Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 120 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Dormitório

 

Noite azul-baça no dormitório onde três lâmpadas

de tom velado controlam minha ensimesmada quietude.

Que faço aqui, longe de Minas e meus guardados,

neste castelo de aulas contínuas e rezas longas?

 

Prisão de luxo, todo conforto, luz inspetora

de sonhos ilícitos. Joelho esticado: nenhuma saliência

a transgredir a horizontal postura de sono puro.

Fria Friburgo, mas aqui dentro a paz de feltro.

 

No azul mortiço de oitenta camas, boiam saudades

de longes Estados, distintas casas, tantas pessoas.

Incochilável, o irmão vigilante também passeia

sob cortinas sua memória particular?

 

Uns já roncando. O azul nublado envolve em rendas

de morte vaga os degredados filhos-família.

Fugir, nem penso. Mas fujo insone, meu pensamento

alcança o longe, apalpo-me egresso do grande cárcere.

 

Vou correndo, vou voando,

chego em casa de surpresa,

assusto meu pai-e-mãe:

— Não quero, não quero mais,

não quero mais voltar lá.

(É tudo que sai da boca,

é tudo que sei dizer.)

— Que papelão!

Se não voltar, te castigo,

te deserdo, te renego.

O dinheiro posto fora,

as esperanças frustradas,

botarei na tua conta

em cifras de maldição.

— O que o senhor fizer

está bem feito, acabou-se,

mas não me tire de junto

da família e do meu quarto.

Me ponha tangendo gado

ou pregando ferradura,

me faça catar café,

aos capados dar lavagem,

mas eu não volto mais lá.

É bom demais para mim,

é tudo superior,

mas lá eu sou infeliz,

lá eu aprendo obrigado,

não por gosto de aprender.

Tem hora de liberdade

e hora de cativeiro,

mas a segunda é total,

a primeira, imaginária.

Tem hora de se explicar,

hora de pedir desculpa,

hora de ganhar medalha,

hora de engolir chacota

(é a hora de ler a nota

do nosso comportamento),

hora de não reclamar,

hora de…

Por Deus, não quero voltar

a esse estranho paraíso

calçado de pão de ló, futebol e humilhação.

— Já disse: está decidido.

Some da minha presença.

— Papai!…

 

A tosse ao lado me traz de volta ao azul-penumbra.

Quando termina, se é que termina, o meu exílio?

Que tempo é novembro, se ainda há novembro no calendário?

Na noite infinda, por que minha noite ainda é maior?

 

Fugir não adianta. Não adianta senão: dormir.