Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 131 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Adeus ao colégio

 

I

 

Adeus, colégio, adeus, vida

vivida sob inspeção,

dois anos jogados fora

ou dentro de um caldeirão

em que se fritam destinos

e se derrete a ilusão.

Já preparo minha trouxa

e durmo na solidão.

Amanhã cedo retiro-me,

pego o trem da Leopoldina,

vou ser de novo mineiro.

Da angústia a lâmina fina

começa a me cutucar.

É uma angústia menina,

ganhará forma de cruz

ou imagem serpentina.

Sei lá se sou inocente

ou sinistro criminoso.

Se rogo perdão a Deus

ou peço abrigo ao Tinhoso.

Que será do meu futuro

se o vejo tão amargoso?

Sou um ser estilhaçado

que faz do medo o seu gozo.

 

II

 

Nada mais insuportável do que essa viagem de trem. Se me atirassem no vagão de gado a caminho do matadouro

talvez eu me soubesse menos infeliz.

Seria o fim, e há no fim uma gota de delícia,

um himalaia de silêncio para sempre.

Não quero ouvir falar de mim.

Não quero eu mesmo estar em mim.

Quero ser o barulho das ferragens me abafando,

quero evaporar-me na fumaça,

quero o não querer, quero o não quero.

Como custa a chegar o chão de Minas.

Será que se mudou ou se perdeu?

Olho para um lado. Para outro.

O esvoaçar de viuvez

no todo preto da senhora à esquerda,

no preto dos vestidos, das meias e sapatos

de duas mocinhas de olhos baixos,

não tão baixos assim. Essa os levanta,

cruza com os meus, detêm-se. O luto evola-se.

É um dealbar no trem tristonho,

sonata em miosótis, aragem na avenca

súbito surginte

em jarra cristalina.

Cuidados meus, desgraças minhas,

eia, fugi para bem longe.

O idílio dos olhos vos expulsa,

como expulso fui eu, ainda há pouco,

de outra forma — que forma? nem me lembra.

Vem do céu a menina e a ele me leva,

leves, levíssimos os dois.

Palavra não trocamos: impossível

mãe presente.

E para que trocá-las, se nem sei

se vigoram palavras nesta esfera

diáfana, a que me vejo transportado?

Nem ideia de amor acode à mente,

que o melhor de amar não é dizer-se,

nem mesmo sentir-se: é nos abrir

a mais sublime porta subterrânea.

Estou iluminado

por dentro, no passado,

no futuro mais longínquo

e meu presente é não estar no tempo

e alçar-me de toda contingência.

De banco de palhinha a banco de palhinha,

entre fagulhas de carvão

fosforescentes na vidraça,

entre conversas e pigarros,

diante do chefe de trem que picota bilhetes,

torna-se a vida bem não desgastável

se a menina sorri

quase sem perceber que está sorrindo.

Nem a irmã reparou. Mas eu colhi

a laranja de flores deste instante

que vou mastigando como um deus.

Foi preciso sofrer por merecê-la?

Agora que a alcancei, não deixo mais

este comboio, este sol…

 

III

 

Por que foi que inventaram

a estação de Entre Rios?

E por que se exige aqui baldeação

aos que precisam de Minas?

Já não preciso mais. Vou neste trem

até o infinito dos seus olhos.

Advertem-me glacialmente:

“Tome o trem da Central e vá com Deus”.

Como irei, se vou sozinho e sem mim mesmo, se nunca mais, se nunca mais na vida

verei essa menina?

Expulso de sua vista

volto a saber-me expulso do colégio

e o Brasil é dor em mim por toda parte.