Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 127 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Discursos

 

Chegam os padres de Paris.

São festejados com discursos.

Fazem anos os padres importantes.

Envolve-os o aroma de discursos.

Convalescem os padres de sombrias

pneumonias duplas.

Em discursos a alta se proclama.

 

Que fizeram de imenso?

Chegaram,

aniversariaram,

enfermaram,

escaparam.

 

A oratória celebra estes prodígios

em tropos sublimes. Como falam

bonito meus colegas.

Que anástrofes, metáforas, perífrases,

que Cíceros, Demóstenes e Ruis.

Na aula de Português eles nem tanto.

Mas é soltar o verbo, e jorram

estrelas em forma de vocábulos

para saudar nossos amados guias.

O espírito da eloquência

baixa de não sei onde e lhes inspira

rasgos terreais de Mont’Alverne.

É pena: ainda não vi

ninguém fazer um discursinho mesmo chocho

ao Irmão Falcão, enaltecendo a grata, oportuna cervejinha

por ele fabricada.