Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 62 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

O original e a cópia

 

No dia infindável,

no centenário banco de farmácia,

discutem passarinho

como se fosse polícia municipal.

Carece discutir alguma coisa,

senão o tempo vira mármore

gelado

e todas as pessoas viram mármore

roído, desbotado; de jazigo.

Discute-se a vária cor do sabiá,

o voo particular do sabiá,

o canto divino do sabiá,

superior à flauta de Lilingue.

Protesta Lilingue,

retira-se, flautista indignado.

Silêncio de sem-jeito.

Seu Paulinho Apóstolo rompe o mal-estar:

— De todos os sabiás da redondeza

(e abrange, mãos em concha, o orbe terráqueo),

desde o coleira ao laranjeira,

o que eu destaco pela melodia,

que é dom de Deus, sei lá, de anjos cantores,

é o sabiacica.

Todos se erguem, estupefatos:

— Mas não é sabiá! É papagaio!

Só imita sabiá, o porcaria!

Seu Paulinho Apóstolo sorri

de tamanha besteira:

— Bobagem de vocês, o sabiá

é que vive imitando sabiacica.