Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 149 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Rebelião

 

A empresa Gomes Nogueira

dobrou o preço do ingresso.

Alega que a nova fita

é de beleza infinita.

 

Aos estudantes recusa

direito de meia-entrada,

esse direito imortal,

escrito na lei falada.

 

Tamanho abuso levanta

as pedrinhas do passeio.

Até mancebos serenos

protestam; nem é pra menos.

 

Vamos entrar assim mesmo,

protestar não adianta,

e a fita, diz Cena Muda,

tem um mistério que espanta.

 

Mas tamanho desagrado

na algibeira estudantil

gera rumor, logo mil

ruídos vão se encorpando.

 

Ninguém vê o preto e branco

enrolo das peripécias

do dramalhão Paramount.

A bagunça, num arranco,

 

toma conta do recinto,

malhando cadeira e tudo quanto é peça de madeira.

Acende-se a luz. E sinto

 

que é hora de grande alvitre:

levar essa massa humana

para a reforma do mundo.

Começar? Já, num segundo,

 

deixar a sala-ratoeira

(pois a Polícia é finória)

e sair, queimando bondes,

que nada têm com essa história.

 

Os bondes, mas logo os bondes,

providência de estudantes?

Isso mesmo: velho impulso,

a destruição dos amantes.

 

Do cinema em polvorosa,

na turba, sai o anarquista.

A noite, incendida rosa,

abre um clarão na Lagoinha.