Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 117 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Passeio geral

 

Uma vez por mês

café da manhã

com pão e manteiga.

Nesse pão de sempre

a manteiga é signo

de um dia feliz.

Uma vez por mês

passeio geral.

Saímos aos três

em fila informal,

vigilante ao lado,

no rumo sabido:

chácara do Braga.

Manhãzinha branca,

fantasmas nevoentos

saindo da bruma,

passamos na ponte

do Rio Bengalas.

Latões de tutu,

de linguiça e arroz

vão na carrocinha.

Uma vez por mês

é a liberdade

ou seu faz de conta

por algumas horas:

água, mato, riso,

canto, bola, gruta

onde se penetra um de cada vez

e só entra quem

no peito escorraça

outro candidato.

Lá dentro gritamos

sob o teto baixo

chamando o paciente

mistério do eco.

Diverte-se o medo

na volta instantânea

ao adormecido

homem da caverna.

Que estrondo lá fora

transforma o brinquedo

em puro terror?

Os maximalistas

chegam a Friburgo

instaurando a guerra

em pleno passeio?

Saio a quatro pernas:

o boneco estranho,

o bicho-preguiça

que o Irmão Primavera

preparou com arte

e gordo recheio

de bombas e traques

explode na luz

qual fosse o demônio.

Uma vez por mês

acontecem coisas

não convencionais.

Sentados no chão

ou em tocos de árvore

nosso piquenique é comer de deuses.

Come-se dobrado,

come-se com fome

de comer o raro

prazer do ar livre.

Mas que é isso? Um pingo,

outro pingo, pingos

na minha comida

que já se derrete

sob a chuva forte.

Depressa, correr

e pedir abrigo

na casa do Braga

onde uma sanfona

acompanha lenta

o chicote rápido

da chuva nas folhas.

Uma vez por mês

essa expectativa

de um dia feliz

ou dia frustrado.

Vigilante ao lado,

em fila de três

depois da estiada

a volta na lama

do chão encharcado.

Todo um mês à frente

a passar na espera

dessa vez por mês.