Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 135 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Dormir na Floresta

 

é dormir sem feras

rugiameaçando.

(A Floresta, bairro

de jardins olentes

com leões cerâmicos

a vigiar portões

e sonhos burgueses

de alunas internas

do Santa Maria.)

Dormir na Floresta

é dormir em paz

de família mineira

para todo o sempre

garantida em bancos

e gado de corte,

seguro de vida

na Equitativa,

crédito aberto

no Parc Royal,

guarda-chuva-e-vento

do P.R.M.,

indulgência plena

do Vaticano.

E ter a certeza,

na manhã seguinte,

de bom leite gordo

manado de vacas da própria Floresta,

de bom pão cheiroso

cozido nos fornos

da Floresta próvida.

Dormir na Floresta

é esquecer Lenine,

o Kaiser, a crise,

a crase, o ginásio,

restaurar as fontes

do ser primitivo

que era todo lúdico

antes de sofrer

o esbarro, a facada

de pensar o mundo.

Mas de madrugada

ou talvez ainda

na curva das onze

(pois se dorme cedo

na Floresta calma,

de cedo acordar)

um lamento lúgubre,

um longo gemido,

um uivo trevoso

de animal sofrendo,

corta o sono a meio

e todo o sistema

de azul segurança

da Floresta rui.

Que dor se derrama

sobre nossas camas

e embebe o lençol

de temor e alarma?

Que notícia ruim

do resto da Terra não compendiado

em nossos domínios

invade o fortim

da noite serena?

Logo nossas vidas

e mais seus problemas

despem-se, descarnam-se

de todo ouropel.

Já não somos os

privilegiados

príncipes da paz.

Já somos viventes

intranquilos, pávidos,

como os da Lagoinha

ou de Carlos Prates,

à mercê de furtos,

de doenças, fomes,

letras protestadas,

e, pior do que isso,

carregando o mundo

e seus desconcertos

em ombros curvados.

Eis que se repete

o pungente guai,

perfurando as ruas

e casas e mentes

com seu aflitivo

doer dor sem nome.

De onde vem, aonde

vai, se vai ou vem?

Triste, ferroviário

apito de máquina

da Oeste de Minas

manobrando insone, paralelo ao rouco

ir e vir arfante

de locomotiva

da Central, rasgando

a seda sem ruga

de dormir sem dívidas,

cobrando a vigília,

o amargo remoer

da consciência turva.

Não parte, não volta

de nenhum destino

o trem espectral,

roda sem horário,

passageiro ou carga,

senão nossa carga

interior, pesada,

de carvão, minério,

queijo de incertezas,

milho de perguntas

? ? ? ? ? ? ? ?

gado de omissões.

Fero, trem noturno

a semear angústia

na relva celeste

da Floresta em flor.