Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 73 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

História trágica

 

— Esta ponte está podre,

não passa de janeiro.

Ou cai agora ou não me chamo

Flordualdo.

 

— Esta ponte cair? Meu avô foi quem fez.

Ninguém vivo, atual, dura mais do que ela.

Esta ponte é de Deus,

é Deus quem toma conta

da madeira e dos ferros,

eterno, tudo eterno.

 

— Pois eu digo que sim.

Repare nos buracos.

Você passa e ela treme

de velhice. O caruncho

alastrado nas vigas.

Esta ponte é o diabo,

ela está condenada

só você que não sabe.

 

— Alto lá.

Esta ponte é sagrada.

É ponte de família

que meu pai ajudou

a tirar da cabeça

e a dominar as águas.

Ela há de viver

nos séculos dos séculos

contra caruncho e raio, dinamite e praga.

E, pra encurtar conversa,

eu Mateus te afianço:

antes que a ponte caia,

você cairá da ponte

com esta bala certeira:

toma.