Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 150 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

O fim das coisas

 

Fechado o Cinema Odeon, na Rua da Bahia.

Fechado para sempre.

Não é possível, minha mocidade

fecha com ele um pouco.

Não amadureci ainda bastante

para aceitar a morte das coisas

que minhas coisas são, sendo de outrem,

e até aplaudi-la, quando for o caso.

(Amadurecerei um dia?)

Não aceito, por enquanto, o Cinema Glória,

maior, mais americano, mais isso e aquilo.

Quero é o derrotado Cinema Odeon,

o miúdo, fora de moda Cinema Odeon.

A espera na sala de espera. A matinê

com Buck Jones, tombos, tiros, tramas.

A primeira sessão e a segunda sessão da noite.

A divina orquestra, mesmo não divina,

costumeira. O jornal da Fox. William S. Hart.

As meninas de família na plateia.

A impossível (sonhada) bolinação,

pobre sátiro em potencial.

Exijo em nome da lei ou fora da lei

que se reabram as portas e volte o passado

musical, waldemarpissilândico, sublime agora

que para sempre submerge em funeral de sombras

neste primeiro lutulento de janeiro

de 1928.