e de outros. Justamente por
não se preocuparem com a poesia drummondiana desse período, situam-
nos numa outra perspectiva, menos modernista, mas nem por isso menos
iluminadora. Um dos poemas, “Parceiro de Bach”, parece uma reescritura,
em tom de farsa, de um dos poemas de Alguma poesia, “Nota social”, no
qual o canto monótono e estridente do grilo significa algo talvez mais
“autêntico” que a voz do poeta preso em convenções sociais. Outro, “A
difícil escolha”, um de vários poemas que envolvem o cinema, lembra um
poema “trivial” de Sentimento do mundo, “Indecisão do Méier”. O tema,
novamente, é a gaucherie do poeta e a rigidez da Tradicional Família
Mineira — num dos poemas, não pode ir ao cinema com a namorada,
porque teria de levar a família dela inteira de chaperon! Estamos no
mesmo mundo deste “haicai urbano” publicado em 1926, mas excluído de
Alguma poesia: “Na escuridão da sala/ Tom Mix apareceu/ e meus braços
fracos te apertaram”.11 Pouco a pouco, atamos as duas pontas da vida do
poeta e nos reunimos ao Drummond “oficial”, o que estreou em 1930.
1 Carlos Drummond de Andrade, Querida Favita: Cartas inéditas. Org. de Flávio A. de Andrade Goulart e Myriam Goulart de Oliveira. Uberlândia: Edufu, 2007, p. 77.
2 Em “No exemplar de um velho livro” de Fazendeiro do ar (São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 11) surge a mesma angústia, em relação a Brejo das Almas.
3 A descoberta desse ritmo fundamental deve-se em parte à influência de Jules Supervielle. É o que argumento em meu Influências e impasses: Drummond e alguns contemporâneos (São Paulo: Companhia das Letras, 2003), cap. 3.
4 John Gledson, Poesia e poética em Carlos Drummond de Andrade. São Paulo: Duas Cidades, 1982, pp. 152-6.
5 A fazenda do Pontal, segundo José Maria Cançado, em Os sapatos de Orfeu (São Paulo: Scritta, 1993, p. 28), era a fazenda principal do pai de Drummond, Carlos de Paula Andrade, que possuía mais três. Foi arrasada na década de 1970 para que se construísse uma barragem de rejeito de minério, sendo reconstituída em 2004, um pouco acima do lugar original, usando parte do mesmo material, guardado por três décadas pela empresa Vale. Ver Itabira, publicação do Departamento de Turismo da Prefeitura Municipal de Itabira; e Carlos Drummond de Andrade, Querida Favita, op. cit., p. 57, 12n.
6 Cançado, op. cit., p. 32.
7 Mr. Jones pode ou não ser real, mas este John Hays Hammond (1855-1936), engenheiro, diplomata, filantropo e explorador ousado que comprava terras e abria minas é perfeitamente real, assim como a grande maioria dos personagens históricos, locais, nacionais e mundiais dos poemas.
8 Entre eles, “Blenorragia”, talvez explicado pelo episódio alegado por José Maria Cançado; ver nota 3 do posfácio do primeiro volume.
9 “Vinte livros na ilha”, em Confissões de Minas. São Paulo: CosacNaify, 2011, p. 207.
10 Para uma versão verossímil do que realmente aconteceu, ver Cançado, op. cit., pp. 68-9.
11 Ver a tese de Thais Isabel Castro, Dez anos de lirismo desenfreado: Poesia inédita de Carlos Drummond de Andrade nos anos 20. Belo Horizonte: UFMG, 2004, p. 222.