Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 51 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

O doutor ausente

 

Nosso delegado

não é de prender.

Prefere, sossegado,

ler.

 

Clássicos latinos,

velhos portugueses.

A vida ficou sendo

estante.

 

Entre Virgílio e Fernão Lopes

a garrafa clara

cheia vazia cheia

contém o mundo retificado.

 

Nosso delegado

nasceu para outros fins

ausentes do viável.

 

Não escuta o cabo

dizer que na Rua de Baixo

acontece o diabo.

 

A estante, a garrafa semioculta,

a cavalgada dos possíveis impossíveis.

Matou! Roubou! Defloramento…

Deixa pra lá.

 

Deixa bem pra lá de Ovídio,

enquanto a bela (ou bela foi um dia) Elzira

lhe afaga os bigodes desenganados.

O delegado não prende.

O delegado está preso

à estante repetida, à sempre garrafa,

ao colo, à coleira

de Elzirardente consolatória.