Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 45 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Orgulho

 

Com toda a sua pomada

e seu horror a pedir,

ao ver a Agência fechada,

Manduca diz, soberano:

“Meu tio, quer me emprestar

um selinho de cem réis?”.

“Pois não, lhe empresto, sobrinho.”

A carta segue seu rumo,

passa um dia, um mês, um ano

e Manduca, muito ancho,

se gaba de não dever

nem um tostão a ninguém.

“Alto lá, sobrinho, então

eu não lhe emprestei um selo

justamente de tostão?

Se me pagar nesta hora,

prometo não desmenti-lo,

dispenso juro de mora,

mas você fica devendo

o preço desta lição.”