Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 154 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

As letras em jantar

 

Meu primeiro banquete literário.

O espelho art nouveau do Hotel Avenida

reflete doze ilustres escritores.

Convidado! sento à mesa dos ilustres,

ilustre me tornando em potencial,

representante da escola, por nascer,

dos bárbaros futuristas do Curral.

Osvaldo de Araújo, Aldo Delfino,

Mário Mendes Campos, cristais, flores,

Abílio Barreto, Silva Guimaraens,

Rangel Coelho, quem mais? Não os distingo,

pois nem distingo a mim, de tão repleta

esta hora (o vinho, a carne) de horizontes.

Qual a razão do bródio? Precisa haver razão

para bródios? As letras mandam

comer, sorver a glória deste instante,

Agripa de Vasconcelos, o poeta,

recém-eleito acadêmico mineiro,

oferece-nos o prândio. Na verdade

nós é que devíamos prestar-lhe

este preito ritual.

Mas ele paga. E recita

à sobremesa, com voz clara:

“O meu destino… onde me levará?”.

A pergunta ressoa (garfos, copos)

e ninguém na mesa em festa ousa fazer

de si para si mesmo

a grave indagação.

Quedamos importantes, paralisados,

na foto de magnésio.